John P. Filo, CBS
John P. Filo, CBS

Dan Rather: 'Gosto de trabalhar, e sou apaixonado por notícais'

Aos 86 anos, o ícone do jornalismo televisivo dos Estados Unidos diz que não pensa em se aposentar, e quer continuar com seu sucesso na internet: "Não sei como e por quê aconteceu, mas fico feliz."

Steven Petrow, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

14 Novembro 2017 | 05h00

A caminho de sua nona década de vida, Dan Rather está anos distante da época em que as redes de TV dominavam o que os americanos pensavam a respeito do mundo em torno deles. Contudo, aos 86 anos, Rather não perdeu seu brilho. Na verdade, encontrou um nicho no novo mundo das mídias sociais, com quase 2,5 milhões de seguidores no Facebook.

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Esse "renascimento", como Rather explica, é particularmente gratificante para quem chegou a ser o “rosto da rede”, depois que sua carreira de 44 anos na CBS terminou de forma nebulosa por causa de um relatório equivocado no programa “60 Minutes” a respeito do serviço militar do então presidente George W. Bush durante a Guerra do Vietnã.

Rather saiu da CBS em 2006, mas continuou no jornalismo e até mesmo recebeu um Emmy pelo seu programa Dan Rather Reports na HDNet. Mas foi em consequência da sua participação no Facebook – e de suas postagens a respeito dos Estados Unidos de hoje – que o relançaram como escritor em uma idade na qual a maior parte das pessoas se aposentou. Seu livro mais recente, What Unites Us: Reflections on Patriotism, (O que nos une: Reflexões sobre o patriotismo, em tradução livre) é a visão de Rather sobre “o caos da nossa atual situação”. Nesse ponto de sua vida, diz, “se tenho algo com o qual contribuir, é explorando contexto e perspectiva”.

Durante uma entrevista recente em Nova York, Rather falou com o The Washington Post sobre envelhecer, sobre como o jornalismo mudou e como superar tempos difíceis.

Hoje é seu 86º aniversário. A que você atribui essa longevidade?

Quando penso no envelhecimento, o que não é frequente, penso em algo como: gosto de trabalhar e apaixonadamente, de cobrir as notícias. Acho que é por isso que eu tive tanta sorte de chegar até aqui. Creio que o que fez a diferença é o fato de me animar em levantar pela manhã, ansioso para começar a trabalhar e sentir profunda gratidão cada vez que trabalho.

Você se considera idoso?

Não, mas sei o que sou. Há momentos em que tenho uma dor ou um incômodo, o que eu chamo de insignificâncias, e é quando sou forçado a dizer a mim mesmo: “Dan, você está envelhecendo”. Mas no geral, não penso na idade. Em um dia como hoje, meu aniversário, sou meio que forçado a pensar sobre isso. Quando eu tinha 45 anos e viajava para lugares distantes, cobrindo guerras, revoluções e desastres naturais, lembro-me de dizer a mim mesmo: “Dan, para fazer esse tipo de trabalho, você precisa percorrer seis quilômetros e meio sobre vegetação rasteira e floresta. Quando chegar ao ponto que não possa mais fazer isso, deve parar.” Pouco tempo depois, eu disse para mim mesmo: “Bem, acredito que se eu conseguir percorrer quase cinco quilômetros, tudo bem”. E a cada década seguinte, fui ajustando a distância.

Você encara seu trabalho de forma diferente agora do que há 50 anos?

Durante muito tempo meu mantra foi “cabeça para baixo, cauda para cima, aceleração total o tempo todo”. Não sei exatamente quando, talvez no final dos anos 1960, eu diria: “Não se engane. Você precisa encontrar um meio termo. Controle seu ritmo. Escolha quais serão os momentos em que você colocará a cabeça para baixo, a cauda para cima, e acelerará com tudo, seguindo adiante”. Antes disso, era todos os dias, o tempo todo, em cada uma das histórias. Eu comparo (o modo como encaro as coisas agora) ao tempo em que lutava boxe no ensino médio. Uma das coisas que me ensinaram é que você não deve ficar achando que está a todo vapor em todas as rodadas. Mantenha seu ritmo, o que eles chamam de incentivo pelo pugilismo e corra: pratique seus golpes, dance, dê um tempo. Depois então há o momento para atacar.

Como seu casamento contribuiu para sua saúde e longa vida?

Se eu não estivesse casado com a mesma pessoa há 60 anos, duvido seriamente que estaria vivo hoje. Jean (a esposa) é muito cuidadosa com questões de saúde, e frequentemente me diz: "Você precisa cuidar do seu peso? Você precisa se exercitar mais? Você precisa encontrar um equilíbrio melhor entre a vida familiar e profissional?” O que era uma das minhas fraquezas.

Como seus sentimentos como marido e pai mudaram ao longo do tempo?

Não raciocinei o suficiente sobre o efeito que meu trabalho poderia ter tido sobre minha família. Eu cometi erros quando os filhos eram jovens. Nós mudamos muito. Eu nunca estava em casa, nem perto do que seria ideal. No primeiro ano que trabalhei para a CBS News, acho que estive em casa 31 dias. E o ano seguinte não foi muito melhor. Eu deveria ter conversado mais com Jean e os filhos (sobre as decisões que estava tomando) quando eram jovens. Mas eu era novo na CBS. Fiquei ao lado de lendas - Eric Sevareid, Charles Collingwood, Walter Cronkite e Howard K. Smith. Eu não era um estudante de pós-graduação na Rhodes, enquanto a maioria deles era. Parte da minha lógica era: não sou a pessoa mais inteligente aqui, não sou o melhor escritor aqui, então é melhor eu ter uma atitude e trabalhar mais que todo mundo.

Existe alguma outra coisa que você gostaria de mudar em sua vida?

Estar na televisão regularmente, sendo o “rosto da rede”, é estar constantemente inalando o combustível padrão NASA para o ego, e isso funciona contra você, quanto ao tipo de humildade, gratidão ou modéstia que deveria ter. Essas palavras raramente são associadas a alguém na televisão. Gostaria de ter sido inteligente o suficiente para entender isso aos 28 anos, ou 38, 48, 58 ou 68. Estou tentando muito seriamente agora.

Você acha que o jornalismo é um jogo de jovens?

Sim! O que levanta a questão: “que diabos eu estou fazendo, trabalhando nisso, nessa idade?” Para fazer um jornalismo minimamente próximo do bom, você tem que se consumir numa chama quente e inclemente. Precisa ter paixão - uma paixão que beira a obsessão. Precisa estar preparado para permitir que isso quase venha a consumir sua vida. Isso é mais fácil de manter quando se é mais jovem.

Você também enfrentou adversidades. Como você volta?

Aprendi que, para sustentar uma vida profissional como jornalista, você precisa ser forte e persistente. Nos meus primeiros anos, eu não era tão bem-sucedido - havia a dúvida concreta de saber se eu poderia ganhar a vida fazendo o que queria fazer tão apaixonadamente. Mas isso me colocou em boas situações mais tarde, quando enfrentei contratempos, invertidas e sofri ferimentos, alguns deles autoinfligidos. Meu treinador de boxe ensinou que é importante ser “um lutador que se levanta” - se for derrubado, você deve se levantar. Talvez aguentar uma contagem até oito, mas precisa se levantar.

Como você vê seu sucesso nas mídias sociais?

Maravilhado, quase estarrecido. Eu realmente não tenho uma explicação sobre o porquê e como aconteceu, mas fico feliz por isso. Os jovens integrantes da minha equipe continuavam tentando me convencer a entrar no Twitter e no Facebook. Eu continuava dizendo: “Sou muito velho para isso”. Eles diziam: “Dan, se você quer fazer parte da conversa, se quiser ser relevante, é imperativo que você vá ao Facebook". Finalmente, me convenceram. (Rather tem mais de 300 mil seguidores do Twitter).

O que você vê quando olha para o futuro?

Eu gostaria de continuar. Para usar outro clichê: eu só preciso continuar colocando um pé adiante do outro e não pensar muito sobre o futuro. Minha mãe tinha um ditado: “ontem sem lágrimas, mas amanhã sem medos”, que era sua forma de dizer: “concentre-se no hoje, concentre-se na hora, no dia. Não fique olhando para trás, não se preocupe com o que vem adiante.” Não vejo o que está à frente. Estou cuidando do hoje, tentando ser o melhor que poderia ser hoje. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

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