Jamal Saidi/Reuters
Jamal Saidi/Reuters

Damasco usará cúpula sobre crise síria para propor ‘união contra terror’

Pela primeira vez em dois anos, representantes do regime Assad e dos rebeldes se sentarão à mesa de diálogo, ao lado de representantes de dezenas de países

O Estado de S. Paulo, Jamil Chade, enviado especial a Montreux

21 de janeiro de 2014 | 23h21

MONTREUX - A conferência de paz sobre a Síria que começa hoje na Suíça reunirá pela primeira vez o governo de Bashar Assad e a oposição para negociar depois de três anos de conflito e 130 mil mortes. Os representantes de Damasco proporão uma "união internacional contra o terrorismo", usando o avanço de grupos jihadistas na Síria para conseguir apoio. A expectativa de que a conferência apresente um resultado rápido é mínima.

Cerca de 40 países estarão presentes para endossar a negociação. Ontem, os presidentes Barack Obama, dos EUA, e Vladimir Putin, da Rússia, tentaram aproximar posições por telefone. O Estado apurou que, fortalecido, o regime de Assad tentará redefinir o objetivo do encontro. A meta do Ocidente é aplicar o acordo de 2012 que determina um governo de transição. Assad já disse que a hipótese de sua saída está descartada e pretende ir à reeleição este ano.

Ataques de grupos radicais têm afetado não apenas o governo sírio, mas também a oposição e os interesses do Irã, além de criar laços entre terroristas que poderiam ameaçar o Ocidente. Assad tenta se apresentar como um aliado na guerra antiterror. Num gesto para se aproximar do Ocidente, o chanceler sírio, Walid al-Muallem, promete corredores humanitários sob controle do governo em locais sob forte ataque. Ele ainda aceitaria um cessar-fogo em Alepo.

A oposição se sentará à mesa com uma agenda radicalmente diferente: promover a queda de Assad e o estabelecimento de um prazo para a formação do governo de transição e eleições. "Queremos um calendário claro para a transferência de poder. Essas negociações não podem durar para sempre", disse Haitham al-Maleh, um dos representantes da oposição.

"Estamos aqui para uma batalha diplomática", disse Badr Jamous, secretário-geral da Coalizão Nacional Síria. "Não aceitaremos menos que a retirada do criminoso Assad, uma mudança de regime e responsabilização dos assassinos."

A chefe da diplomacia da Europa, Catherine Ashton, insistiu que a meta da conferência é promover "uma transição política genuína" e a formação de um governo interino com "poderes executivos".

A desavença entre as potências aprofundou-se depois que o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, retirou o convite que havia feito ao Irã, após americanos e oposição síria ameaçarem boicotar o encontro. Ontem, Irã e Rússia atacaram Ban. "Nunca pedimos para ser convidados", declarou Marzieh Afkham, porta-voz da chancelaria iraniana. O chanceler iraniano, Javad Zarif, também criticou. "Já disse várias vezes a Ban que o Irã não aceita qualquer precondição", disse. "É lamentável que Ban não tenha a coragem de dar as razões reais da decisão de retirar o convite."

O chanceler russo, Serguei Lavrov, descreveu a retirada do Irã da lista de convidados como "um erro". "A ausência do Irã não vai contribuir para garantir a unidade do mundo muçulmano", disse.

A conferência foi precedida de um impasse curioso. O avião que levava a delegação do regime sírio para a Suíça foi retido no aeroporto de Atenas por mais de cinco horas porque negociadores estão na lista de pessoas proibidas de entrar na Europa. A empresa que abastece aviões recusou-se colocar combustível no jato de Assad, alegando que seria punida em razão de embargos. Depois da intervenção de diversos governos, os gregos limitaram-se a dizer que a retenção havia sido "um erro".

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