De novo o ouro negro

É muito comum atribuir ao petróleo os conflitos, as guerras, as iniciativas diplomáticas. No passado, o que foi dito é que a expedição americana no Iraque tinha por finalidade o controle das gigantescas reservas petrolíferas do país.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2011 | 00h00

A mesma análise tem sido feita hoje no caso da operação na Líbia empreendida por França, Grã-Bretanha, Otan e alguns outros países para destituir o tirano Muamar Kadafi. Mas o chanceler da Itália, Franco Frattini, procurou esclarecer as coisas: "Itália e França não estão engajadas numa guerra colonial para se apossar do petróleo da Líbia".

A Líbia possui vastas reservas de petróleo. Antes da guerra, sua produção era de 1,5 milhão de barris por dia (2% da produção mundial), mas sua capacidade real é de 4 milhões de barris diários. A guerra certamente danificou toda a aparelhagem petrolífera, mas a expectativa é que, dentro de seis meses, os poços devem estar de novo a pleno vapor. E não nos esqueçamos de que o petróleo líbio é de qualidade superior.

Mas a Itália não está na guerra de olho no petróleo líbia. Na verdade, os italianos foram arrastados para o conflito. A França, pelo contrário, entrou de cabeça. Foi Nicolas Sarkozy, com o britânico David Cameron, que mobilizou os aliados. Evidentemente, não foi para aumentar sua parte no tesouro petrolífero líbio. A gigante francesa Total espera agora ampliar sua presença na Líbia.

Até o momento, a empresa tem uma presença discreta no país: apenas dois campos de petróleo, com 55 mil barris por dia, o que a coloca bem distante da ENI italiana e da Repsol espanhola.

A situação pode mudar. Sarkozy, que foi o mentor da intervenção da Otan, é uma das figuras mais populares da Líbia libertada. Esse provável avanço da Total na Líbia completa uma ofensiva geral lançada pela companhia francesa em todo o continente africano. E a partir de agora, ela deve consagrar US$ 5 bilhões ao ano a seus investimentos no continente. Total está presente no Sudão do Sul, Uganda, Tanzânia, Nigéria e, sobretudo, em Angola.

Aliás, em Angola, onde a companhia francesa já opera, a Total deve abrir nos próximos anos dois novos campos de exploração "off shore". Além disso, tem um projeto espetacular: a exploração em águas profundas da Bacia de Kwanza. Os engenheiros estão convencidos de que essa bacia encerra reservas gigantescas sob as camadas do pré-sal.

Suas esperanças têm como base o Brasil. A Petrobrás localizou imensos campos submarinos profundos em 2007 na Bacia de Santos. E, segundo os geólogos, essas duas zonas - a bacia brasileira e a de Kwanza - formavam um bloco único há 150 milhões de anos, antes de o continente americano separar-se da África. Assim, a Total segue com grande interesse as atividades da Petrobrás e está otimista. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

CORREÇÃO

No artigo de Gilles Lapouge "Argel teme novo vizinho", publicado ontem, onde se lê "o presidente (da Argélia) Houari Boumedienne", leia-se "o presidente Abdelaziz Bouteflika".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.