AP Photo/Marco Ugarte
AP Photo/Marco Ugarte

Data infeliz para os mexicanos, 32 anos depois

Em meio à destruição causada pelo terremoto de terça-feira, há algumas razões para consolo

The Economist, O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2017 | 05h00

A coincidência foi sobrenatural. Às 13h14 de terça-feira, poucas horas depois de os mexicanos terem concluído um exercício antissísmico, marcando o 32.º aniversário do terremoto de 1985, o chão voltou a tremer. O abalo deixou centenas de mortos, centenas de feridos e um número ainda maior de desabrigados.

Cerca de metade das mortes ocorreu na capital mexicana, onde mais de 40 edifícios desabaram, incluindo a escola Enrique Rébsamen. Parte dos edifícios que caíram ficava em Condesa e Roma, bairro elegantes, cheios de bares e restaurantes, onde vivem muitos estrangeiros. Estavam apoiados sobre o leito seco do lago que circundava a capital asteca de Tenochtitlán, área também afetada em 1985.

O terremoto que abalou o sul do México no dia 8, matando pelo menos 98 pessoas, foi um dos mais fortes já registrados no país. Mas o epicentro do abalo foi a 120 km, no meio do mar. Embora tenha sido mais fraco, o tremor desta semana causou mais mortes. Seu ponto central foi uma região na divisa dos Estados de Morelos e Puebla, a 120 km da capital mexicana.

Ao primeiro terremoto seguiu-se um clima de despreocupação, que desapareceu rapidamente. O presidente Enrique Peña Nieto, que visitava as áreas afetadas no início do mês, voltou à capital e declarou estado de emergência. “É um teste severo e doloroso para o país”, disse.

A tragédia pegou o México num momento em que os ânimos já não eram dos melhores. Os mexicanos não aguentam mais a corrupção, a violência e a economia que avança em ritmo lento. Do outro lado da fronteira, Donald Trump lança insultos e faz ameaças ao país, muito embora agora tenha acenado com ajuda. Peña Nieto é impopular, mas a natureza resolveu entornar de vez o caldo.

Apesar disso, há razões para consolo. As catástrofes costumam fazer vir à tona o que há de melhor nos mexicanos. Minutos após o tremor, as pessoas saíram às ruas para ajudar, carregando baldes para recolher os escombros. Milhares trabalharam lado a lado com os agentes de resgate. Muitos ajudaram a organizar o tráfego e doaram água e alimentos. Ainda que em cidades menores houvesse o receio de saques, os mexicanos deram provas de que não são os “bad hombres” que habitam a imaginação de Trump.

O segundo motivo de consolo é o contraste com a devastação deixada pelo terremoto de 1985, quando cerca de 400 edifícios vieram abaixo e quarteirões inteiros ficaram destruídos. Estima-se que ao menos 10 mil pessoas tenham morrido. O fato de o abalo desta semana ter causado estrago menor se deve às mudanças no código de edificações, que se tornou bem mais rígido. 

Nos últimos anos, diversos arranha-céus comerciais de 50 andares ou mais foram construídos no Paseo de la Reforma, principal avenida da Cidade do México. Os prédios balançaram, mas não cederam. A destruição se concentrou nos edifícios construídos antes de 1985. Isso indica que é preciso investir mais na modernização das construções antigas, dotando-as de proteções antissísmicas, como no Chile. Em particular, as autoridades terão de buscar respostas para o desabamento da escola Enrique Rébsamen.

Em 1985, a reação do governo foi marcada por uma inação cruel e pela vergonhosa tentativa de ocultar a extensão da tragédia. Desta vez, as TVs cobriram ao vivo a destruição. Policiais, soldados e bombeiros foram mobilizados e trabalharam em conjunto com cidadãos comuns, em vez de tentar impedir o acesso às áreas atingidas. Graças a simulações, os mexicanos sabiam o que fazer. Alarmes avisam sobre a iminência de terremotos, mas não quando o epicentro é tão próximo quanto o desta semana.

A resposta equivocada das autoridades em 1985 contribuiu para a derrocada do sistema político autoritário, centrado no Partido Revolucionário Institucional (PRI), que governou o México por mais de 70 anos, até 2000. Peña Nieto recolocou o PRI na presidência, mas agora no contexto de uma democracia sustentada por uma sociedade civil vigorosa. Em meio a tanta tristeza e destruição, os mexicanos deveriam refletir também sobre os avanços que realizaram nos últimos 32 anos. / TRADUÇÃO ALEXANDRE HUBNER

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