De volta ao século 19

Retorno à política do equilíbrio de poder é necessário para manter sistema internacional

JAMIE , METZL, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2014 | 02h01

Com o território ucraniano ocupado por tropas russas e a Marinha chinesa instalada em águas territoriais filipinas, no Mar do Sul da China, o mundo entrou num túnel do tempo perigoso. Em termos geopolíticos, Rússia e China vêm reestabelecendo normas do século 19, quando Estados competiam com vistas a um poder autoritário no âmbito de um sistema de nacionalismo desenfreado e uma rígida soberania estatal.

Ao que parece, o presidente russo, Vladimir Putin, vem tentando reconstituir o mapa do século 19 da Rússia czarista, procurando se apossar a qualquer preço de Crimeia, Abkházia, Ossétia do Sul e de outras partes do antigo império. Do mesmo modo, Pequim quer fazer valer o direito ao Mar do Sul da China, em total violação à Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, com base em histórias vagas de impérios antigos.

Os dois países se comportam como se o poder fosse um jogo de soma zero imposto pelas velhas regras da realpolitik. No entanto, apesar da advertência do secretário de Estado americano, John Kerry, de que a ocupação da Crimeia pela Rússia "não é um comportamento de uma grande nação do século 21 e integrante do G-8", os EUA e seus aliados estão empenhados em se manter no mundo pós-guerra do século 20.

Transnacionalismo. Para os EUA, a destruição desencadeada pelos nacionalismos predatórios da Europa, refletidos no colonialismo e em duas guerras mundiais, terminou em 1945. Os estrategistas pós-guerra americanos concluíram que, se o nacionalismo excessivo era o problema, o transnacionalismo era a solução.

Os EUA assumiram então a liderança na constituição de um sistema de direito internacional criando as Nações Unidas, fomentando o livre-comércio e mercados abertos em todo o mundo e mantendo, ao mesmo tempo, um amplo sistema de segurança que permitiu o desenvolvimento de instituições transnacionais, como União Europeia e a Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean, na sigla em inglês).

Os EUA não foram nada consistentes ou perfeitos nesse processo, às vezes com consequências mortíferas em lugares como o Vietnã. Entretanto, sua defesa resoluta de um sistema internacional que fosse mais reciprocamente benéfico do que qualquer outro que o tivesse precedido propiciou sete décadas de enorme inovação, crescimento e aprimoramento jamais presenciados.

Hoje, contudo, com a ascensão da China, o poder global se reequilibrando e os EUA, desgastados por duas guerras ao longo de uma década, que corroeram sua credibilidade, a ordem internacional pós-guerra está sob intensa pressão.

O sistema pós-guerra liderado pelos EUA também transformou o Japão contemporâneo, seu defensor incondicional. Quando o comodoro de Washington, Matthew Perry, chegou ao porto de Tóquio, em 1854, encontrou um país fraco, isolado e tecnologicamente atrasado.

Catorze anos depois, o Japão se lançou em um processo de modernização maciça impulsionado pelo imperador Meiji - 37 anos depois disso, sua vitória na guerra russo-japonesa surpreendeu o mundo. Aprendendo rapidamente as lições da Europa do século 19, em 1894, o Japão iniciou um trabalho intenso de cinco décadas para dominar a Ásia e garantir seus recursos, interrompido apenas quando bombas atômicas americanas arrasaram Hiroshima e Nagasaki.

Depois da guerra, sob proteção e orientação inicial dos EUA, o Japão emergiu como o grande defensor de um sistema internacional com base no direito. Contribuiu financeiramente para as Nações Unidas muito mais, em termos relativos, do que qualquer outro país. Participou ativamente de outras instituições internacionais e sustentou o desenvolvimento de seus vizinhos asiáticos, incluindo a China.

Europeus. No entanto, com os líderes chineses representando agressivamente os japoneses como a parte malvada e reivindicando de modo ainda mais intenso direitos marítimos e territoriais, o Japão vem sendo empurrado para uma direção que o primeiro-ministro, Shinzo Abe, com sua inclinação para o revisionismo histórico e colocando em realce o passado nacionalista do Japão, pode, de alguma maneira, já ter favorecido: uma volta ao século 19.

A Europa também acatou o sistema internacional do pós-guerra. Com a segurança garantida pelos EUA, os governos europeus se concentraram em aplicar seus recursos no bem-estar social e começaram a construir uma utopia em que os Estados cederiam parte da sua soberania e colocariam fim às divisões nacionais, em que as agressões e as hostilidades seriam substituídas pela negociação e pelo acordo.

Única alternativa. Hoje, o sonho do século 21 da União Europeia se defronta com o urso czarista do século 19, projetando suas garras atávicas na fronteira entre Rússia e Ucrânia. E, da mesma maneira que a Asean é incapaz e nem está disposta a fazer frente aos chineses, em razão da sua invasão do Mar do Sul da China, o bloco europeu descobre também os limites da sua estratégia de poder brando, com base no consenso.

Se um sistema do século 21, em que os Estados abrem mão de parte de sua soberania, continua um sonho inatingível no nosso mundo hobbesiano e a retomada das normas do século 19, aquiescendo com o comportamento agressivo da Rússia e da China, é algo intragável, a defesa do sistema internacional do pós-guerra pode ser a melhor opção que temos.

Ironicamente, uma resposta do século 19, enfatizando a política com base no equilíbrio de poder e no rearmamento da Europa e do Japão, talvez seja uma parte do que é necessário para defendermos o sistema internacional do pós-guerra. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É EX-CONSELHEIRO DE SEGURANÇA

NACIONAL DOS EUA DURANTE O

GOVERNO DE BILL CLINTON

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