De que lado estão os EUA na guerra síria?

Enquanto Moscou tem aliados e inimigos claramente definidos no conflito, Washington mantém estratégia dúbia

Fareed Zakaria*, The Washington Post

05 Outubro 2015 | 03h00

O presidente russo, Vladimir Putin, agiu de maneira enérgica na Síria - não por ser mais ousado ou mais determinado que Barack Obama, mas porque tem uma estratégia mais clara. Putin tem um aliado - o governo de Bashar Assad - e tem inimigos - os adversários do governo. Logo, ele apoia seu aliado e combate os inimigos. Em comparação, Washington e o Ocidente estão fundamentalmente confusos.

A favor de quem estarão os Estados Unidos nessa guerra? Nós sabemos: o regime de Assad. E contra o Estado Islâmico, que é o principal adversário do regime. E todos os outros grupos jihadistas que combatem na Síria - como a Frente Al-Nusra - afiliada da Al-Qaeda - e o Ahrar al-Sham. E ainda, as forças do Hezbollah e os assessores iranianos que apoiam o governo sírio. 

O Ocidente é contra quase todos os principais grupos que lutam na Síria, o que é sinal de clareza moral, mas de incoerência estratégica.

A decisão da Rússia não é tão brilhante quanto estão alardeando. É uma iniciativa desesperada para conter um dos únicos aliados externos do Kremlin - e cria o risco de tornar a Rússia o “Grande Satã” na opinião dos jihadistas de todas as partes do mundo. Mas, pelo menos, Putin tem um plano coerente. Ao contrário, os Estados Unidos são fortes aliados do governo iraquiano em sua luta contra os militantes sunitas daquele país. Mas estão lutando do mesmo lado destes militantes sunitas do outro lado da fronteira, na Síria, combatendo o regime de Assad.

Cenário. Washington apoia alguns grupos - os curdos sírios perto da Turquia, forças moderadas que têm o respaldo da Jordânia perto de sua fronteira e um pequeno número de outros sírios moderados. Mas, levando em conta os principais grupos que competem pelo controle de Damasco, os EUA estão contra quase todos.

Kenneth Pollack e Barbara Walters analisam a estratégia básica do governo, que considera todas as forças combatentes de certo modo inadequadas. “Os EUA estão montando um novo exército sírio da oposição. Esse exército será apolítico, não sectário e extremamente integrado”, escreveram no Washington Quarterly. “Quando estiver pronto, conquistará e defenderá o território contra o regime de Assad e os vários grupos jihadistas sunitas. (...) O resultado será um novo governo abrangente com ampla proteção para todos os grupos minoritários”. Seria algo a se julgar viável há 15 anos. Mas depois das experiências de Afeganistão, Iraque, Líbia e Iêmen, isso é mera fantasia, não política externa.

Estratégia. David Petraeus propôs recentemente uma ampla intervenção militar com o objetivo de criar espaços seguros e potencialmente uma área de exclusão de voos para fazer frente às bombas de fragmentação de Assad. Mas esse plano conseguiria derrotar o Estado Islâmico? Quando Petraeus formulou a estratégia no Iraque para derrotar o precursor desse grupo, enfatizou: “Não se pode matar ou capturar rebeldes dotados de uma força praticamente industrial como solução”. Seu manual de campo de 2006 sobre contrainsurgência afirma que o “sucesso final” só é possível “protegendo a população”. Os comandantes devem “transformar as atividades de segurança que utilizam operações de combate em forças de manutenção da lei e da ordem o mais rapidamente possível”.

É aí que está o problema. O Exército americano, na minha opinião, poderia derrotar facilmente o Estado Islâmico, que dispõe de uma força dotada de armamentos leves e menos de 30 mil homens. Mas então se tornaria o dono de parte da Síria. Quem quer governar esse território, proteger a população e ser considerado legítimo pelos seus habitantes? Um funcionário de alto escalão turco disse recentemente: “Observamos quando vocês tentaram governar cidades iraquianas e não pretendemos cometer os erros dos EUA”.

Se analisarmos as numerosas intervenções americanas no planeta, perceberemos um fator muito importante. Quando Washington se aliou a uma força local capacitada e considerada legítima, teve sucesso. Mas sem o apoio local, toda iniciativa, toda ajuda, poder de fogo e treinamento de fora têm resultados limitados - seja no Afeganistão, no Iraque ou na Síria.

Se o objetivo de Obama é uma democracia pacífica, estável, multissectária, isso exigirá um vasto compromisso americano, na escala da Guerra do Iraque. Caso contrário, Washington precisará aceitar a realidade e tomar algumas decisões difíceis. As duas principais são parar de opor-se a Assad e aceitar, ou não, que a Síria precisa ser dividida.

Se o importante é derrotar o EI, essa terá de tornar-se a prioridade máxima, assim como aliar-se às forças externas que se unirem à luta. Se Assad cair e os jihadistas tomarem Damasco, será pior do que se Assad ficar. O que não significa dar todo apoio a Assad, mas permitir que ele crie um enclave alauita na Síria, como o que já está se formando. Os curdos e os sírios moderados também estão criando seus próprios espaços seguros. Mesmo que a guerra civil acabe e um país chamado Síria continue existindo, esses grupos não terão condições de conviver novamente juntos.

Até o momento, o Ocidente combinou uma retórica maximalista, sem nenhum compromisso, com iniciativas minimalistas, ineficazes. É esse hiato cada vez maior entre ambas as atitudes que faz com que Vladimir Putin pareça tão inteligente. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*É colunista

Mais conteúdo sobre:
visão global Síria EUA

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.