Damasco afirma ter soltado mais 552 presos

Opositores acusam regime de Assad de enganar os observadores da Liga Árabe; desertores pedemfim da missão

BEIRUTE, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2012 | 03h04

A TV estatal da Síria anunciou ontem que o governo do presidente Bashar Assad libertou 552 prisioneiros envolvidos em "atividades subversivas"durante os nove meses de protestos contra o regime. Os presos libertados, segundo Damasco, "não estão envolvidos em atos terroristas sangrentos, assassinatos ou explosões".

Esse é o segundo grupo de presos libertados em uma semana. Outros 755 foram libertados no dia 28, cumprindo um acordo firmado com a Liga Árabe para acabar com a crise política no país. De acordo com a Sana, agência de notícias estatal, 4 mil prisioneiros foram libertados desde novembro.

O Comitê de Coordenação Local (CCL), grupo opositor, contestou ontem os gestos de cooperação do regime e afirmou que tem provas da prisão de 16,7 mil pessoas - 381 seriam menores, 786 estudantes, 171 mulheres e 273 médicos. O total de detidos poderia chegar a 37 mil, segundo o CCL.

Uma missão de observadores da Liga Árabe está na Síria para verificar a aplicação do plano de paz, que também prevê a retirada de tanques das cidades e o fim da violenta repressão às manifestações populares.

Na quarta-feira, ativistas acusaram o regime de Assad de enganar os observadores da Liga Árabe, levando-os a regiões que permanecem leais ao presidente e mudando as placas das ruas para confundi-los.

Os opositores também garantem que o governo enviou simpatizantes a bairros rebeldes para que dessem falsos testemunhos. De acordo com ativistas sírios, outra tática usada pelos partidários de Assad é pintar os veículos militares de azul para que eles se assemelhem a carros da polícia - a estratégia permite ao regime dizer que retirou o Exército de áreas rebeldes.

A Liga Árabe não fez nenhum comentário. Um alto funcionário da organização disse à agência Associated Press que nenhum de seus enviados havia feito reclamações até o momento. Segundo ele, a missão, que conta com 100 observadores, receberá um reforço de mais 40, que chegam hoje ao país.

Retirada. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Síria, Jihad Makdissi, negou as acusações de que Damasco estaria enganando os observadores da Liga Árabe. "Nós não interferimos no trabalho da missão", afirmou. Segundo ele, o governo sírio tem dado todo o "respaldo necessário" para proteger os observadores.

Desertores. Os militares desertores que formam o chamado Exército Sírio Livre (ESL) pediram ontem à Liga Árabe que retire sua missão de observadores, que teria fracassado em conter a violência no país.

"Esperamos que eles anunciem que a missão foi um fracasso e se retirem", disse o coronel Riad al-Asaad. "Pedimos à Liga Árabe que abra espaço e deixe a ONU assumir a responsabilidade, já que ela tem maior capacidade para encontrar soluções."

Segundo Malik Kurdi, o número 2 do ESL, o grupo mudará sua estratégia na luta contra Assad. Nos próximos dias, de acordo com ele, os desertores passarão à ofensiva. "Frente à repressão e ao desafio do regime sírio à comunidade internacional, somos obrigados a mudar o modo de agir e atacaremos alvos vitais do governo opressor", disse o subcomandante do ESL.

O coronel Kurdi afirmou ainda que a nova campanha do ESL começará ainda "esta semana ou talvez mais tarde", já que as operações militares precisam de um "elemento surpresa". De acordo com ele, os alvos das ações serão unicamente "do regime" e não teriam nenhuma relação com a população.

'Ajuda técnica'. Em meio às acusações de que a missão de observadores árabes está legitimando a violência do governo na Síria, o xeque Hamad bin Jassim al-Thani, premiê do Catar, reuniu-se ontem em Nova York com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Ele afirmou que foi aos EUA pedir "ajuda técnica" da organização.

"Vim pedir uma ajuda técnica e saber mais sobre a experiência que a ONU tem, porque é a primeira vez que a Liga Árabe se envolve em uma missão de observadores", disse o xeque. Ele reconheceu que a missão "cometeu alguns erros" na Síria, embora não tenha detalhado quais seriam eles.

A ONU diz que a repressão aos protestos contra o governo de Assad já deixou mais de 5 mil mortos desde março, a maioria civis. De acordo com grupos opositores, o número exato de vítimas é de 5.862.

Em um comunicado, o CCL informou que 24 pessoas foram mortas ontem pelas forças de segurança de Assad - 12 na cidade de Deir al-Zur, 5 em Homs, 3 em Hamuria e 1 em Alepo, Damasco, Deraa e Idleb. / REUTERS, AP e EFE

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.