De porta em porta, grupos tentam 'acordar' eleitores para voto nos EUA

Ativistas fazem campanha para levar eleitores negros e latinos às urnas em Chicago.

Pablo Uchoa, BBC

06 de novembro de 2012 | 22h15

Em tempo bom, o bairro de Roseland, no sul de Chicago - um dos mais pobres da cidade e berço da atividade política do presidente Barack Obama - não é exatamente um lugar atraente.

Numa tarde fria e chuvosa de novembro, o cenário fica ainda mais desolador.

Mas nesta terça-feira cada eleitor que entrava pelas portas do posto de votação localizado ao sul da comunidade, instalado na sede da organização Kids Off the Block, era recebido com um caloroso "boa tarde" de um dos rostos mais conhecidos da comunidade, a ativista Diane Latiker.

"Excelente: mais um jovem!", comemorava Latiker, cada vez que um rosto mais novo retribuía a saudação e ia fazer fila do lado de dentro.

À base de voluntariado, a ONG provê serviços, entretenimento, cultura e uma oportunidade de socialização saudável para cerca de 300 jovens carentes em comunidades como esta - onde 97% da população é afro-americana. O objetivo é afastá-los da violência.

Nos últimos meses, Latiker também engrossou a massa de líderes comunitários que se dedicaram a bater nas portas dos eleitores americanos, principalmente os jovens, para convencê-los a sair de casa para exercer seu direito ao voto.

"Muita gente não acredita (no voto), acha que não serve para nada. Principalmente entre os jovens", disse Latiker. "É preciso insistir, é preciso dizer que se eles não votam, não podem reclamar."

De porta em porta

A alguns quarteirões dali, equipes da organização Mujeres Latinas en Acción vão de porta em porta conclamar o eleitorado da vizinhança, majoritariamente latino, a sair de casa para votar.

A organização luta para promover o exercício da cidadania entre latinos, com ênfase na mulher, por causa da posição central da figura feminina na vida familiar latina.

A diretora da ONG, Neusa Gaytan, disse que a entidade tem projetos em diversas áreas - prevenção da violência doméstica e sexual, treinamento, liderança e infância, por exemplo. Mas, nesta terça-feira, o corpo a corpo tem como finalidade a cidadania eleitoral.

Os latinos respondem por cerca de 17% do eleitorado americano. Segundo estimativas do fundo Naleo -organização que promove a participação desse segmento de eleitores na política americana, as mulheres devem responder por mais da metade da projeção do voto latino nestas eleições, que deve totalizar entre 10 e 12 milhões.

"O voto não é só um direito, é um privilégio", diz a brasileira Helena Sugano, uma das voluntárias. "Há vários temas que são importantes para os imigrantes - por exemplo, a reforma migratória. Saímos às ruas para que eles façam valer a sua voz pela via do voto."

No ano passado, as equipes da ONG foram a 7 mil residências. Neste ano, uma das que atendeu à porta foi a mexicana Joaquina Cervantes, uma senhora que diz nunca ter votado porque nunca recebeu "a papelada para votar".

"Vou hoje pela primeira vez", afirmou, depois de saber pela equipe da ONG que não precisa de nenhum documento especial para exercer o seu direito.

Algumas portas adiante, Amanda Bello, que vive nos EUA desde os anos 1970, recebe cerca de dez amigas para uma reunião que terminará com o grupo saindo para votar na igreja da vizinhança.

"Cada um precisa ter consciência e botar na balança o que convém para os EUA e o que não", diz Bello, que começou a votar nas eleições que deram vitória a Ronald Reagan. "Só peço a Deus que ganhe o melhor."

Cidadania

Tanto a organização Mujeres Latinas en Acción quanto a Kids Off the Block são apartidárias, mas dentro do eleitorado à qual atendem - latino e negro - há uma clara preferência pelo candidato democrata.

Segundo pesquisas de opinião, Obama tem 95% de apoi dos negros. Entre os latinos, o índice é de 70%.

Em Roseland, Diane Latiker afirma que muitos negros ficaram desapontados com o governo Obama. Eles dizem acreditar que o país avançou pouco no combate à pobreza - um problema que atinge mais negros que qualquer outra comunidade nos EUA.

"Ele pode ser presidente, mas é um ser humano. Considerando toda a pressão sobre ele, a oposição no Congresso, a esperança de que fosse mudar o mundo... talvez nunca devêssemos ter esperado tanto", diz.

Latiker afirma que, se Obama ganhar, deseja que o presidente dê aos jovens "uma voz mais forte lá no topo, porque os jovens estão se matando".

Ela descreve o comparecimento da comunidade às urnas nesta terça-feira como "fenomenal".

"Para ser honesta, o entusiasmo dos eleitores tinha diminuído. Mas nos últimos dois dias de campanha, voltou a subir. Temos esperança - de novo." BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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