De Gaza para onde?

Israel precisa se perguntar se tem como arcar com as consequências, caso a solução de dois Estados desapareça

GARETH, EVANS, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2012 | 02h07

As palavras mais sábias sobre a segunda guerra de Gaza talvez tenham sido proferidas por um israelense que vive num kibutz perto da fronteira com Gaza. "Se querem me defender... Não mandem as Forças de Defesa de Israel para 'vencer' em nosso nome", escreveu Michal Vasser no jornal Haaretz, no dia 15. "Comecem a pensar no longo prazo, não apenas na próxima eleição. Tentem negociar até que a fumaça branca saia pela chaminé. Parem com os 'assassinatos seletivos' e olhem nos olhos dos civis que estão do outro lado também." Obviamente, Israel tem todo o direito de se defender. Mas a lição das últimas duas décadas é que os ataques com foguetes param, e as intifadas não começam, quando há perspectiva de paz - e também que, quando essa perspectiva não existe, não há como conter a militância.

Talvez sejam cada vez mais escassas as chances de que as negociações em curso com a Autoridade Palestina (AP) resultem num acordo abrangente e sustentável, culminando com a solução de dois Estados - e na sua aceitação, ainda que de má vontade, pelo Hamas. Mas a única alternativa a isso é um ciclo interminável de violência entre israelenses e palestinos.

A prioridade agora é estabilizar a situação em Gaza. Mas se autoridades israelenses têm alguma intenção de evitar novas - e ainda piores irrupções no futuro - elas precisam se fazer algumas perguntas.

De que maneira contribui para a paz eliminar ou reduzir drasticamente os recursos do Hamas, deixando Gaza nas mãos de grupos ainda mais radicais e oferecendo aos islamitas de toda a região mais um incentivo de recrutamento? Como a segurança nacional de Israel é fortalecida quando, em razão de sua ação em Gaza, e de sua inação com Abbas, o país põe em risco os tratados de paz conquistados há tanto tempo com Egito e Jordânia? Como Abbas pode manter um mínimo de credibilidade para negociar se concordar com o pré-requisito imposto pelos israelenses para o início das conversas, isto é, que os palestinos abdiquem da exigência de que a política de assentamentos nos territórios ocupados seja congelada? Por mais que Israel minimize seu significado, a Iniciativa Árabe de Paz, de 2002, ainda contém uma oferta de importância crítica: a completa normalização das relações com todo o mundo árabe, em troca de um acordo de paz abrangente. Por quanto tempo essa posição da Liga Árabe poderá ser sustentada com as negociações patinando como agora? Outra pergunta fundamental que Israel precisa se fazer é se tem como arcar com as consequências, caso a solução de dois Estados desapareça completamente. Israel, como advertiu seu herói David Ben Gurion, pode ser um Estado judeu, pode ser um Estado democrático e pode ser um Estado cujas fronteiras se confundam com os limites históricos de Israel; mas não pode ser as três coisas ao mesmo tempo.

De acordo com o CIA World Factbook, na área da Palestina histórica, há atualmente 6,4 milhões de judeus para 5,6 milhões de não judeus. Mas com uma taxa de natalidade mais baixa e a imigração em queda, é só um questão de tempo para que os judeus fiquem em minoria.

Com a Faixa de Gaza ainda conflagrada, os israelenses têm outro dilema pela frente. O que Israel e seus defensores têm a ganhar resistindo à proposta de resolução que reconhece a Palestina como um "Estado observador" (o mesmo status do Vaticano) na ONU? A proposta, ao que tudo indica, será submetida à votação - devendo ser aprovada por uma vasta maioria internacional - no dia 29.

Um Estado palestino sempre foi uma condição indispensável para a paz e a segurança de Israel no longo prazo, e é para o seu próprio bem que os israelenses deveriam fazer todo o possível para reduzir as tensões em torno da questão. E, tendo em vista as novas realidades das configurações de poder na região, esse imperativo tornou-se mais urgente que nunca. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

É EX-CHANCELER DA AUSTRÁLIA

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