De volta ao poder, líder terá de conter militares

De protegido a crítico do Exército, Nawaz Sharif tende a encabeçar um governo que dependerá de apoio de rivais

SABA IMTIAZ, CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2013 | 02h00

Após ocupar por duas vezes o posto de primeiro-ministro do Paquistão, Nawaz Sharif, de 63 anos, deverá aproveitar sua volta ao poder para diminuir a influência dos militares sobre o governo civil.

Em 1988, um jovem Sharif em campanha disse que admirava o general paquistanês e depois ditador Zia-ul-Haq. "Ele fez algumas obras muito boas no país. Estabeleceu bons precedentes na política que tiveram um impacto muito saudável." Vinte e cinco anos depois, Sharif - chefe da Liga Muçulmana do Paquistão - já não admira publicamente os chefes do Exército. Durante a campanha, ele lembrou os paquistaneses de algo óbvio: o poderoso Exército é chefiado pelo primeiro-ministro - e não o contrário. Essa verdade ainda é um assunto controvertido para ser dito em voz alta no país.

Sharif, que enfrentou três chefes do Exército em seus mandatos de primeiro-ministro, prometeu agora colocar os militares no seu lugar. Uma importante razão para seu conflito com as Forças Armadas veio quando Sharif concordou com reparações à Índia. "Quando (Sharif) percebeu que só haveria progresso econômico se fizéssemos a paz com a Índia, houve um desacordo com os militares", diz Sohail Warraich, um dos comentaristas políticos mais conhecidos do país e autor de um livro sobre Sharif intitulado Quem é o traidor?.

Histórico. Herdeiro de uma família de industriais de Punjab, Sharif teve uma carreira política longa e complicada, servindo como ministro-chefe da Província de Punjab e, por duas vezes, como primeiro-ministro do Paquistão, de 1990 a 1993 e de 1997 a 1999. Embora fosse conhecido e aplaudido por suas políticas de liberalização econômica, nunca conseguiu completar um mandato. Seus anos no poder foram marcados por um governo fraco, denúncias de corrupção, batalhas políticas e um golpe militar.

Após o Paquistão realizar testes nucleares, em 1998, em resposta a provas semelhantes da Índia, um breve momento de euforia nacionalista e chauvinista, que parecia capaz de torná-lo um herói nacional, transformou-se em pânico quando vieram as sanções internacionais e o congelamento de contas em moedas estrangeiras.

Um ano depois, uma guerra com a Índia em Kargil se transformou em um novo desastre político para Sharif. Sua eventual tentativa de destituir o chefe do Exército - general Pervez Musharraf - saiu pela culatra quando o Exército organizou um rápido golpe. Musharraf tomou o poder. Recentemente, Sharif pediu uma investigação sobre o conflito em Kargil e irritou ainda mais os militares.

Warraich diz que a pose de "grande patriota" que Sharif acreditava ter alcançado após os testes militares de 1998 foi dissipada pela Guerra de Kargil. "O patriota virou um traidor", diz. "Ele teve de ir para os EUA e pedir proteção." Depois de oito anos de exílio, retornou ao Paquistão, reconstruiu rapidamente seu partido e conquistou a maioria dos assentos em Punjab, onde vive a maioria da população indiana.

Ele também está se preparando para uma luta figurativa com os militares paquistaneses. O chefe do Estado-Maior do Exército, general Ashfaq Parvez Kayani, descartou recentemente a ideia de que o Paquistão fora arrastado para uma guerra americana, enquanto Sharif disse que deseja abrir um diálogo com o Taleban paquistanês, evitando condenar o grupo.

Zulfiqar Balti, fotógrafo pessoal de Sharif, que já trabalhou para a família Bhutto, o descreve como um pai carinhoso que não forçou seus filhos a entrar na política. "Há uma humildade nele que atrai as pessoas", diz Balti.

O fato de dois políticos adversários dos anos 90 - Benazir Bhutto e Nawaz Sharif - terem deixado de lado suas diferenças para forjar um acordo (chamado a Carta da Democracia) foi uma grande novidade na política paquistanesa. Balti valoriza como Sharif perdoou e esqueceu muitos que desertaram de seu partido, o PML-N. Ele ressalta também como Sharif lidou com o partido de Benazir, o PPP.

Alvo de críticas. Apesar de toda civilidade de Sharif, há também uma sombra que o persegue. Relatos de que seu partido recebeu apoio do banido grupo antixiita Sipag-e-Sahaba, na última eleição geral, e críticas sobre sua posição vaga a respeito desses militantes o prejudicaram durante a campanha.

"Essa é minha visão pessoal, mas, toda vez que o PML-N esteve no governo, ocorreram injustiças", diz o padre Ashraf Gill, de Gujranwala. Ele fala de alguns ataques a cristãos católicos durante o governo do PML-N em Punjab. Gill, que credita ao governo interino de Punjab um papel positivo para impedir um grande ataque a sua igreja em abril, disse: "Se o PML-N estivesse no governo na época e esses terroristas estivessem por aí, nós também estaríamos arruinados".

Sharif conseguiu conter as críticas com uma reviravolta: puxou o xeque Waqas Akram para o partido, um ex-parlamentar da Liga Muçulmana do Paquistão-Quaid, grupo que é fortemente contrário ao Sipah-e-Sahaba. O chefe do Sipah-e-Sahaba, Ahmed Ludhianvi, disse que ainda estava zangado com o PML-N em razão da medida. "Eu mesmo entreguei um arquivo sobre Akram a Sharif e me prometeram que ele nunca seria trazido a bordo."

Trabalhar com Imran Khan, do Movimento pela Justiça? Ainda não se sabe quantas cadeiras o partido de Sharif obterá na Assembleia Nacional. O partido de Khan, que surgiu em 2001, estava atolado em lutas internas. O ressurgimento recente, contudo, parece ter dado um impulso significativo a ele.

Sharif tem uma longa batalha pela frente e muitos adversários ao longo do caminho: militantes guerreando nas áreas tribais, uma Câmara Alta do Parlamento controlada por rivais e os militares, que ainda detêm as chaves para garantir um mandato. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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