Miraflores Palace via Reuters
Miraflores Palace via Reuters

De um condomínio em Miami à costa venezuelana, como um plano para 'capturar' Maduro naufragou

Incursão de mercenários foi frustrada por governo da Venezuela e resultou em oito mortes

Anthony Faiola, Karen DeYoung, Ana Vanessa Herrero, The Washington Post

08 de maio de 2020 | 08h00

Dentro de um arranha-céu brilhante de Miami, representantes da oposição venezuelana estavam sentados em uma sala decorada com espadas de samurai e ouviam uma proposta. Eles foram nomeados pelo líder da oposição Juan Guaidó para investigar todas as opções em sua empreitada, apoiada pelos Estados Unidos, de depor o presidente venezuelano Nicolás Maduro. Naquela tarde, às margens da Baía de Biscayne, em setembro do ano passado, um ex-Boina Verde do exército americano lhes deu uma resposta.

Funcionamento da Operação.

Jordan Goudreau, um veterano das Forças Especiais de 43 anos que dirigia uma empresa estratégica de segurança na Flórida, estabeleceu um plano que poderia servir de roteiro para um episódio do seriado "Jack Ryan". Goudreau afirmou ter 800 homens prontos para entrar na Venezuela e "arrancar" Maduro e seus comparsas, de acordo com J.J. Rendón, o estrategista político venezuelano escolhido por Guaidó para liderar o comitê secreto.

Guaidó "dizia que todas as opções estavam sobre a mesa e embaixo dela", disse Rendón ao The Washington Post. "Estávamos cumprindo esse objetivo".

Em outubro, o plano havia avançado ao ponto de chegar a um acordo assinado, dependente de financiamento e outras condições. Rendón chamou isso de "tubo de ensaio", um teste do que Goudreau poderia fazer, mas que nunca recebeu luz verde para ser executado oficialmente. Mas as palavras usadas no acordo não deixam ambiguidade no objetivo: "Uma operação para capturar/deter/ remover Nicolás Maduro... Remover o atual regime e instalar o reconhecido presidente venezuelano Juan Guaidó."

Mas logo após a assinatura [do acordo], disse Rendón, Goudreau começou a agir de forma estranha. Ele não apresentou provas do apoio financeiro que alegou ter conseguido para financiar a operação, afirmou Rendón, e exigiu o pagamento imediato de US$ 1,5 milhão. Não havia evidências dos 800 homens [prometidos]. Então Rendón transferiu para si US$ 50.000 para pagar "despesas” com o intuito de ganhar mais tempo, mas a conexão entre os dois homens rapidamente começou a se deteriorar. "Washington tem plena consciência de sua participação direta no projeto e não quero que eles percam a fé", alertou Goudreau em uma mensagem de texto enviada em 10 de outubro para Rendón.

Houve uma discussão explosiva no condomínio de Rendón em Miami no início de novembro, disse Rendón. Ele e outros representantes da oposição consideraram a operação morta.  Até a manhã de domingo.

Primeiro, autoridades venezuelanas disseram ter frustrado uma "invasão" antes do amanhecer, destinada a matar Maduro. Então Goudreau apareceu em um vídeo com um ex-oficial militar venezuelano em uniforme de batalha. Ambos proclamavam o início de uma operação para "libertar a Venezuela". Goudreau disse que seus agentes haviam entrado na Venezuela, mas até então a missão - aparentemente infiltrada por agentes de Maduro - já havia sofrido um golpe devastador. Oito homens foram mortos e 13 outros capturados, dois deles eram ex-Boinas Verdes, colegas de Goudreau.

Este relatório, baseado em entrevistas com mais de 20 pessoas familiarizadas com os eventos, apresenta detalhes não revelados anteriormente sobre as discussões da oposição em relação ao que os participantes secretamente chamaram de "Plano C": uma incursão armada para localizar e capturar Maduro.

O presidente Donald Trump e outras autoridades americanas negaram o conhecimento da malfadada operação. O secretário de Estado Mike Pompeo disse na quarta-feira "que não houve envolvimento direto do governo dos Estados Unidos".

Goudreau diz que, sem sucesso, procurou apoio dos Estados Unidos por meio de um assessor no escritório do vice-presidente Mike Pence. Ele se recusou a dizer o nome do assessor. Uma porta-voz de Pence disse na quarta-feira que havia "contato zero" entre qualquer pessoa no escritório do vice-presidente e Goudreau. "Não houve articulação, [não temos] nada a ver com isso", disse a porta-voz Katie Miller.

Rendón disse que seu comitê manteve os detalhes de seu trabalho entre integrantes de um pequeno grupo e nunca os compartilhou com as autoridades americanas, porque o plano estava apenas sendo "estudado".

Goudreau insiste que algum formato da operação está "em andamento" e que a principal frente de oposição da Venezuela o traiu ao recusar o acordo. Ele disse que optou por seguir em frente com o que ele diz que foi contratado para fazer. Afirmou que não tinha nada a ver com dinheiro, ele estava fazendo "a coisa certa".

"Esta não é uma ação de guerra, é uma ação de policiamento", disse Goudreau. "O mundo reconhece um homem como presidente, então eles me contrataram para prender a outra pessoa que usurpou o poder, Nicolás Maduro."

Goudreau, nascido no Canadá, mas que tem cidadania americana; entrou pela primeira vez na lupa do mundo anti-Maduro em fevereiro do ano passado, quando trabalhou na segurança do "Venezuela Aid Live" um show na fronteira colombiana organizado pelo bilionário britânico Richard Branson com o objetivo de arrecadar ajuda para o país.

Ele serviu 15 anos ao Exército na infantaria e mais tarde como sargento médico das Forças Especiais. Ele foi enviado ao Iraque e ao Afeganistão duas vezes entre 2006 e 2014, disseram oficiais do Exército. "Ele tinha uma intensidade um pouco diferente", disse Joe Kent, um Boina Verde aposentado que participou de um curso de liderança com ele em 2007. "Ele parecia estar treinando para alguma coisa".

Em 2012, o Departamento de Defesa lançou uma investigação criminal sobre Goudreau por suposto roubo e fraude em conexão com US$ 62.000 em subsídios de moradia que ele sacou para sua esposa, mostram registros do tribunal. Goudreau disse que o assunto foi resolvido sem ônus.

Ele fundou a SilverCorp USA em 2018. A empresa anuncia uma variedade de serviços, incluindo assistência a vítimas de sequestro e extorsão. Segundo uma biografia no site da empresa, Godreau planejou e liderou "equipes de segurança internacionais para o presidente dos Estados Unidos, bem como para o secretário de Defesa".

No verão passado, a titubeante oposição da Venezuela procurava opções. Guaidó tentou liderar uma revolta militar contra Maduro em 30 de abril, mas a trama cuidadosamente construída desmoronou completamente quando os conspiradores próximos ao autocrata desistiram ou se revelaram agentes duplos. Isso deixou Guaidó, presidente da Assembleia Nacional que é reconhecido pelos Estados Unidos e mais de 50 outros países como líder legítimo da Venezuela, lutando para recuperar o ímpeto de seu movimento de oposição.

Um elemento pouco conhecido dessa luta foi a criação, em agosto do ano passado, de um novo "Comitê Estratégico". O nome daqueles que faziam parte dele permanece em segredo, mas sua face mais pública é Juan José Rendón.

O estrategista político de 56 anos era perfeitamente adequado à tarefa. Expulso da Venezuela pelos socialistas no poder em 2013 e ameaçado de tortura caso retornasse, ele não era amigo de Maduro. De sua base no intrigante e agitado mundo dos exilados venezuelanos em Miami, ele se tornou um consultor político procurado internacionalmente.

A missão de seu comitê era investigar cenários para alcançar mudanças de regime. Os participantes pesquisavam opções prosaicas como aumentar a pressão internacional contra o governo. Mas também estudavam a possibilidade de sequestrar efetivamente Maduro e seus funcionários mais próximos.

O esforço envolveu discutir com mais de uma dúzia de advogados acerca da legalidade de tal missão, disse Rendón. Eles analisaram o argumento de "inimigo universal" - usado anteriormente para processar piratas - que serviu de base para algumas rendições nazistas após a Segunda Guerra Mundial. Eles compilaram um dossiê a respeito da tentativa fracassada da Invasão da Baía dos Porcos de libertar Cuba do governo de Fidel Castro.

Questões de legalidade prejudicaram as perspectivas de uma operação desse tipo na Venezuela. Mas os integrantes do comitê finalmente decidiram que os artigos da constituição venezuelana, juntamente com a Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional, poderiam oferecer a cobertura legal necessária para uma ação em potencial.

Quando Goudreau chegou à sala de Rendón em 7 de setembro, disse Rendón, o comitê já havia se reunido com um punhado de parceiros em potencial. Mas eles queriam até US$ 500 milhões para o trabalho.

Goudreau, por outro lado, apresentou um plano autofinanciado com um pagamento antecipado mais modesto - US$ 212,9 milhões - depois que a missão fosse cumprida. O dinheiro seria proveniente de futuras exportações de petróleo venezuelano sob um governo de Guaidó. Mas eles tinham uma vantagem secreta que podia não custar um centavo aos contribuintes venezuelanos.

A oposição identificou armazéns privados na Venezuela repletos dos rendimentos supostamente ilícitos do círculo interno de Maduro. As fotografias compartilhadas via mensagem de texto entre Rendón e Goudreau e fornecidas ao Washington Post mostram pacotes enormes de dólares americanos cuidadosamente embrulhados e empilhados no chão de madeira. Goudreau teria direito a 14% dos fundos recuperados.

 O plano envolvia muito mais do que os principais objetivos de apreender e remover Maduro e seus homens. Um acordo de serviços gerais indicava que a Silvercorp aconselharia ex-soldados venezuelanos no exílio para a operação. Goudreau teve 45 dias para preparação da tropa, aquisição de equipamentos e prontidão da missão. As equipes entrariam clandestinamente na Venezuela e formariam células que se distribuiriam pelo país para garantir as principais instalações de petróleo e edifícios estratégicos. Elas envolveriam as forças de segurança do governo e também as gangues de motocicletas, conhecidas como "colectivos" e grupos de guerrilha colombianos que operam em solo venezuelano.

Um acordo foi assinado em Washington em 16 de outubro. Goudreau gravou secretamente uma breve videochamada naquele dia com Guaidó, que ele forneceu ao The Post. "Estamos fazendo a coisa certa para o nosso país", ouviu-se de Guaidó, e depois: mais tarde, ele diz: "Estou prestes a assinar [o acordo]".

Guaidó se recusou a ser entrevistado para este artigo. Em um comunicado, ele negou qualquer contrato existente com Goudreau e disse que seu "governo interino" não tem nenhuma conexão com a operação aparentemente em andamento contra Maduro.

Por um tempo, Rendón e outros pensaram que Goudreau poderia produzir resultados. Mas eles ficaram cautelosos depois que ele começou a exigir o pagamento adiantado de US$ 1,5 milhão. Rendón descreve o pagamento como um mero sinal, que não deve ser cobrado antecipadamente, para ajudar Goudreau a conseguir US$ 50 milhões em fundos privados.

Goudreau responde que o acordo - fornecido em parte ao The Post por ele, com uma versão mais completa enviada por Rendón - vinculou a oposição a seus serviços e uma taxa inicial. Um documento de sete páginas concedido por Goudreau traz a assinatura de Guaidó, juntamente com as de Rendón e seu colega Sergio Vergata. "Veja, J.J. Rendón pressionou pelos US$ 50 milhões para a operação, uma operação para mudar o país", disse Goudreau. "Ninguém aqui é escoteiro. Eles pensaram que iriam tomar o poder."

Rendón, no entanto, insiste que o documento que Goudreau produziu nunca foi assinado por Guaidó, e forneceu acordos anteriores e subsequentes ao The Post que não levavam o nome de Guaidó. Rendón disse que Guaidó conhecia apenas as linhas gerais de um "plano experimental", mas ficou desconfiado de Goudreau com base nos relatórios do comitê. "Estávamos todos sentindo sinais de alerta e o presidente não estava confortável com isso", disse ele.

Alguns temem que Maduro use a operação de Goudreau para tomar uma ação que ele até agora resistiu: prender Guaidó. Na quarta-feira, ele pediu uma investigação acerca do suposto envolvimento de Guaidó.

Dias antes da incursão na Venezuela, os advogados de Goudreau entregaram uma carta a Rendón exigindo o pagamento de US$ 1,45 milhão. Autoridades da oposição começaram a temer que Goudreau levasse a público as discussões do ano passado.

Quando Rendón acordou no domingo e viu as notícias da operação, ele ficou atordoado. "Eu pensei, esses caras são loucos?", ele disse. "Eles estavam nos chantageando [pelo dinheiro]. Pensei: uau, vocês realmente vão levar isso tão a fundo?"

Depois de fornecer segurança na fronteira em 2019, Goudreau entrou em contato com Cliver Alcalá. O ex-general venezuelano era próximo do falecido líder socialista Hugo Chávez, mas desertou sob seu antecessor, Maduro. Alcalá estava morando na Colômbia, preparando ex-soldados venezuelanos em um plano para derrubar Maduro.

 A reunião ocorreu em um hotel em Bogotá. Lá, várias pessoas familiarizadas com os eventos dizem que Goudreau soube dos detalhes do plano de Alcalá. A certa altura, dizem essas pessoas, o plano era apressar a tomada da capital petrolífera de Maracaibo e depois avançar para o leste, em direção a Caracas.

Alguns funcionários experientes da oposição rejeitaram o plano definindo-o como uma "fantasia". Quando Goudreau se envolveu, o plano tornou-se uma operação para tirar Maduro, sua esposa e outros funcionários do governo, incluindo o aliado próximo de Maduro, Diosdado Cabello. Mas esse plano parecia estar comprometido.

Em março, as autoridades americanas indiciaram Maduro e outros políticos do atual governo e do anterior por acusações de narcoterrorismo. Entre os réus estavam Alcalá, que foi trazido para os Estados Unidos. Então o governo de Maduro veio a público com acusações de que faziam lobby contra ele há meses - que uma trama contra ele estava sendo preparada em solo colombiano.

 Maduro afirmou que seus agentes sabiam todos os detalhes da incursão de domingo e estavam na espreita para o contra-ataque. "Sabíamos tudo", disse ele. "O que eles comeram, o que não comeram. O que eles beberam. Quem os financiou."

 As autoridades americanas estavam cientes e preocupadas com as centenas de soldados venezuelanos que desertaram e viviam precariamente na Colômbia. Autoridades dos Estado Unidos e da Colômbia compartilhavam a preocupação de que, se fossem desamparados, poderiam ser atraídos para atividades ilícitas. Foram realizadas discussões sobre como e se deveriam alimentar esses homens ou organizá-los para ajudar a comunidade de refugiados da Venezuela. Mas eles viam a ideia de que poderiam ser organizados em uma força de combate como "completamente insana".

 Os colombianos "eram contra e nós éramos contra", de acordo com uma autoridade americana que falou sob condição de anonimato para discutir assuntos delicados. "Ninguém deveria estar desenvolvendo esse tipo de organização militar".

Maduro disse na quarta-feira que outros quatro "terroristas" foram presos. Ele mostrou um vídeo do interrogatório de um homem identificado como Luke Denman, um dos dois ex-Boinas Verdes que havia servido com Goudreau e que foram capturados.

Denman, que parecia desgrenhado, mas calmo e sem machucados, respondia as perguntas de um interrogador que não podia ser visto. Ele confirmou que o objetivo da missão era capturar Maduro e que esperava entre US$ 50.000 e US$ 100.000 pelo treinamento na Colômbia.

Ele disse que o treinamento e a organização da operação ocorreram perto da cidade colombiana de Riohacha, perto da fronteira com a Venezuela. Apenas dois americanos estavam no campo de treinamento, segundo Denman, incluindo ele próprio. Armas e uniformes, ele disse, foram fornecidos por "Goudreau, por meio da Silvercorp".

Eles foram recebidos no aeroporto e conduzidos por uma mulher chamada "Ana". Ele descreveu um "homem em cadeira de rodas" que apareceu em um dos dois esconderijos em Riohacha, que "parecia ter alguma influência". Ele "chegava em uma vistosa caminhonete, vestia uma bela camisa e usava joias de ouro". "Eu estava ajudando os venezuelanos a retomar o controle de seu país", disse ele. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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