'Dança dos famosos' testa presidenciáveis

Em um país sem debates, ir a programa de maior audiência é essencial para chegar à Casa Rosada

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE, BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2015 | 02h03

Milhões de argentinos ignoram quem são Daniel Scioli, Mauricio Macri e Sergio Massa, os mais cotados nas pesquisas de intenção de voto para ocupar o lugar de Cristina Kirchner na presidência na eleição de outubro. A possibilidade de algum não saber quem é o apresentador Marcelo Tinelli é a mesma de não conhecer Maradona.

Na noite de segunda-feira, Tinelli começou a temporada de ShowMatch, a versão argentina do Dança dos Famosos, competição de baile com celebridades cujo formato teve sucesso em vários países. Na Argentina, o programa traz também convidados fora do concurso, para entrevistas em tom leve. "Para um candidato, fazer parte do trio convidado é como eliminar a todos os demais rivais", opina o professor de comunicação da Universidade de Buenos Aires, Henoch Aguiar. Ele estima que 4 milhões viram os três presidenciáveis confrontarem seus sósias ao vivo, ouvindo seus próprios vícios de linguagem e promessas. "Mais da metade do eleitorado conhece os candidatos em programas como esse. No máximo, 5% acompanham programas políticos tradicionais."

O principal oponente de Scioli na disputa para ser o candidato governista, o ministro dos Transportes, Florencio Randazzo, tentou reduzir os danos da superexposição rival. Mobilizou uma equipe para inaugurar linhas de trens às 23 horas, no horário do programa. As prévias ocorrerão em 5 de agosto, mas a chance de Randazzo é mínima. Scioli lidera a última pesquisa de opinião geral da consultoria Poliarquía, com 33,4%.

Peronista moderado que governa a Província de Buenos Aires, Scioli exigiu ser o primeiro dos três a entrar no palco - as participações foram separadas. Diante da provocação de Tinelli sobre qual era o verdadeiro, ele ou seu imitador, desfez e fez em segundos o nó da gravata, usando só o braço esquerdo - o direito ele perdeu em 1989, em um acidente de lancha esportiva.

Prefeito de Buenos Aires, o conservador Macri (27,3%, segundo a Poliarquía) viu seu sósia repetir a dança que virou marca em campanha - algo parecido a um caranguejo roqueiro. Enquanto os dois se contorciam, o palco foi tomado por bicicletas, referência aos 140 quilômetros de ciclovias, símbolo de seus oito anos de governo.

A Massa (20,1%, segundo a mesma consultoria), um ex-kirchnerista que vem perdendo terreno, sobraram as brincadeiras com as promessas contra a criminalidade - acabar com juízes que soltam ladrões, restabelecer o futebol com torcida visitante e usar drones na vigilância.

O peso do convite de Tinelli tem a ver também com a falta de debates presidenciais no país. Nunca houve, geralmente por desinteresse dos líderes das pesquisas. "Ir ao programa é uma forma de aliviar a pressão por um debate, que hoje só interessa a Massa", afirma Aguiar.

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