De janeiro a dezembro

Durante alguns anos, agosto deixou de ser o mês mais difícil para o governo cubano por causa da canícula extrema e do mal-estar que ela provoca nas pessoas.

O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2011 | 03h02

Janeiro, o frio mês de janeiro, foi marcado por acontecimentos que, por sua temperatura, pareciam típicos do verão, com aquela inquietação provocada por temperaturas de mais de 30 graus.

No início de 2007, um intercâmbio frenético de mensagens eletrônicas entre escritores e artistas foi batizado de "guerrinha dos e-mails" e colocou em dúvida a política cultural da revolução. Aqueles que foram vítimas da censura e de perseguições, dentro do setor artístico, começaram a se expressar por meio de uma intrépida rede de mensagens.

Algumas semanas depois do início desse intercâmbio, o ministro da Cultura decidiu colocar um ponto final na história, num encontro pessoal com os envolvidos, com sala cheia e portas fechadas. Um ano depois desse sucesso, num outro janeiro atípico, um jovem decidiu fazer perguntas incômodas para Ricardo Alarcón, presidente da Assembleia Nacional do Poder Popular.

Enquanto os intelectuais fizeram suas críticas usando o teclado, Eliécer Ávila - é esse o nome do estudante - o fez diante de uma plateia numerosa, microfone na mão, que gravou e depois exibiu o vídeo para milhares de olhos ávidos.

Confronto. Em ambos os casos, o suporte tecnológico contribuiu para difundir um inconformismo que não encontrava espaço nos estreitos caminhos oficiais. Até o dia em que contestou verbalmente aquele funcionário do alto escalão do governo, Eliécer Ávila era considerado um verdadeiro "homem novo". Vinte anos, mestiço, militante da União dos Jovens Comunistas, proveniente de uma família humilde, mas estudando na Universidade de Ciências Informáticas (UCI).

Militante da Federação dos Estudantes Universitários, Eliécer dirigia também a chamada Operação Verdade, dedicada a contra-atacar pela internet as opiniões negativas sobre o governo da ilha.

Era um policial virtual convertido graças ao inconformismo de todos aqueles que queriam mudanças, mas não se atreviam a reivindicá-las. De censor, ele se transformou depois em um canal de expressão; passou de mordaça a alto-falante.

Com uma retórica que combinava a sabedoria popular e a habilidade de se expressar em público, esse estudante cercou, com suas observações, uma autoridade que também foi embaixador de Cuba nas Nações Unidas.

Foi de dar pena a falta de argumentos desse último. A vontade era fazer uma pausa no vídeo e soprar no ouvido de Alarcón algumas respostas. No clímax do desacerto e diante da pergunta (por que os cubanos não podem viajar livremente?), o experimentado político só conseguiu responder que "se os 6 bilhões de habitantes pudessem viajar para onde desejarem, o congestionamento nos céus seria enorme".

A disputa verbal foi vencida por Eliécer, e por nocaute, mas o desagravo institucional não tardaria. Ele foi marginalizado, rotulado como pessoa "não confiável". Permitiram que ele se formasse, mas depois foi relegado a um emprego insignificante na sua cidade natal, Las Tunas.

Ele precisou até vender sorvete na rua, morangos e chocolate, para sobreviver. Hoje, está desempregado, mas não faz parte de nenhuma estatística. É um indignado sem praça, demitido e sem seguro-desemprego. As disputas verbais com o poder custam muito caro em Cuba.

Quase quatro anos depois daquele confronto com Ricardo Alarcón, o jovem Eliécer Ávila regressou à cena pública nacional. Já não estuda mais na seleta escola de informática inaugurada pelo próprio Fidel Castro nem monitora a internet em busca de opiniões "hostis". Está muito distante daquele policial dos kilobytes que foi um dia.

Durante duas horas, ele se expressou ao microfone em um espaço alternativo e quase clandestino, mas, dessa vez, não interpelou o presidente do Parlamento, mas a nós mesmos. A gravação - do mesmo modo que naqueles primeiros dias de 2008 - se propagou pelas redes ilegais de informação. Nela observamos que ele está mais maduro, sem as forçadas reverências verbais a que sua condição anterior o obrigava.

Eliécer não dissimula e se expressa com tanta franqueza que muitas pessoas se questionam se ele realmente retornou às palestras espontaneamente ou por orientação. Não faltam aqueles que acham que ele está purgando sua culpa passada, se inserindo nas fileiras dos politicamente incorretos.

Futuro de Eliécer. No entanto, é pouco provável. Há uma franqueza natural nas suas palavras, algo que observamos no homem do campo que o cinismo urbano nos eliminou. Essa maneira franca e inequívoca de dar o nome certo para as coisas, de chamar a ditadura de ditadura. Alguém que aprendeu uma lição de vida e parece muito consciente da força da sua nova voz.

Eliécer Ávila tem apenas 26 anos e viverá numa Cuba onde qualquer cidadão poderá interpelar um membro do Parlamento, criticá-lo, desmenti-lo, sem ser castigado por isso. Um país onde todos os meses de janeiro serão difíceis de governar. E os de agosto também. Os de dezembro, nem se fale. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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