Natacha Pisarenko/AP
Natacha Pisarenko/AP

De porta em porta, opositor de Cristina busca votos em redutos kirchneristas

Em cidades do interior da Província de Buenos Aires, onde se concentram 38% dos eleitores argentinos, Mauricio Macri tenta explorar a piora na área de segurança pública, um dos pontos fracos da atual administração da Casa Rosada

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

04 de junho de 2015 | 07h53

O prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, dedica as tardes a fazer campanha presidencial no território em que o kirchnerismo é mais forte, a Província de Buenos Aires, onde estão 38% dos eleitores do país. Quando chegou ontem de helicóptero a Luján, a 74 km de seu gabinete, a família Valentino o esperava com chimarrão e bolachas. Eles se cadastraram pelo Facebook para receber o principal candidato da oposição.

Macri entrou no pátio enlameado pelo último temporal com a filha Antonia a tiracolo. A menina frustrou a espectativa de uma conversa imediata no cenário armado por seus 10 assessores. “Ela precisa ir ao banheiro”, explicou Macri. Cinco minutos depois, saíram da casa de classe média, ampla mas de acabamentos incompletos, e sentaram-se na varanda. 

“O principal problema é a segurança. Já entraram três vezes aqui em casa. Na última, levaram a moto de onde estamos sentados. Por isso instalamos alarme”, reclamou Débora Valentino, de 40 anos, que divide seu tempo entre fabricar velas e ser despachante de veículos. “Não tiramos férias por preocupação com ladrões”, disse seu marido, Fabián, de 47 anos, funcionário de um pedágio. Ambos moram com dois filhos e uma cadela, que se divertia com o vira-latas que Macri levou, Balcarce - o nome é uma referência à rua em que fica a Casa Rosada.

 

Débora reclamou ainda dos programas sociais que atingem 25% da população argentina. “Não gosto de acordar de madrugada para sustentar alguém que levanta às 11 horas.” Macri respondeu que é preciso “recuperar a cultura do trabalho”, tomou seu segundo chimarrão com açúcar e despediu-se. Antes de deixar a casa, levou a menina para ver o papagaio da família. “Cuidado que eles mordem”, alertou um fotógrafo da campanha, temendo um dano concreto à imagem do presidenciável. 

Macri não foi a Luján, 102 mil habitantes, com Antonia e Balcarce, pelos votos de Débora e Fabián, já garantidos. A estratégia, segundo admitiu uma assessora, é que em entrevistas nacionais possa dizer que “na casa de Débora, de Luján, ladrões entraram três vezes”. Embora parte das cidades tenha polícia local, a responsabilidade pela segurança é da província, ou seja, de Daniel Scioli, provável candidato kirchnerista. A tática também é afastá-lo da imagem de empresário afeito ao luxo e equilibrar seu eleitorado: tem mais votos entre homens com alta instrução.

Segundo a consultoria M&F, Scioli lidera a corrida eleitoral com 33,3%, ante 32,2% de Macri. O ex-kirchnerista Sergio Massa, que chegou a ser favorito até o ano passado, sofre queda constante (tem 13,8% segundo a mesma consultoria), o que se reflete na perda de apoios decisivos. Ontem, ao lado de Macri, caminhava o prefeito de Luján, Oscar Luciani, recém desembarcado da Frente Renovadora, de Massa. “Sempre achei boas as ideias de Macri”, justificou, com certo constrangimento. 

A sequência de baixas em seu grupo - a maioria para o sciolismo - levou Massa a propor a Macri uma prévia opositora única em agosto. “A estratégia não convém a Macri, que acha que levará os descontentes com o kirchnerismo sem precisar ceder”, diz a diretora da M&F, Mariel Fornoni. Rumores de que Massa deixaria a disputa por apoio para ao menos governar a Província de Buenos Aires fizeram as principais ações argentinas subirem 6,7% terça-feira. O mercado costuma reagir bem quando o kirchnerismo vai mal. 

Macri fez este ano alianças heterodoxas que explicam em parte sua ascensão, mas tendem a não ser suficientes se Cristina Kirchner usar seu peso - a aprovação da presidente é de 40% segundo o instituto Poliarquía. “Ele precisa de mais prefeitos que estavam com o ‘massismo’. Eles têm poder sobre o território e estão disponíveis à ‘melhor oferta’”, diz Andy Tow, analista político dono de um dos blogs eleitorais mais lidos do país.

Peito aberto. Depois de deixar a família Valentino, Macri levou Antonia para tocar campainha de casas aleatoriamente. Em geral, foi bem recebido. “Sou fanático pelo River Plate e mesmo assim é meu candidato”, afirmou Martín de la Orden, de 32 anos. Macri foi presidente do Boca Juniors, maior rival do River, e usa o clube como exemplo de boa administração. Ouviu de uma moradora um seco “não votarei em você”, buzinaços de apoio e poucas ofensas. “Ele que vá trabalhar, o que está fazendo aqui no meio da tarde? Estou farto de políticos nesta época com a mesma conversinha. Que vá ao norte do país ver o que é pobreza”, gritava o aposentado Jorge Filomena, de 74 anos, a dois amigos depois de Macri passar.


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