De locador a sem-teto em um só bombardeio

Família teve suas casas destruídas no 1º ataque de Israel e ainda não pôde tirar parentes mortos

LOURIVAL SANTANNA, ENVIADO ESPECIAL KHAN YUNIS, FAIXA DE GAZA, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2014 | 02h01

As casas da família Rjellah, em Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza, foram destruídas já na primeira noite da ofensiva israelense, no dia 7. Três dos 50 integrantes da família morreram e 35 ficaram feridos. Alguns chegaram a ver os soldados israelenses entrando em suas casas. Os militares saíram deixando para trás comida, balas de fuzis, bolsas de sangue e soro.

"Meus pais trabalharam 50 anos para construir essa casa", disse Thaer Rjellah, de 19 anos, em meio aos escombros. "Em um minuto, tudo foi destruído." Sua mãe e dois irmãos mais novos estavam dormindo quando ocorreu o bombardeio. "Quem pôde fugir, fugiu. Quem não pôde, foi morto ou ferido", disse. Aproveitando a breve trégua observada ontem por Israel, Thaer e seu primo Asmin, de 40 anos, dono de uma loja de cosméticos, mostraram o que encontraram ao voltar para suas casas.

Thaer contou que viu os soldados israelenses entrando em sua casa, um dia depois do bombardeio. Na casa de Thaer, havia bolsas de sangue, soro e seringas, indicando que a casa abrigou soldados feridos. Eles deixaram também homus, típica comida árabe, pacotes de chocolate e balas de fuzis espalhadas pelo chão. Quando os donos da casa voltaram, não estavam mais lá laptop, celular, dinheiro e joias de sua mãe, segundo o rapaz. Eles acusam os israelenses de levar os pertences.

Enquanto Thaer contava isso, Asmin surgiu vindo de sua casa: "Vejam o que sobrou dos 3 mil shekels que deixei", disse, exibindo 400 shekels (equivalentes a R$ 286)." Asmin mostrou o lugar vazio onde ficava a CPU de seu desktop e disse que ela também foi levada pelos soldados. Ele tinha três casas novas, duas delas alugadas, no valor total de US$ 350 mil.

"Essa guerra foi a pior de todas", disse o comerciante. "Na de 2006, perdi só uma casa." Ele contou que paga US$ 200 por dia por um quarto para sua família em Khan Yunis e não sabe para onde ir.

Asmin disse que a família reuniu ontem, às 8 horas, cerca de 500 pessoas, para retirar seus três primos mortos dos escombros. "Conseguimos tirar um, mas os soldados israelenses começaram a disparar contra nós, do posto de fronteira. Tivemos de desistir." A trégua teve início depois, às 10 horas locais (4 horas em Brasília) e deveria durar até as 17 horas.

O comerciante afirmou que as casas da família - e muitas outras no bairro de Kusaa - foram atacadas aleatoriamente. "Aqui não havia nenhum militar", garantiu. "Os militares estavam no posto de fronteira do leste. Só vieram aqui depois, para tentar nos proteger, mas não conseguiram."

Numa janela destruída da casa de Thaer, os soldados colocaram dois tonéis e um saco de farinha de trigo, formando uma barricada para protegê-los. A farinha de trigo é distribuída pela agência da ONU para os refugiados palestinos (UNRWA, na sigla em inglês), dedicada aos refugiados, e a embalagem tem a irônica inscrição em inglês: "A paz começa aqui".

Pela sua proximidade de Israel, das baterias de foguetes do Hamas e dos túneis, Khan Yunis, 32 km ao sul da Cidade de Gaza, foi uma das cidades mais castigadas pela artilharia e pelos bombardeios israelenses, ao lado de Rafah, que fica 4 km mais ao sul. Rafah, epicentro da operação de destruição dos túneis que ligam Gaza a Israel, não foi incluída na trégua humanitária de ontem.

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