Ludovic Marin / AFP
Ludovic Marin / AFP

De olho no comércio, Bolsonaro diz a príncipe saudita que Brasil está de 'braços abertos'

Mohammed bin Salman é acusado pelo assassinato de um jornalista. Presidente deixou claro que o intuito da reunião era o de estreitar relações comerciais entre as partes

Célia Froufe e Beatriz Bulla, enviadas especiais a Osaka

29 de junho de 2019 | 05h14

OSAKA – Acusado de homicídio de um jornalista, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, ouviu do presidente Jair Bolsonaro, no Japão, neste sábado, 29, que o Brasil está de “braços abertos” ao país. No início do encontro, Bolsonaro descreveu o Brasil como “um país de todos”. O presidente deixou claro que o intuito da reunião era o de estreitar relações comerciais entre as partes, que é forte e ficou arranhada no início do governo do brasileiro por questões religiosas.

 “(Não importa) se é judeu, se é árabe, se é muçulmano, se é cristão. (O Brasil) É um País em que todos vivem em perfeita harmonia e, com esse espírito, quero dizer que o Brasil está de braços abertos para os senhores”, disse para a comitiva saudita. Um pouco antes, o presidente disse a jornalistas que estuda emendar uma viagem programada para China, em outubro, para o país do Oriente Médio.

Em janeiro, a Arábia Saudita, que é o maior importador de carne de frango do Brasil, suspendeu cinco frigoríficos da lista de exportadores num movimento de retaliação ao anúncio da transferência da Embaixada em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Entre eles estavam os gigantes brasileiros JBS e BRF. No ano passado, o país comprou R$ 2,1 bilhões em produtos brasileiros. Outros países árabes já tinham dado indicações no mesmo sentido, e o governo egípcio chegou a cancelar uma visita de uma comitiva brasileira e a Liga Árabe alertando sobre a possibilidade de mudança nas relações.

O movimento de retaliação não chegou a ser uma surpresa e as tensões com a comunidade árabe aumentaram durante a visita de Bolsonaro a Israel, quando ele anunciou a abertura de um escritório de negócios do Brasil em Jerusalém. 

Bolsonaro mostrou-se descontraído nos primeiros minutos do encontro, que pode ser observado por alguns membros da imprensa. “É um prazer estar aqui”, disse na abertura da reunião. Enquanto os dois conversavam no âmbito do encontro de cúpula do grupo das 20 maiores economias do globo (G-20), a poucos metros dali, em uma sala próxima, ocorria o encontro mais aguardado do evento: a bilateral entre os presidentes americano Donald Trump e do chinês Xi Jinping. 

A postura de Bolsonaro foi muito similar à de Trump, que também se reuniu com Salman na véspera, descrevendo-o como seu “amigo” e destacando que seu país é um “bom comprador de produtos norte-americanos”. Trump, no entanto, não escapou de perguntas sobre Jamal Khashoggi, assassinado em outubro do ano passado. Por causa desse episódio, os dois líderes não se encontraram durante o G-20 da Argentina, em dezembro de 2018. Há controvérsia sobre o homicídio do jornalista, que ocorreu no consulado da Arábia Saudita em Istambul. Há relatos de que foi torturado e esquartejado dentro da sede do posto oficial. Seu corpo não foi encontrado e Riad já apresentou várias versões sobre o caso.

A participação dos jornalistas no encontro de Bolsonaro e Salman durou 1 minuto e meio no local. Os profissionais de comunicação dos dois países foram retirados antes mesmo do término da fala do presidente brasileiro. Junto com eles, o segurança saudita também tirou do local uma assessora da Presidência, que tem como um de suas atribuições acompanhar a fala toda de Bolsonaro. O segurança não se importou com o argumento e não a deixou entrar. O próximo encontro do G-20 será organizado pela Arábia Saudita.

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