AP Photo/Valentin Egorshin - arquivo
AP Photo/Valentin Egorshin - arquivo

De prisioneiros a ‘trigêmeos’, os candidatos mais singulares nas eleições russas

Disputas no país sempre são marcadas pelo aparecimento de nomes destinados a perturbar o eleitorado de oposição

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2021 | 13h00

As eleições legislativas e locais russas, que ocorrem entre 17 e 19 de setembro, têm uma série de candidatos únicos, incluindo duplos, um conhecido ex-agente da inteligência, mas também opositores e alguns apoiadores ferrenhos do presidente Vladimir Putin.

Existem cinco tipos de candidatos nestas eleições, nas quais o partido governista Rússia Unida é o favorito.

Os renovadores

O Kremlin sabe que a Rússia Unida é impopular e precisa injetar sangue novo com candidatos frescos.

O mais notável é Denis Protsenko, chefe de um grande hospital de Moscou, que mostrou uma imagem tranquilizadora, franca e competente na luta contra a covid-19.

Inicialmente, recusou-se a ser candidato, mas acabou sendo chamado pelo próprio Putin. O médico aceitou e lançou a candidatura.

A primeira vez que alguém ouviu falar em Protsenko, em 2015 e 2017, o contexto era diferente. O oposicionista Vladimir Kara-Murza contou como o médico salvou sua vida ao diagnosticar que ele tinha sido envenenado, tentativas de assassinato que a vítima atribuiu ao Kremlin.

Outra cara nova é a de Maria Bútina. Presa em julho de 2018 nos Estados Unidos, passou 18 meses encarcerada por tentativa de infiltração entre republicanos próximos do então presidente Donald Trump, em nome do serviço secreto russo.

Após sua libertação e retorno à Rússia, participou de um programa na televisão estatal, onde fez coisas como filmar o rosto do oposicionista Alexei Navalni, quando estava em greve de fome durante sua detenção.

Os oposicionistas assediados 

Após o fim do movimento Navalni, os poucos candidatos de oposição autorizados a concorrer enfrentam as maiores restrições.

Andrei Pivovarov faz campanha a partir da sua prisão em Krasnodar, onde se encontra detido desde maio sob a acusação de colaborar com uma organização proibida ligada ao oligarca Mikhail Khodorkovsky.

Daria Artemova, 19 anos, candidata independente “à mudança” no seu município de Berdsk, Sibéria, conta no Instagram das numerosas ameaças que recebeu, incluindo uma coroa de flores enviada aos seus pais.

Em Rostov-on-Don, um voluntário de uma equipe da oposição foi condenado a cinco dias de prisão por promover a estratégia eleitoral da organização Navalni, banido por ter sido classificado como “extremista” pela Justiça.

Cortina de fumaça

Todas as eleições russas assistem ao aparecimento de candidatos destinados a perturbar o eleitorado de oposição.

O exemplo mais notável desta vez é em São Petersburgo, onde o candidato de oposição Boris Vichnevsky, que disputa uma vaga à Câmara Municipal, concorre contra dois outros Boris Vichnevsky, que, além de terem o mesmo nome, têm a mesma barba e calvície.

No centro de Moscou, onde estão localizados o Kremlin, o parlamento, os serviços secretos e muitos ministérios, o partido no poder é tão impopular que nem sequer tem oficialmente um candidato.

Mas, de acordo com a oposição, a Rússia Unida esconde-se atrás da candidatura independente de Oleg Leonov, uma personalidade respeitada que dirige uma associação que procura pessoas desaparecidas.

As estrelas do poder

Figuras-chave do sistema de Putin, como Sergei Lavrov e Sergei Shoigu, respectivamente ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa, são candidatos suplentes da Rússia Unida, graças ao seu prestígio e 70% de aprovação, de acordo com o Instituto Vtsiom.

Sua missão é atrair os eleitores tradicionais, que podem ser tentados a abster-se.

A Rússia Unida tem uma taxa de aprovação inferior a 30%, devido à estagnação econômica e aos escândalos de corrupção.

A oposição pró-Putin 

Durante 20 anos, o Kremlin aceitou três partidos na oposição parlamentar tida como dócil: os comunistas, os nacionalistas LDPR e o partido centrista Just Russia.

Estes partidos apoiaram a reforma constitucional que permite a Putin permanecer no poder até 2036, e mesmo a lei que permite que os seguidores de Navalni sejam excluídos das eleições.

Seus líderes históricos, Guennadi Ziuganov, 77, Vladimir Khirinovsky, 75, e Sergei Mirounov, 68, são candidatos à reeleição. /AFP

 

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