Laetitia Vancon / NYT
Laetitia Vancon / NYT

De Londres a Glasgow: como o Brexit é visto

Repórter do 'NYT' vai a cidades do Reino Unido e mostra o impacto da saída da UE na eleição de quinta-feira

Patrick Kingsley / NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2019 | 07h00

SHIREBROOK, INGLATERRA - Havia uma mina na extremidade desta pequena cidade no centro da Inglaterra. Hoje há apenas um armazém. A mina fornecia o carvão que capacitou o país. O depósito é um armazém de agasalhos de moletom. A mina significava um emprego para toda a vida. O armazém agora oferece um emprego temporário.

Shirebrook foi minha terceira parada em uma viagem de quase 1.450 quilômetros pela Grã-Bretanha para tentar entender o que vem ocorrendo num país dividido antes da eleição de quinta-feira. O mundo normalmente vê o Reino Unido por meio da afluência e do cosmopolitismo de Londres, mas decidi viajar para outros lugares em busca de pessoas distantes do resplendor da capital. Senti como se o país estivesse ficando à solta. 

Às vezes percebia que a política eleitoral há muito não é uma das prioridades, que vão de conseguir sobreviver até combater o aquecimento global. Mas repetidamente as pessoas mencionavam a política de nacionalismo, austeridade e alienação econômica. Em Shirebook, como em outros lugares, o Brexit estava na raiz das frustrações.

Desde que o distrito eleitoral foi criado em 1950, seus moradores operários sempre elegeram um deputado trabalhista. Depois, em 2016, veio o referendo do Brexit, quando sete a cada dez eleitores locais apoiaram a saída da União Europeia. Muitos estão hoje furiosos porque o país ainda não deixou o bloco. “Toda vez que você liga a televisão só se fala em Brexit”, disse Kevin Cann, antigo mineiro que votou contra a permanência. “Isto já devia estar encerrado.”

O primeiro-ministro Boris Johnson, um conservador que defende a saída da UE, espera transformar o governo de minoria em maioria usando a frustração dos cidadãos. E pela primeira vez isso deve levar Shirebrook a votar nos conservadores. 

O armazém local está no centro desta mudança extraordinária, tanto em Shirebrook como por toda a Inglaterra pós-industrial. Ele foi construído em 2005 no local da mina de carvão da cidade. Durante anos, a mina foi o orgulho de Shirebrook, a cidade foi criada em razão dela em 1896. O trabalho era perigoso, mas propiciava salários e aposentadorias justos, além de motivação e um sentido de comunidade. Mas em 1993 a mina fechou, em meio a um amplo processo de desindustrialização e privatizações levado a cabo pelo mesmo Partido Conservador que Johnson lidera.

Doze sombrios anos depois, ela foi fisicamente substituída pelo armazém, mas o vazio emocional permaneceu. Num mundo sem Brexit esta cidade ainda votaria em massa nos trabalhistas. O manifesto do partido promete elevar o salário mínimo e eliminar os tipos de contrato de trabalho como o adotado no armazém. Mas tudo tem sido superado pelo Brexit. Antes de se unir à UE, a Grã-Bretanha “era um país muito rico”, disse Cann. “Por que não pode ser novamente?”. 

Elos.

Em Shirebrook, senti que a consolidação do Brexit é vista como algo que pode restaurar o tecido social. Mas em outros lugares a preocupação é com os elos que nos atam.

Para alguns londrinos ricos, que normalmente votam no Partido Conservador, mas também gostam da Europa, o Brexit destruiu seu apoio ao partido. Para as minorias religiosas e étnicas, ele é até uma ameaça.

Para ilustrar este argumento, Maxie Hayles, veterano ativista que faz campanha em favor da igualdade racial, levou-me a um hotel no encharcado centro de Birmingham, segunda cidade da Grã-Bretanha.

O hotel foi reformado e até o seu nome é outro. Mas Hayles encontrou uma sala particular. Foi o local em que, em 1968, Enoch Powell, então ministro de governo conservador, proferiu um discurso notoriamente racista, afirmando que a imigração arruinaria a Grã-Bretanha. Até hoje esse discurso é sinônimo de britânicos com preconceitos e divisão. Hayles que na época era um jovem imigrante jamaicano de 25 anos, ainda lembra do medo que o discurso de Powell infligiu à sua comunidade.

Mas desde essa época a Grã-Bretanha mudou. Empresas de propriedade de negros agora ocupam o então gabinete de Powell. Mas o Brexit pode afetar isso. Ataques racistas aumentaram por ocasião da campanha do referendo, em 1º/5. O premiê comparou as mulheres que usam o hijab a caixas de correio. 

Fim de tradições.

Seguimos depois para as montanhas galesas. Descendo um pouco à direita chegamos à fazenda de Ceri Davies. Gales não está distante do discurso político britânico. Seu movimento de independência não é tão forte como o da Escócia, mas passa uma certa agitação, em parte graças ao Brexit.

Davies viveu toda a sua vida neste vale. Ele fala galês com os amigos e não conhecia uma palavra de inglês até ir à escola. Seu pai era criador de ovelhas, como ele hoje. Suas 750 ovelhas pastam nas colinas acima.

Como muitas fazendas britânicas, a atividade de Davies não dá prejuízo apenas por causa de um subsídio recebido da UE. A Europa compra 1/3 da carne de carneiro galesa. Os conservadores prometeram substituir os subsídios por novos pagamentos. Mas, se as autoridades europeias impuserem tarifas sobre a carne britânica após o Brexit, isto arruinará os fazendeiros. 

É uma ironia: idealizado como um retorno às tradições e herança britânicas, o Brexit poderá na verdade acabar com algumas delas.

‘Traição’.

O ferry-boat parte das docas de Liverpool, passa pelas gruas e entra no Mar da Irlanda. As ondas são calmas. No restaurante, os passageiros estavam agitados. Alan Kinney colocou de lado sua salada de atum e disse: “Será uma grande traição.”

A causa da sua irritação era o mar: esta faixa de água entre duas partes do Reino Unido – Grã-Bretanha e Irlanda do Norte – se tornou o mais recente obstáculo ao Brexit.

Nas duas últimas décadas do século 20, nacionalistas na Irlanda do Norte lutaram sem sucesso para reunir o território com a República da Irlanda, que se tornou independente em 1922. 

Para evitar a criação de postos alfandegários nessa área após o Brexit, Johnson concordou em tratar toda a ilha irlandesa como uma única área alfandegária. Os controles serão feitos no caso de produtos que cruzarem a fronteira entre Grã-Bretanha e Irlanda do Norte em ferry-boats como aquele em que viajamos. Isto pode acalmar muitos nacionalistas irlandeses, mas enraivecer os unionistas – moradores norte-irlandeses, principalmente os protestantes que querem ficar no Reino Unido. Eles acham que os controles alfandegários criarão uma Irlanda reunificada.

Metalúrgica esquecida.

Num terreno baldio na extremidade da cidade escocesa de Motherwell, nossa última parada, Tommy Brennan referiu-se às coisas que já não mais existiam. Ali estavam os portões de uma fábrica e as torres de refrigeração que pertenceram outrora a uma das maiores metalúrgicas da Europa, onde ele começou a trabalhar em 1943. Mas agora o que restava era a grama amarela. 

Outrora uma área maior do que o Central Park, a metalúrgica Ravenscraig foi fechada e desmantelada em 1992, depois de ser privatizada pelo governo conservador em Londres. Dez mil pessoas ficaram sem emprego, incluindo Brennan.

Em Shirebrook eu vi como a desindustrialização contribuiu para o Brexit. Mas em Motherwell, o Brexit ajudou a intensificar o ressentimento contra o Estado britânico, não contra a Europa: em 2016, esta região votou a favor da permanência na UE, mas num referendo sobre a independência escocesa em 2014 o voto foi a favor da saída do Reino Unido. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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