Finbarr O'Reilly/The New York Times (11/11/2019)
Finbarr O'Reilly/The New York Times (11/11/2019)

De Nobel da Paz a líder de guerra, Abiy Ahmed encara eleição na Etiópia

Primeiro-ministro do país africano enfrenta vontade das urnas pela primeira vez desde que chegou ao cargo, em um processo eleitoral tão questionado quanto sua trajetória e suas práticas de governo

Declan Walsh, The New York Times

21 de junho de 2021 | 12h00

Enquanto ocorria uma guerra no norte da Etiópia e a região avançava em direção a pior fome em décadas, um importante enviado americano voou para a capital do país, Adis-Abeba, no mês passado, na esperança de persuadir o primeiro-ministro Abiy Ahmed a tirar o país da espiral negativa que, muitos temem, o destrua por completo.

O primeiro-ministro, porém, queria dar uma volta de carro.

Ao assumir o volante, o líder etíope levou seu convidado americano, o enviado da administração Joe Biden ao Chifre da África, Jeffrey D. Feltman, em uma excursão improvisada de quatro horas por Adis-Abeba, disseram autoridades americanas. Ahmed o conduziu passando por novos e elegantes parques da cidade e uma praça central reformada e até caiu em um casamento onde os dois homens posaram para fotos com a noiva e o noivo.

A tentativa de mudar o foco, mostrando o progresso econômico enquanto partes de seu país pegavam fogo, foi apenas o mais recente sinal de uma trajetória conturbada que confundiu observadores internacionais, que se perguntam como interpretaram o líder etíope tão mal.

Não muito tempo atrás, Abiy, que enfrenta os eleitores etíopes nas urnas segunda-feira, 21, em eleições parlamentares há muito adiadas, era uma esperança para o país e o continente. Depois de chegar ao poder em 2018, ele embarcou em um turbilhão de reformas ambiciosas: libertar prisioneiros políticos, receber exilados do exterior e, o mais impressionante, fechar um acordo de paz histórico com a Eritreia, o antigo inimigo da Etiópia, em questão de meses.

O Ocidente, ansioso por uma história de sucesso na África, ficou maravilhado e, em 18 meses, Abiy, um ex-oficial de inteligência, recebeu o Prêmio Nobel da Paz.

Mas, em apenas nove meses, a imagem de Abiy mudou radicalmente. A guerra civil que eclodiu na região norte de Tigré, em novembro, tornou-se sinônimo de atrocidades contra cidadãos etíopes.

As forças de Abiy foram acusadas de promoverem massacres, agressões sexuais e limpeza étnica. Na semana passada, um alto funcionário das Nações Unidas declarou que Tigré estava passando por uma crise de fome - a pior do mundo desde que 250 mil pessoas morreram na Somália há uma década, disse ele.

Em outros lugares da Etiópia, a violência étnica matou centenas e forçou dois milhões de pessoas a fugir de suas casas. Uma disputa de fronteira latente com o Sudão se transformou em um grande impasse militar.

Mesmo a votação desta segunda-feira, antes anunciada como a primeira eleição livre do país, e uma chance de virar a página em décadas de governos autocráticos, apenas reforçou as divisões internas e alimentou advertências sombrias de que o futuro da Etiópia está em dúvida.

"Essas eleições são uma distração", disse Abadir M. Ibrahim, professor adjunto de direito da Universidade de Adis-Abeba. "O Estado está à beira de um penhasco e não está claro se ele pode recuar. Só precisamos superar essa votação para que possamos nos concentrar em evitar uma calamidade."

O gabinete do primeiro-ministro não respondeu a perguntas e a um pedido de entrevista do The New York Times.

Espera-se que o Partido da Prosperidade de Abiy, formado em 2019 a partir de uma ex-coalizão governista, vença as eleições facilmente. Mas não haverá votação em 102 dos 547 distritos da Etiópia por causa da guerra, distúrbios civis e falhas logísticas. Os principais líderes da oposição estão presos e seus partidos estão boicotando a votação em Oromia, uma região extensa de 40 milhões de habitantes.

Abiy deu uma cara de bravura aos problemas de sua nação, repetidamente minimizando o conflito de Tigré como uma "operação de lei e ordem" e defendendo sua visão de uma Etiópia modernizada e economicamente vibrante.

Os Estados Unidos, que deram à Etiópia US$ 1 bilhão (R$ 5,04 bilhão) em ajuda no ano passado, estão pressionando-o a mudar o foco imediatamente.

Depois de ser conduzido por Adis-Abeba pelo primeiro-ministro em maio, Feltman escreveu uma análise detalhada de sua viagem para o presidente Joe Biden e outros líderes em Washington, até mencionando uma sacudida repentina do veículo que espalhou café em sua camisa.

Semanas depois, o secretário de Estado, Antony J. Blinken, impôs proibições de visto para autoridades etíopes não identificadas.

Outros estrangeiros deixaram a Etiópia preocupados com a limpeza étnica em andamento. Pekka Haavisto, um enviado da União Europeia que visitou o país em fevereiro, disse ao Parlamento Europeu na semana passada que os líderes etíopes lhe disseram "eles vão destruir os Tigrayans."

O Ministério das Relações Exteriores da Etiópia considerou os comentários de Haavisto "ridículos" e uma "espécie de alucinação".

A condenação global mais recente de Abiy, na cúpula do G7 da semana passada, representa uma queda vertiginosa para um jovem líder que até recentemente era mundialmente celebrado.

O turbilhão de reformas que ele instituiu após ser nomeado primeiro-ministro em 2018 foi uma forte repreensão à Frente de Libertação do Povo Tigré (TPFL, na sigla em inglês), um partido de rebeldes que se tornaram governantes que dominaram a Etiópia desde 1991 em um sistema autoritário que alcançou um crescimento econômico impressionante à custa de direitos civis.

Abiy prometeu governar de uma nova maneira. Ele permitiu partidos de oposição, antes proibidos, indicou mulheres para metade dos cargos em seu gabinete e alcançou a paz com a Eritreia, o que lhe rendeu um Prêmio Nobel.

Mas, ao agir rapidamente, Abiy também desencadeou frustrações reprimidas entre grupos étnicos que foram marginalizados do poder por décadas - principalmente seu próprio grupo, o Oromo, que representa um terço dos 110 milhões de habitantes da Etiópia. Quando os protestos em massa eclodiram, ele voltou ao velho manual: prisões, repressão e brutalidade policial.

Ao mesmo tempo, as tensões aumentaram com o TPLF, que se ressentia com Abiy. A liderança do partido recuou para Tigré, onde, em setembro passado, desafiou Abiy ao prosseguir com eleições regionais que haviam sido adiadas em todo o país por causa da pandemia.

No início de novembro passado, chegou a Washington a notícia de que a guerra estava se aproximando em Tigré. O senador Chris Coons, que tem um interesse de longa data na África, ligou para Abiy para alertar sobre os perigos de recorrer à força militar.

Coons, um democrata de Delaware, disse que lembrou ao líder etíope que a Guerra Civil Americana e a Primeira Guerra Mundial começaram com promessas de vitória militar rápida, apenas para se arrastar por anos e custar milhões de vidas.

O primeiro-ministro, contudo, não se intimidou. "Ele estava confiante de que tudo terminaria em seis semanas", disse Coons. Dias depois, na noite da eleição presidencial americana, eclodiram combates em Tigré.

Abiy Ahmed deu poucas entrevistas. Mas as pessoas que lidaram com ele descrevem um homem cheio de autoconfiança, até mesmo "messiânico" - uma descrição encorajada por relatos próprios dele, de que sua ascensão ao poder foi predeterminada. Quando ele tinha 7 anos, disse Abiy ao The New York Times em 2018, sua mãe sussurrou em seu ouvido que ele era "único" e previu que "acabaria no palácio".

Um ex-conselheiro disse que uma forte fé cristã também orienta Abiy. Ele é um cristão pentecostal, uma fé que cresceu em popularidade na Etiópia, e acredita piamente no "evangelho da prosperidade" - uma teologia que considera o sucesso material como recompensa de Deus - disse o ex-conselheiro, que falou sob condição de anonimato para evitar represálias. Não é por acaso, acrescentou, que o partido fundado por Abiy em 2019 se denomine Partido da Prosperidade.

A fé evangélica de Abiy atraiu apoiadores influentes em Washington, incluindo o senador James M. Inhofe, republicano de Oklahoma, que disse ao Senado em 2018 como ele conheceu Abiy em uma reunião de oração onde "ele contou a história de sua jornada e fé em Jesus."

No mês passado, Inhofe viajou para a Etiópia para mostrar seu apoio a Abiy contra as sanções americanas.

Outro relacionamento crucial para Abiy é com o líder ditatorial da Eritreia, Isaias Afwerki. As tropas da Eritreia que invadiram Tigré para apoiar a campanha de Abiy foram acusadas pelas Nações Unidas e grupos de direitos humanos das piores atrocidades do conflito. Agora, eles são um fator importante para a crise alimentar na região.

Soldados eritreus "usando a fome como arma de guerra" estão bloqueando os carregamentos de ajuda para as partes mais vulneráveis de Tigré, disse Mark Lowcock, o principal funcionário humanitário da ONU, ao Conselho de Segurança na semana passada.

A questão da Eritreia é a maior responsabilidade internacional do vencedor do Nobel da Paz, e alguns analistas o descrevem como sendo manipulado por Afwerki, um veterano com uma reputação de manobras estratégicas implacáveis. Segundo outros relatos, Abiy não tem escolha - se os eritreus partirem de repente, ele pode perder totalmente o controle de Tigré.

A eleição provavelmente destacará os desafios crescentes no resto da Etiópia. Apenas no mês passado, 400 mil pessoas foram forçadas a deixar suas casas nas regiões de Amhara e Afar, disse Lowcock. Os militares assumiram o controle em várias partes de Oromia, onde eclodiu uma rebelião armada.

Coons, enviado por Biden para argumentar com Abiy em fevereiro, advertiu o líder etíope que a explosão de ódio étnico poderia abalar o país, assim como fez com a ex-Iugoslávia durante os anos 1990.

Abiy respondeu que a Etiópia é "uma grande nação com uma grande história", disse Coons.

A transformação de Abiy de ganhador do Prêmio Nobel da Paz em líder de tempo de guerra levou alguns de seus aliados a uma reflexão silenciosa. O brilho do Prêmio Nobel e um desejo ardente por uma história de sucesso na África cegaram muitos países ocidentais para suas falhas evidentes, disse Judd Devermont, um ex-oficial de inteligência nacional dos EUA para a África, agora no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

Com interesse limitado na África, o Ocidente facilmente categoriza os líderes do continente como "bons" ou "maus", com pouco espaço para nuances, acrescentou.

"Temos que reconhecer que ajudamos a construir a visão de Abiy sobre si mesmo", disse ele. "Abordamos esses desafios muito cedo. Demos a ele um cheque em branco. Quando deu errado, inicialmente fechamos os olhos. E agora pode ser tarde demais".

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