AP Photo/Hassan Ammar
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Das ruínas da guerra na Síria, surge um império das drogas sintéticas

Colaboradores e parentes de Assad controlam uma indústria ilegal nascida no caos do conflito

BEN HUBBARD E HWAIDA SAAD / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2021 | 05h00

DAMASCO - Construída sobre as cinzas dos 10 anos de guerra na Síria, uma indústria ilegal de drogas controlada por colaboradores e parentes do presidente Bashar Assad tornou-se uma operação multibilionária, superando as exportações legais sírias e transformando o país no mais novo narco-Estado do mundo.

Seu produto principal é o captagon, uma anfetamina ilegal que causa dependência, popular na Arábia Saudita e outros países árabes. As atividades dessa indústria se espalham por toda a Síria, incluem instalações onde as pílulas são fabricadas e embaladas para ocultá-las durante as exportações e redes de contrabando para distribuí-las ao mercado externo.

Uma investigação do New York Times constatou que grande parte da produção e da distribuição da droga é supervisionada pela Quarta Divisão Blindada do Exército da Síria, uma unidade de elite comandada por Maher Assad, irmão caçula do presidente e um dos homens mais poderosos do país.

Entre os principais atores dessa indústria estão também empresários com laços íntimos com o governo, o grupo militante Hezbollah e outros parentes do presidente, cujos sobrenomes lhes garante proteção para exercer atividades ilegais, de acordo com a investigação do Times, que tem como base informações de autoridades policiais de 10 países e dezenas de entrevistas com especialistas internacionais e regionais em drogas, sírios com conhecimento a respeito do comércio de drogas e autoridades e ex-autoridades dos EUA.

O comércio de drogas na Síria emergiu das ruínas da década que o país passou em guerra, que despedaçou a economia local, levou a maioria da população do país à miséria e fez com que integrantes do Exército e membros das elites políticas e empresariais buscassem novas maneiras de obter dinheiro vivo para conseguir contornar as sanções econômicas dos EUA.

Anfetamina ilícita é agora a exportação mais rentável da Síria, ultrapassando de longe a exportação de produtos legais, de acordo com uma base de dados a respeito de apreensões globais de captagon compilado pelo Times.

Em anos recentes, autoridades de Grécia, Itália e Arábia Saudita, entre outros países, apreenderam milhões de pílulas, a maioria originada de um porto controlado pelo governo sírio, parte apreendida em cargas cujo valor de varejo poderia ultrapassar US$ 1 bilhão, segundo autoridades policiais.

Cerca de 250 milhões de pílulas de captagon foram apreendidas no mundo este ano, mais de 18 vezes a quantidade apreendida quatro anos atrás.

O captagon é tão pouco conhecido fora do Oriente Médio que agências policiais de outras regiões nem sempre reconhecem a droga quando a encontram. E os traficantes se valem de métodos sempre diversos para esconder as drogas e transportá-las por rotas indiretas para omitir sua origem.

O valor de varejo das drogas apreendidas anualmente supera o valor das exportações legais da Síria, em sua maioria produtos agrícolas, desde 2019.

No ano passado, as apreensões globais de captagon tiveram um valor de varejo de aproximadamente US$ 2,9 bilhões, mais do que o triplo dos US$ 860 milhões gerados pelas exportações legais da Síria.

Agências policiais têm dificuldades para flagrar os traficantes, em grande medida porque as autoridades sírias dão pouca ou nenhuma informação sobre carregamentos que saem de seu país. Os nomes dos responsáveis pelos envios registrados na documentação de frete são normalmente falsos.

Ainda mais preocupante para os governos da região, a rede síria construída para contrabandear captagon começou a traficar também drogas mais perigosas, como metanfetamina, afirmam autoridades policiais regionais.

O maior obstáculo no combate a esse comércio, dizem, é a atividade contar com apoio de um Estado que tem pouca razão para ajudar a impedi-lo.

“A ideia de comunicar-se com o governo sírio pedindo cooperação é simplesmente absurda”, afirmou Joel Rayburn, enviado especial dos EUA para a Síria no governo Trump. “É literalmente o governo sírio que está exportando as drogas. Damasco não está apenas desviando o olhar enquanto cartéis de droga realizam sua atividade. O governo sírio é o próprio cartel.”

Surge um narco-estado

O captagon era produzido originalmente por uma farmacêutica alemã, como um estimulante para tratar transtorno do déficit de atenção e narcolepsia. Nos anos 80, usuários na Arábia Saudita e outros países do Golfo começaram a tomar a droga de maneira recreativa, para aumentar a energia, acabar com o medo ou ficar acordados para varar noites estudando, trabalhar, festejar ou dirigir.

Suas pílulas brancas eram estampadas com dois crescentes lunares, o que deu ao captagon o apelido em árabe “abu hilalain”, ou “o pai das duas luas”.

Depois que se constatou que o captagon causa dependência, a droga foi banida no fim dos anos 80. Mas para continuar alimentando o mercado do Golfo, a produção ilícita de captagon decolou, incluindo o Vale do Beqaa, um polo de produção de haxixe e bastião do Hezbollah, grupo militante com apoio do Irã que integra o governo do Líbano.

Enquanto o Captagon farmacêutico continha a anfetamina fenetilina, a versão ilícita comercializada hoje em dia, com frequência grafada como “captagon”, com c minúsculo, normalmente contém uma mistura entre anfetaminas, cafeína e diluidores variados. Versões mais baratas são vendidas por menos de US$ 1 a pílula na Síria, enquanto pílulas de melhor qualidade saem por US$ 14 ou mais na Arábia Saudita.

Depois que a guerra síria começou, traficantes aproveitaram-se do caos para vender a droga para combatentes de todos os lados do conflito. Sírios empreendedores, com a ajuda de farmacêuticos locais e equipamentos de fábricas de remédios em desuso, começaram a produzi-la.

A Síria tinha os componentes necessários: especialistas para mesclar drogas, fábricas para produzir itens para esconder as pílulas, acesso a linhas de frete no Mediterrâneo e rotas de contrabando estabelecidas para Jordânia, Líbano e Iraque.

Conforme a guerra foi se arrastando, a economia do país se despedaçou e um crescente número de colaboradores de Assad entrou na mira de sanções internacionais. Alguns deles investiram em captagon, e um cartel ligado ao Estado se desenvolveu, aliando oficiais militares, líderes milicianos, comerciantes cujos negócios prosperaram durante a guerra e parentes de Assad.

Os laboratórios de captagon estão espalhados pelas regiões sírias dominadas pelo governo, de acordo com cidadãos que vivem nas áreas onde as drogas são produzidas: territórios controlados pelo Hezbollah nas proximidades com a fronteira libanesa; imediações da capital, Damasco; e na cidade portuária de Latakia.

Muitas das fábricas são pequenas, instaladas em barracões de metal ou vilas esvaziadas, onde trabalhadores mesclam os elementos químicos em batedeiras e os prensam em forma de pílulas com equipamentos simples, de acordo com dois sírios que visitaram essas instalações. Soldados fazem a segurança de alguns locais de produção. Outros laboratórios têm placas declarando-os zonas de uso militar restrito.

A droga é contrabandeada por terra para Jordânia e Líbano, de onde parte da produção é traficada pelo aeroporto de Beirute e portos locais. A maior fatia sai da Síria pelo porto mediterrâneo de Latakia.

O gabinete de segurança da Quarta Divisão, comandado pelo major-general Ghassan Bilal, compõe grande parte do sistema nervoso da rede. De acordo com autoridades de segurança regionais e um ex-oficial militar sírio, os soldados do gabinete protegem muitas fábricas da droga e facilitam seu movimento pelas fronteiras sírias e do porto.

A reportagem não conseguiu localizar Maher Assad e o general Bilal para comentários. Autoridades do Ministério da Informação da Síria e sua missão diplomática em Viena não retornaram pedidos de comentário. O líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, negou qualquer ligação do grupo com o captagon. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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