De presidiário e trator, Bové se apresenta para cumprir pena

Dirigindo um trator, vestindo um uniforme de presidiário e denunciando a existência de uma "justiça política" na França, o dirigente sindical e porta-voz da Confederação dos Agricultores, José Bové, condenado a três meses de reclusão por ter comandado a destruição de um restaurante Mc´Donalds em Millau, apresentou-se hoje à Justiça francesa. Ele deverá cumprir o resto de sua pena, dois meses e dez dias, no presídio de Villeneuve- lès-Maguelone.José Bové, considerado um dirigente sindical "sui generis´ por explorar ao máximo o talento de grande comunicador, não perdeu a ocasião para tirar proveito dessa incomoda situação para promover a causa. Sempre que alguém é preso ou condenado procura cobrir o rosto, evitando fotógrafos e cinegrafistas, mas com Bové ocorre o contrário. Ele prefere posar para as câmeras de televisão e falar para as emissoras de rádio e jornais, defendendo suas idéias anti-transgênico e anti-globalização.Desde a véspera da apresentação, Bové já preparava o espetáculo na sua fazenda da região do Larzac, distante 130 quilômetros do presídio. Por volta das 6 horas da manhã, ele assumiu a direção de um dos seis tratores que abriam a carreata, uma verdadeira caravana formada por dezenas de veículos. A polícia se limitou a acompanhar a marcha lenta da caravana que circulou pelas estradas vicinais da região (o acesso a auto estrada foi vedado pelas autoridades), a uma velocidade de 25 kms horários. A carreata do vale do Herault foi acompanhada também por numerosos companheiros anti-globalização, representantes de diversas organizações, inclusive do grupo Attac. De boné, cachimbo na boca e de camiseta com a inscrição: "O mundo não é uma mercadoria", o dirigente sindical acenava para o público que esperava a passagem como se fosse uma etapa do "Tour de France", a famosa prova ciclista francesa. O trator que dirigia também exibia diversos cartazes: "Farinhas animais = veneno" ou "Luta sindical = prisão". Ele chegou a prisão de Villeneuve-lés-Maguelone às 16 horas e só teve tempo de trocar a camiseta pelo uniforme de presidiário, juntamente com seis amigos, uma alusão aos "irmãos Dalton" da famosa história em quadrinhos, sendo aplaudido por um público de 800 pessoas que o aguardava na entrada da prisão. Lá ele terá que cumprir o que resta de sua pena. Só uma anistia, decretada pelo presidente da República no dia 14 de julho, data nacional da França, poderá liberta-lo antes do prazo. Mesmo podendo ser anistiado por Jacques Chirac, o dirigente dos agricultores franceses não espera nada do novo governo francês que se instala na França, como atesta sua própria declaração: "Não posso entender o comportamento dos novos dirigentes. Eles elegeram uma forte maioria, mas a primeira medida que adotam foi a de me colocar na prisão, como se estivessem dispostos a mobilizar o movimento social do país".José Bové confirmou que não aceitou a oferta de penas alternativas que poderiam livrá-lo da prisão, pois continua não constituindo sua condenação por ter defendido os interesses da população, forma como justifica o ataque ao restaurante do grupo norte-americano Mc´Donalds. Logo depois, José Bové acenou para o público e, cercado por policiais, desapareceu no interior da prisão, onde terá direito a televisão e celular e poderá continuar em estreita relação com a mídia. A ordem de dispersão foi dada aos manifestantes, mas deu para ouvir na porta do presídio um forte ruído de panelas batidas, a forma encontrada pelos demais prisioneiros para protestar também contra a prisão de Bové.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.