Shannon Stapleton/Reuters
Shannon Stapleton/Reuters

De volta do Iraque, soldados dos EUA tentam enterrar as memórias do front

Base no Texas recebe último contingente das tropas americanas que deixaram para trás o território iraquiano e quase 9 anos de combates

Denise Chrispim Marin, enviada especial a El Paso, EUA,

17 de dezembro de 2011 | 21h59

EL PASO, EUA - Na semana em que o presidente Barack Obama compareceu a várias solenidades que marcaram o fim simbólico da guerra no Iraque, boa parte do contingente americano desembarcou na base de Forte Bliss, em El Paso, no Texas, para um reencontro emocionado com as famílias após um ano no front iraquiano.

 

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"Nunca nos disseram quanto tempo ficaríamos no Iraque, mas calculávamos um ano, pelo menos. Fiquei sabendo da retirada pelos jornais", afirmou o tenente Rolando Mancha, de 37 anos, enquanto esperava as instruções para se reencontrar com a mulher, Robin, e os filhos Sofia, de 2 anos, e Samuel, de 1 ano. "Meu filho acha que o pai é um laptop", disse Robin ao Estado. Com 12 anos de vida militar, Mancha tornou-se mais um veterano convencido de ter feito "algo bom para o povo do Iraque". "Não foi tranquilo para nós. Mas nada para o qual não estivéssemos preparados", afirmou.

 

Com três sonoros golpes em uma porta, os 300 militares da 1.ª Divisão de Infantaria do Exército dos EUA – famosa por ter sido a primeira tropa americana a combater na 2.ª Guerra – pediram permissão para entrar no principal refeitório do Forte Bliss. Marcharam entre jatos de fumaça de gelo seco, música, gritos e aplausos de seus parentes até se dispersarem entre os inúmeros abraços.

 

A retirada dos militares dos EUA do Iraque, que será concluída até o dia 31, termina com quase nove anos de um conflito que tem razões e custos ainda questionáveis. Ali, morreram 4.484 militares americanos e 318 de países aliados. Outros 32,2 mil foram feridos em combate. Aos cofres públicos, a guerra do Iraque custou US$ 1,257 trilhão. Para os iraquianos, as perdas são ainda maiores: 115,5 mil civis morreram no conflito.

 

O refeitório do Forte Bliss foi decorado para o evento. Um pula-pula entretinha as crianças. Sanduíches, salgados e pipoca eram oferecidos por voluntários. Entre as mesas enfileiradas, a cabeleireira Courtney González, seus avós e seu filho de 1 ano esperavam o sargento Juan, de 26 anos, em sua terceira missão no Iraque. A família vive em Chaparral, no Novo México, e espera vê-lo, dessa vez, deixar o Exército. "A decisão será dele", disse o avô de Courtney, Ron Biaman, militar da reserva.

 

Odisseias

 

Os Faapouli viajaram de Samoa, na Polinésia, para receber o emocionado primeiro-sargento Elgie, pela terceira vez em missão no Iraque. Com trajes típicos, sua mãe deu as boas-vindas ao filho, oferecendo-lhe um colar de flores.

 

A dona de casa Melissa e o filho Adan, de 16 meses, viajaram de carro por três dias, desde a Califórnia, para a chegada do tenente Newman. O carrinho de Adan trazia um cartaz com seu retrato entre botas militares. "Eu nunca soube onde ele exatamente estava", disse. "Tenho certeza de que ele vai querer ir para o Afeganistão."

 

Os 300 soldados enfrentaram uma dura jornada para alcançar o Forte Bliss. Deslocaram-se em blindados por dois dias até o Kuwait, onde tomaram um voo de 24 horas, com escala na Irlanda. Ao desembarcarem no Texas, seguiram a um galpão para devolver as armas e passar pelos procedimentos burocráticos antes de receber as instruções do tenente-coronel Timothy Farmer, responsável pela chegada dos 4 mil soldados do front iraquiano que desembarcarão no Forte Bliss até o fim do mês.

 

Restrições

 

Farmer orientou a todos que não fossem além de certos limites. Celebrar, mas sem exagerar nas bebidas alcoólicas. Não dirigir motocicletas e ter cuidado com os carros por cerca de dez dias. Nos primeiros quatro dias, todos passarão por palestras e instruções para a reintegração à sociedade e por exames médicos de rotina. Pelo menos por 90 dias, todos continuarão em Forte Bliss, até que decidam o novo destino.

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