De la Rúa pede apoio a Alfonsín e Menem

O presidente Fernando De la Rúa deu início a uma rodada de reuniões com a intenção de reconstituir sua base política no Congresso, onde não possui maioria.Este momento é crucial, pois o presidente precisará de apoio para que nada se interponha no caminho do ministro da Economia, Domingo Cavallo, que nos próximos dias tomará polêmicas medidas para conseguir a reativação da economia argentina, além de combater a evasão. Para formar o respaldo necessário, recebeu nesta quinta-feira pela manhã os ex-presidentes Raúl Alfonsín e Carlos Menem. Alfonsín, presidente entre 19983 e 1989, é no momento presidente do partido de De la Rúa, a União Cívica Radical (UCR), e controla grande parte dos parlamentares, que - como ele - possuem reticências sobre a política econômica de Cavallo. O motivo da indisposição com Cavallo é que este - com suas declarações - torpedeou o governo Alfonsín em 1989, acelerando sua queda. Alfonsín, o primeiro a encontrar-se com De la Rúa, admitiu na saída que durante uma década teve confrontos com Cavallo, mas que agora era preciso apoiar o presidente.Disse que somente "poucos" integrantes da UCR não aceitam Cavallo. O ex-presidente deixou seu apoio, mas também um alerta: "Espero que o governo não se esqueça do povo." Menem, presidente entre 1989 e 1999, preside formalmente o Partido Justicialista (Peronista), da oposição. Menem perdeu o amplo poder que teve no passado e no momento controla somente 20 deputados. De la Rúa, que a cada dia assiste a novas dissidências internas, precisa desesperadamente dos deputados "menemistas". Recebido depois de Alfonsín, Menem disse que não conversaram sobre uma eventual participação peronista no gabinete. No entanto, explicou que não descartava essa possibilidade no futuro. Além disso, o ex-presidente afirmou que apoiava o atual governo para sair da crise. Menem também disse que havia conversado com De La Rúa sobre o Mercosul e a necessidade de que - desde este bloco comercial - os governos da região apressem a integração na Área de Livre Comércio das Américas (ALCA).O ex-presidente negou conversações sobre a dolarização da economia, medida que considera "inevitável neste mundo globalizado". "El Turco", como é conhecido popularmente, aproveitou para desferir suas críticas a Cavallo. Segundo Menem, o ministro não é insubstituível. "Se ele não der certo, De la Rúa pode chamar outras pessoas para o cargo." De la Rúa também recebeu na Casa Rosada, o palácio presidencial, os representantes da Confederação Geral do Trabalho (CGT) oficial e da CGT dissidente. O presidente estava esperava os sindicalistas com um "cachimbo da paz".Por decreto, ele suspendeu a abertura do mercado de planos de saúde, que até o início do ano era um monopólio dos sindicatos, que movimentava US$ 4 bilhões anualmente. A abertura estava de fato suspensa através de diversas impugnações feitas na Justiça a pedido dos sindicatos e deputados da oposição.Além dos problemas na Justiça, a abertura do mercado e o arrocho econômico são vistos pelos analistas como a principal causa das greves das duas CGTs. Com a suspensão do decreto, o governo espera criar um clima favorável para convencer os sindicatos a declararem uma "trégua" que não obstaculize a recuperação econômica do país.O Senado aprovou nesta quinta-feira às 4h a concessão de "poderes especiais" pedidos pelo ministro Cavallo. Desta forma, até março de 2002, o ministro será o "tzar" da política econômica argentina, com amplos poderes para reduzir impostos, alterar a estrutura dos ministérios e realizar a fusão, separação ou eliminação de organismos federais. Além disso, pode eliminar algumas isenções tributárias. No entanto, Cavallo não conseguiu poderes para realizar privatizações, reduzir os salários e as aposentadorias, modificar a lei trabalhista e alterar a lei de conversibilidade econômica. Alguns parlamentares consideram que o texto sobre os poderes é muito genérico, e não ficou claro se o ministro poderá terceirizar a cobrança de impostos. Entre os superpoderes que pediu uma semana atrás, e os poderes relativamente restritos que conseguiu, o saldo final é positivo para Cavallo.Para os analistas, esta é uma "grande vitória" do ministro. Segundo o sarcástico jornal Página 12, "Clark Kent teria tido inveja de Cavallo". Ao contrário da Câmara de Deputados, que prolongou os debates sobre os poderes por três dias, o Senado foi mais rápido na aprovação e somente levou doze horas e meia.O debate prolongou-se uma hora e meia além do previsto porque no fim da noite de quarta-feira os senadores deixaram a discussão sobre os poderes que poderão reativar a decadente economia do país por outra prioridade: assistir ao jogo Argentina e Venezuela. Quarenta e cinco senadores debandaram para ver a seleção, enquanto nove ficaram no plenário.A relação de Cavallo com os bancos está tensa. Desde que tomou posse, o ministro deu duros recados ao setor, entre os quais, o de que não aceitaria mais taxas de juros "enormes" para as Letras do Tesouro. Segundo Cavallo, enquanto isso não mudar, o governo não tomará mais fundos dos bancos. Segundo rumores na city financeira de Buenos Aires, essa atitude enfureceu os bancos formadores de mercados, que ameaçam não participar dos próximos leilões de títulos. Um analista comentou: "Cavallo os está irritando. Ele está colocando o dedo no ventilador." A city também está irritada pelo anúncio, feito pelo vice-ministro Daniel Marx, de que o governo utilizará os "poderes especiais" para desregular o mercado de capitais e fazê-lo "mais eficiente e moderno".

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