Debate argentino tem tom agressivo

Atrás em pesquisas, governista ataca plano econômico de rival e se afasta de Cristina

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2015 | 02h00

O debate presidencial entre o governista Daniel Scioli e o conservador Mauricio Macri, a uma semana de um segundo turno inédito na Argentina, teve ontem uma dose de agressividade maior do que a prevista. Esperava-se que o candidato kirchnerista partisse para o ataque, uma vez que aparece atrás nas pesquisas. A maior surpresa foi a reação do opositor, que usou ironia para atacar o rival e o chamou de mentiroso.

Logo em sua primeira intervenção, Macri disse ter aprendido muito no debate do primeiro turno, do qual Scioli não participou. O governista alegou que não havia uma lei que regulasse o encontro e suas ideias eram conhecidas por seus oito anos como governador da Província de Buenos Aires. Ele aparecia em vantagem nas pesquisas e com possibilidade de ganhar em primeiro turno.

O primeiro tema de ontem, a economia, permeou todo o encontro. Scioli insistiu em questionar quem pagaria o custo de uma desvalorização do peso. Macri quer remover no primeiro dia de governo o controle sobre o câmbio, vigente desde 2011. "Suas ideias, decisões e propostas são um perigo para o conjunto da sociedade. Quem vai pagar pelo ajuste por deixar o câmbio livre?", perguntou Scioli.

Macri rebateu questionando a tática da campanha governista, que a seu juízo usa a atemorização do eleitor como ferramenta. "Nenhum eleitor tem medo. Os que têm medo são vocês, que abusaram do poder. Têm medo de perder os privilégios", afirmou, acrescentando que o adversário parecia um apresentador de um programa ultrakirchnerista. Macri chamou o rival de conservador, mentiroso e cínico. "Nenhum governo desvalorizou (o peso) mais do que o de Cristina Kirchner", respondeu.

Scioli surpreendeu ao se desvincular do governo da presidente, algo que não havia feito claramente durante a campanha. Ele precisa buscar o voto do eleitorado de centro e dos que votaram no primeiro turno no ex-kirchnerista Sergio Massa, que obteve 5,2 milhões de votos. "Não perca seu tempo debatendo sobre um governo que termina no dia 10 de dezembro", afirmou o governista.

Macri indagou se Scioli concordava com o dado kirchnerista de que a pobreza é de 5% no país, menor que na Alemanha. Foi ignorado. Macri não explicou até o fim do debate como liberaria o controle sobre o dólar sem causar perda no poder de compra. As provocações tiveram um tom mais ameno no bloco seguinte, sobre educação. Quando chegou o momento de falar sobre segurança, Macri acusou Scioli de ter dito que havia terminado com o tráfico na Província de Buenos Aires.

"Se vocês não conseguiram resolver o problema dos flanelinhas, vão resolver o do narcotráfico?", respondeu Scioli, referindo-se à administração de Macri, prefeito de Buenos Aires. O debate terminou com um bloco sobre democracia, em que Scioli voltou a se afastar do legado kirchnerista, considerado autoritário pela oposição.

Na votação do dia 25, o governista obteve 37%, ante 34,1% de Macri. O resultado apertado inverteu a expectativa de vitória. Pesquisas no segundo turno apontam uma vantagem para Macri de 3 a 11 pontos. "Suas ideias, decisões e propostas são um perigo para Daniel Scioli.

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