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Artigo: De volta ao personalismo, China lembra 40 anos de reforma 

Xi dá marcha à ré em caminhos que pareciam não ter volta, com uma visão que dá peso cada vez maior ao Estado no crescimento 

Cláudia Trevisan , O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2018 | 05h00

Em dezembro de 1978, Deng Xiaoping iniciou a revolução que transformaria a China na segunda maior economia e na maior potência comercial do planeta, no mais rápido processo de desenvolvimento da história. Quatro décadas mais tarde, Xi Jinping deu marcha à ré em caminhos que pareciam não ter volta, com uma visão que dá peso cada vez maior ao Estado no crescimento e reinsere o Partido Comunista em virtualmente todos os setores da sociedade chinesa. 

Xi resgatou o culto à personalidade execrado por Deng, acabou com limites à sua permanência no poder e ignorou o preceito do antigo líder que guiava a política externa da China: “esconder nossa capacidade e esperar o momento oportuno”. Xi parece convencido de que o momento chegou. Nenhum outro dirigente chinês vinculou tanto sua legitimidade à projeção de poder e influência além das fronteiras.

Alguns integrantes da elite chinesa o responsabilizam pela guerra comercial com os EUA, motivada em parte pelos subsídios às gigantescas estatais, à precária proteção da propriedade intelectual e ao anúncio de que a China pretende dominar as tecnologias que moverão a economia do futuro com forte decisivo do Estado. Com a retração dos EUA do tabuleiro internacional promovida por Donald Trump, Xi também se candidatou ao cargo de líder global. 

Para Deng, a relação com os EUA era crucial para promover o desenvolvimento, em razão do acesso à tecnologia, experiência e capital que ela propiciaria. Os dois países anunciaram o estabelecimento de laços diplomáticos no dia 15 de dezembro de 1978, três dias antes da abertura do encontro que marcaria o início das reformas – a Terceira Sessão Plenária do 11.º Comitê Central do Partido Comunista da China. Quarenta anos mais tarde, Xi corre o risco de ser o líder chinês que presidirá sobre o rompimento da mais importante relação bilateral do século 21.

Em 1980, a China concedeu a primeira licença de operação a uma empresa privada. Hoje, o setor responde por 60% do PIB e 80% dos empregos do país, mas recebe apenas 25% do crédito corporativo, cuja maior parte é destinada às estatais. 

Sob Xi, as firmas privadas foram obrigadas a fortalecer as células internas do Partido Comunista e a considerar com mais atenção as prioridades de Pequim. Há um ano, o governo anunciou que estatais passarão a adquirir participação em algumas delas, principalmente nos setores de tecnologia, internet e semicondutores. Os bilionários chineses também estão na mira da campanha anticorrupção de Xi, na qual a linha que separa a punição de crimes de outras motivações nem sempre é clara. 

Em um país sem Judiciário independente nem Estado de direito, a transparência desses processos é mínima. De acordo com o jornal Economic Information Daily, pelo menos 11 presidentes de grandes companhias listadas em Bolsa desapareceram por diferentes períodos nos últimos três anos, antes de serem condenados por supostos atos ilegais.

A apreensão entre empresários era tanta que Xi convocou uma reunião com alguns deles no mês passado para tranquilizá-los. Depois de prometer medidas para ampliar o acesso ao crédito, ele sugeriu que todos que se acalmassem.

Com a economia desacelerando em meio a uma precária trégua na guerra comercial com os EUA, Pequim precisa do dinamismo do setor privado para manter a expansão do PIB, que é a principal fonte de legitimidade do Partido Comunista. Os dois fatores podem levar Xi a anunciar um novo impulso às reformas esta semana, quando a reunião econômica anual dos líderes chineses coincidirá com a comemoração dos 40 anos do início da transformação promovida por Deng. A dúvida é se elas irão longe o bastante para aplacar Trump e aumentar a eficiência do crescimento da segunda maior economia do mundo.

A China de 1978 se recuperava de três décadas da revolução permanente de Mao Tsé-tung, sob a qual pelo menos 30 milhões de chineses morreram. Fechado para o mundo, o país era uma versão da Coreia do Norte de hoje – com 1 bilhão de habitantes. A renda per capita era de US$ 300, um quarto da registrada no Brasil na mesma época.

Com a morte de Mao, em 1976, Deng foi reabilitado do segundo expurgo que sofreu nos anos 60 e 70. Aos poucos, assumiu a posição de dirigente de fato da China e iniciou o processo de modernização que jogaria o país no centro da globalização. O Partido Comunista, cujos tentáculos permeavam toda a vida dos chineses, se retraiu, ampliando o espaço da liberdade individual. 

Autora do livro A Garota da Fábrica de Mísseis, Lijia Zhang diz que as reformas expandiram a tal ponto o tamanho da gaiola em que os chineses viviam que muitos não percebiam mais que estavam dentro dela. Ordenado por Deng, o massacre de estudantes que pediam reformas políticas na Praça Tiananmen em 1989 logo mostrou o limite que não poderia ser ultrapassado: questionar ou ameaçar a legitimidade do Partido Comunista. Nesse ponto, não há nenhuma diferença entre Deng e Xi.

* É JORNALISTA 

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