CARLO HERMANN/AFP
CARLO HERMANN/AFP

Debandada socialista

Hollande não é antipático e as pessoas gostariam de apreciá-lo. Mas como?

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2016 | 05h00

O presidente francês, François Hollande, mal chegou da Itália, onde se encontrou com o papa Francisco, e já retornou ao país, à Ilha Ventotene, para encontrar-se com a chanceler alemã, Angela Merkel, e o premiê italiano, Matteo Renzi. A União Europeia há alguns meses vem tendo um desempenho angustiante, murchando como um indivíduo idoso.

Com a saída da Grã-Bretanha, após o Brexit, os países europeus têm de adotar medidas de salvaguarda, e com urgência absoluta. 

Para Hollande, porém, o infortúnio é menor. As viagens lhe permitem fugir de outro espetáculo doloroso: a revolta de inúmeros socialistas contra um presidente que fracassou totalmente na sua função e comanda hoje um Exército em debandada. 

O que faz um soldado quando seu comandante o conduz à derrota? Ele se revolta e às vezes muda de campo.

É o que estamos observando há algumas semanas. Um “salve-se quem puder” geral. A França escolherá um novo dirigente em sete meses. Normalmente, o presidente de saída – no caso, François Hollande – disputa um segundo mandato e todos os outros socialistas se abstêm de se candidatar. 

Hollande, até agora, sempre disse que se apresentaria. Mas sua popularidade caiu para cerca de 12%. Ou seja, se ele se candidatar será como ir ao cadafalso. E nesta hipótese sua cabeça não será a única a cair, cairá também o Partido Socialista.

Portanto, seus ex-amigos tomam precauções. E fogem dele como da peste. Além disso, alguns de seus parceiros mais brilhantes se antecipam, declarando que serão candidatos nas eleições presidenciais.

E estes desertores não são figuras insignificantes. Entre eles estão ex-ministros importantes de Hollande, como Arnaud Montebourg, ex-ministro da Economia, Cecile Duflot, ex-ministra da Habitação, e outros. Uma debandada. E à medida que seus inimigos – que se qualificam como “contestatários” do Partido Socialista – se multiplicam, o presidente parece o pobre São Sebastião crivado de flechas. 

Não devemos esquecer que Hollande não é detestado apenas pelos amigos da esquerda. Ele é monopolista. É criticado pela extrema direita, pela extrema esquerda, direita, centro. É como um jogo. Todo mundo chega perto para lhe dar um puxão de orelha.

É desalentador. Um jogo muito fácil. As pessoas têm até um certo escrúpulo para se juntar a esta matilha variada, composta de cães ferozes que brigam entre si. Além disso, Hollande não é uma pessoa antipática. Não tem a arrogância de Nicolás Sarkozy. As pessoas gostariam de apreciá-lo. Mas como?

Ele é um homem inteligente, muito inteligente. Curiosamente, tem uma coisa que não sabe fazer: dirigir um país. Mas não é divertido atacá-lo, pois ele nunca sabe como responder. Com Sarkozy era mais interessante: quando alguém lhe dirigia uma palavra mais agressiva, com certeza ele revidava com duas – ferozes, violentas e bem encaixadas.

Mas talvez nos enganemos. A passividade de Hollande, a calma, uma quase inércia, com que enfrenta as dificuldades, os insultos, o desprezo, as traições, os golpes baixos, as flechas envenenadas vindas de todos os lados, talvez provem uma extraordinária força moral e intelectual. 

E, depois de tudo, desse exercício de tiro prolongando por alguns meses sem que ele se enerve, pode ser que uma parte daqueles que hoje o atacam volte a apoiá-lo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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