Bloomberg photo by Jason Alden
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Davos, um microcosmo do mundo

Em um mundo sem líderes, o sistema internacional se enfraquecerá ou desmoronará?

Fareed Zakaria*, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2019 | 07h30

A atmosfera do Fórum Econômico Mundial de 2019 reflete o quadro global talvez de forma mais genuína do que em anos anteriores, e o retrato não é dos mais bonitos. 

A Casa Branca descartou a viagem da delegação oficial americana à conferência deste ano - um desdobramento do desentendimento do presidente Donald Trump com o Congresso - fornecendo uma metáfora perfeita para a perspectiva mais ampla: os EUA se retiraram do mundo.

Enquanto isso, a Europa está distraída, dividida e desanimada. Dos três principais líderes do continente, apenas um, a chanceler alemã Angela Merkel, apareceu. A primeira-ministra britânica, Theresa May, não pôde ir por causa da turbulência sobre o Brexit. O presidente francês Emmanuel Macron preferiu não ir porque enfrenta protestos populistas da direita e da esquerda. Neste ambiente, há uma falta de liderança em Davos vinda dos defensores habituais da democracia liberal e do sistema internacional com base em regras.

Isso não significa que qualquer um dos novos líderes globais tenha caído no vácuo. Ao contrário de algumas especulações, a China desempenhou um papel mais moderado no Fórum do que no passado. Enviou um respeitado estadista, o vice-presidente Wang Qishan, com uma mensagem anódina destinada a assegurar ao mundo que Pequim busca soluções com as quais todos saiam ganhando e sobre cooperação global.

Isso provavelmente reflete a realidade de que - política e economicamente - a China enfrenta seus próprios desafios internos, com a desaceleração do crescimento e o presidente Xi Jinping tentando apertar o controle sobre a vasta sociedade.

Enquanto as democracias ocidentais podem estar em declínio, o russo Vladimir Putin e o turco Recep Tayyip Erdogan ocupam uma posição muito mais fraca em seus países. Eles também, junto com o príncipe herdeiro Mohammed Bin Salman, da Arábia Saudita, ficaram em casa. Jair Bolsonaro, o novo presidente do Brasil, compareceu e fez um discurso bastante aguardado, mas de apenas seis minutos - e foi recebido com avaliações contraditórias.

A única área de otimismo consistente entre os participantes continua sendo a tecnologia. Executivos de corporações multinacionais como Novartis e Cargill falaram sobre a próxima grande oportunidade tecnológica - alavancar a inteligência artificial para tornar suas empresas muito mais eficientes e produtivas. Esta é uma tendência que eles veem como inexorável, forçando-os a se adaptar ou assistir à concorrência crescendo. Executivos e especialistas preveem que outra camada de empregos administrativos poderia estar em risco - a que envolve habilidades analíticas de rotina. Mas os CEOs aqui expressaram otimismo de que tudo será resolvido.

Empresários e executivos são mais abertamente pessimistas em relação ao comércio. Eles temem que uma guerra comercial entre os EUA e a China possa se espalhar. Caso isso aconteça, parece claro que a grande expansão da globalização acabou. Nos últimos 15 anos, não houve nenhum avanço significativo no comércio e ocorreram muitos contratempos de menor importância. Isso ainda não se traduziu em protecionismo em larga escala e guerras de tarifas, mas é uma nova estagnação.

Se o Ocidente está dividido, o mesmo acontece com outras regiões. Quase nenhum líder árabe compareceu à reunião da Liga Árabe no último final de semana em Beirute, relegando a cúpula a uma irrelevância ainda maior do que o habitual. A América Latina está dividida entre líderes como o conservador Bolsonaro e o novo presidente esquerdista do México, Andrés Manuel López Obrador. Os líderes de vários países menores (todos eles insistiram em manter o anonimato) descreveram um mundo à deriva e carente de qualquer meta coletiva, com apenas vozes sobre interesses pessoais limitados e conflitos sendo ouvidos. “Quando os americanos estão envolvidos, temos um senso de direção”, um deles me disse. 

Este, então, é o mundo pós-americano. Não um marcado pelo domínio chinês ou pela arrogância asiática. Não um antiamericano, mas na verdade, um no qual muitos anseiam por uma maior presença nos EUA. Um em que os países são autônomos, perseguindo limitadamente seus próprios interesses, e esperando que a estrutura da ordem internacional permaneça razoavelmente estável. Sem ninguém que apoie ativamente o sistema internacional, a grande questão permanece: em um mundo sem líderes, será que esse sistema se enfraquecerá e acabará desmoronando? / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

* FAREED ZAKARIA É COLUNISTA

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