Jim Watson/ AFP
Jim Watson/ AFP

De olho na decisão nos EUA, europeus se afastam de torcida por Trump após saída do Acordo de Paris

Prefeita de Paris, Anne Hidalgo, não titubeou em uma entrevista para a rádio RMC e o canal BFMTV na quinta-feira: 'Eu desejo de todo meu coração a vitória de Joe Biden'

Nathalia Garcia, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2020 | 18h36

PARIS - Ansiedade, impaciência e uma dose de incompreensão. Essa mistura de emoções resume o estado de espírito dos europeus à espera do resultado das eleições presidenciais dos Estados Unidos. Sem “escolher” posicionamento político, a tensão tem afetado tanto quem acredita na vitória do democrata Joe Biden quanto quem deseja a reeleição do republicano Donald Trump. Ainda que ambos os candidatos norte-americanos não tenham conquistado a simpatia dos observadores do outro lado do Atlântico.

Já são mais de 45 horas sem dormir para o estudante de Direito Quentin Taïeb, de 21 anos, que ainda confia na permanência do atual presidente norte-americano na Casa Branca. O tema tem sido amplamente discutido entre amigos em um grupo nas redes sociais, no qual participa também Paul Gallard, de 22 anos.

O estudante de Ciência Política na Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne é categórico (antes de atenuar a afirmação ao longo da conversa): “Joe Biden será o pior presidente americano da História. O seu aspecto progressista pode alimentar ideologias decoloniais, indígenas, racistas, de gênero, antiespecistas, teorias que são perigosas porque nos dividem”, disse. Apreensivo com o resultado, ele mostra insatisfação com a apuração “sem fim”, que ele classifica como um “escândalo” para um país como os Estados Unidos. 

Esse sentimento de incompreensão é compartilhado também por quem está do outro espectro político, como Thomas Grué, de 27 anos. “Estou impaciente, também frustrado e um pouco irritado que isso tome tanto tempo”, resumiu. A eleição americana não alterou a rotina de sono do engenheiro francês, mas seus hábitos não são os mesmos nos últimos dias. “Assim que acordo, olho meu celular. Estou curioso e eufórico, é um pouco estressante como apuração”, afirmou Grué. “Tenho esperança nessa virada de página”. 

A virada de página a que ele se refere é a vitória de Biden, mas não pela figura do candidato democrata. “Sou sobretudo contra Trump. Para que ele saia do poder, Biden é o candidato mais sólido hoje”, avaliou. “Um presidente deve ser alguém humilde, deve se basear em fatos, ser pragmático, Trump não encarna isso de forma alguma, ele mostra o contrário. Trump é impulsividade, é um personagem.”

Apesar da rejeição, Donald Trump exerce um certo “fascínio” sobre as pessoas. “Ele é um personagem familiar, com uma dramaturgia específica”, destacou Emmanuel Rivière, CEO da consultoria Kantar Public France. Para o especialista, isso ajuda a atrair os olhares atentos da Europa para as eleições americanas.

A checagem sistemática do noticiário tem ditado o cotidiano do alemão Florian Hegwein, de 35 anos, assim como os cálculos para esboçar os cenários que levam Joe Biden à presidência - ainda que esse seja o “normal” na vida de um cientista de dados. O europeu se diz a favor do candidato democrata e, ao mesmo tempo, contra Trump. “Nós temos dificuldade de levar o Trump a sério, ele só quer o melhor para ele mesmo”. 

Maioria deseja vitória de Biden, aponta pesquisa

Cerca de um mês antes das eleições nos Estados Unidos, entre 15 de setembro e 4 de outubro, uma pesquisa realizada pela YouGov, empresa de pesquisa de mercado global, com 9.136 pessoas de sete países europeus – Dinamarca, Alemanha, Espanha, Suécia, França, Grã-Bretanha e Itália – constatou que a maioria dos europeus deseja a vitória de Joe Biden.

Para 80% dos dinamarqueses e 64% dos franceses, o candidato democrata deveria assumir a presidência dos Estados Unidos. No entanto, vale destacar que a proporção de europeus que pensam que Biden seria um “bom” ou “muito bom” presidente é pouco expressiva, entre 17% e 23%, respectivamente. 

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“Os dois candidatos entraram na disputa com taxas de impopularidade acima de 50% (já era o caso em 2016). A candidatura de Joe Biden não despertou grande entusiasmo entre o eleitorado”, argumentou Elisa Chelle, professora de Ciência Política na Universidade Paris Nanterre.

Para Emmanuel Rivière, presidente do Centro Kantar sobre o Futuro da Europa, a disputa acirrada na Casa Branca mostra os limites da estratégia política democrata. “Uma parte significativa da população americana votou contra o Trump. Faltou uma linha afirmativa clara da parte dos democratas. Trump ganhou em 2016 fazendo as pessoas sonharem, já o Biden, como François Hollande, na França, em 2012, se limitou a uma postura previsível.”

Autoridades

Entre as forças políticas europeias, o candidato democrata tem amplo apoio, contrariamente a seu opositor. “A presidência de Obama reacendeu a simpatia dos europeus, e em particular dos franceses, ao partido democrata. Joe Biden se beneficia desse efeito Obama”, analisou Elisa Chelle.

“Donald Trump repulsa amplamente as classes média e alta na Europa. Sua maneira de falar, sua relação com a ciência, sua concepção das mulheres, seu ceticismo climático, seus comportamentos de injúria ou ostentação geralmente despertam irritação e rejeição entre os políticos europeus”, explicou a especialista.

Na última quinta-feira, 5, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, não titubeou em uma entrevista para a rádio RMC e o canal BFMTV: “Eu desejo de todo meu coração a vitória de Joe Biden”.

“Ao manifestar seu apoio, a prefeita de Paris está tentando fazer os americanos voltarem ao acordo climático se Biden vencer, o que ainda não está ganho”, pontuou a professora.

Com uma publicação no Twitter, Joe Biden assegurou que os Estados Unidos voltarão ao Acordo de Paris para o clima no primeiro dia de seu mandato, caso sua vitória sobre Donald Trump seja confirmada. O país formalizou a saída do tratado ambiental na última quarta-feira, 4.

Apesar da empolgação da opinião pública na Europa, na visão dos analistas, a possível saída de Trump não significa uma mudança radical para os países europeus. As questões diplomáticas envolvendo a Rússia e o Oriente Médio, por exemplo, geram cautela.

“A Europa se distanciou dos Estados Unidos nos últimos anos e ainda mais sob o presidente Donald Trump. Uma vitória deste último daria continuidade ao que conhecemos nestes quatro anos: guerra comercial, desacordo sobre a Rússia ou o Irã, desprezo pela União Europeia”, continuou Elisa Chelle. “Uma vitória de Joe Biden não mudaria completamente a situação. O tom seria, sem dúvida, menos desagradável, mas o desinteresse dos Estados Unidos pela Europa evoluiria marginalmente. Hoje, é cada um por si”.

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