Dê uma pista, Hillary Clinton

Após 4 anos de viagens a 112 países e 1,7 mil reuniões com líderes mundiais, ela deixa o Departamento de Estado

GAIL COLLINS - THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2013 | 02h04

Hoje é o último dia de Hillary Clinton no Departamento de Estado. Como seremos lembrados, nos últimos quatro anos, ela viajou 1.503.772 quilômetros para 112 países diferentes para realizar 1.700 reuniões com líderes mundiais. Nesse afã, ela consumiu 570 refeições em aviões.

É exatamente o que se esperaria que ela fizesse. Essa é a mulher que ao encerrar sua carreira como senadora dos Estados Unidos comentou: "Eu me diverti um bocado. Oito feiras estaduais, 45 desfiles, 62 condados, mais de 4.600 eventos no Estado".

E houve, é claro, a corrida para presidente na qual ela fez campanha em 54 primárias e convenções. Depois de perder, ela conclamou seus seguidores a darem uma parada e "irem à praia". No entanto, ela mesma foi fazer campanha para Barack Obama. Depois, veio o gabinete e os 112 países.

Portanto, é compreensível que as pessoas estejam se perguntando quanto tempo durará a parte repousante de seu futuro. Já existe um PAC (comitê de ação política) "Hillary-em-2016". Apesar de ela não ter nada a ver com isso, Hillary, seguramente, poderia contê-lo, assim como poderia pôr fim a toda especulação presidencial simplesmente dizendo que não aceitaria, em nenhuma circunstância, uma indicação. Não disse.

Contudo, devemos realmente passar o primeiro ano do segundo mandato de Obama antes de começar a discutir seu sucessor. Enquanto isso, se as últimas décadas servem de indício, o que quer que Hillary faça envolverá um trabalho extraordinariamente diligente, mas sem glamour, combinado com desastres ocasionais de arrepiar os cabelos, que ela superará com uma resolução férrea que fará o mundo desmaiar.

Sua saída do emprego atual seguiu o padrão. Houve o vírus, seguido do desmaio, queda e coágulo sanguíneo. Seguido por audiências estridentes no Senado em que as falhas do governo durante a condução da tragédia em Benghazi foram eclipsadas pelos trechos de vídeo da secretária devolvendo os golpes de senadores republicanos resmungões, usando um óculos novo grande para controlar a visão dupla relacionada à concussão.

E houve a posse, quando Bill e Hillary Clinton foram fotografados papeando com o ex-candidato vice-presidencial e atual flagelo da Casa Branca, Paul Ryan. "Estávamos apenas trocando gentilezas", disse Ryan ao programa de TV Meet the Press. Na sequência, ele disse que se ao menos o país estivesse sob uma "presidência de Clinton", a crise fiscal seria resolvida. Não ficou inteiramente claro a qual Clinton ele estava se referindo. Não tinha a menor importância.

Tudo isso foi seguido de uma entrevista conjunta com o presidente no programa 60 Minutes, na qual Obama disse que "Hillary estará entre os melhores secretários de Estado que tivemos". Segura essa, John Quincy Adams! Ele a chamou de "uma forte amiga". Ela o chamou de "parceiro e amigo". Eles se dão bem, mas como ela disse certo dia numa entrevista: "Nós não convivemos".

A volta. Depois, Hillary partiu para uma sequência aparentemente interminável de aparições de despedida, incluindo uma reunião pública em que respondeu uma pergunta sobre "o futuro dos recursos minerais na Antártida". Enquanto isso, Tim Geithner se afastava da Secretária do Tesouro. Alguém notou?

Apesar de não ser provável que ela vá para casa repousar sobre os louros, Hillary realmente merece uma chance de uma soneca sobre eles. Ela está com 65 anos e passou o último pedaço de sua vida trabalhando e competindo com pessoas que são, em geral, mais jovens do que ela.

Certa vez, durante a corrida presidencial, ela me contou que gostava de me ver no avião de campanha porque era o único momento em que havia alguém da sua idade à bordo. "Eu simplesmente tinha de contar às pessoas o que foi o Sputnik", comentou.

As mulheres da geração de Hillary têm uma ligação especial com ela porque ela resume suas histórias. Ela falou por sua juventude rebelde quando se formou em Wellesley, pedindo "um modo de vida mais imediato, extático e incisivo" do que o conhecido pela geração anterior. Será que ela estaria imaginando que isso incluiria 570 refeições em avião? A convenção em Idaho? Oito feiras estaduais?

Então, Hillary Rodham tornou-se Hillary Clinton, a mulher que trabalhava para ajudar a família e os sonhos de seu marido.

No entanto, de alguma forma, graças a seus talentos e sua fabulosa ética no trabalho, ela acabaria tendo uma vida profissional mais espetacular do que jamais poderia ter alcançado numa trajetória de carreira normal.

Quando fez campanha para o Senado, era possível ver multidões de mulheres de meia idade gritando como garotas em concertos de rock por uma das suas simpatizantes, que havia confirmado seus anseios privados por um segundo ou talvez terceiro ato.

Depois, houve o sonho da primeira mulher presidente, que não se realizou. No entanto, Hillary transformou o fracasso em algo tão positivo que pareceu um sucesso. Agora, seu período diplomático acabou. Sendo Hillary Clinton, ela jamais olhará para trás e nunca se questionará quantas daquelas 1.700 reuniões ela poderia ter evitado sem colocar em perigo a estabilidade do planeta. Sem lamentações. Para o alto e avante. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É COLUNISTA

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