Debate pela metade

Seca em São Paulo exemplifica como a discussão de temas das eleições dos Estados Unidos foi pobre

THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

06 Novembro 2014 | 02h01

Os EUA acabam de ter uma eleição de meio de mandato absurda. Nunca tanto dinheiro foi gasto para se pensar tão pouco sobre o futuro em transformação.

O que o país teria discutido se tivesse tido uma eleição séria? Que tal o maior desafio que os americanos enfrentam hoje: a resistência de seus trabalhadores, meio ambiente e instituições.

Por que esse é o maior desafio? Porque "o mundo é rápido". As três maiores forças do planeta - o mercado, a natureza e a Lei de Moore - estão crescendo com grande rapidez, ao mesmo tempo. O mercado, isto é, a globalização, está aumentando como nunca a interdependência das economias, tornando nossos trabalhadores, investidores e mercados mais interligados e expostos a tendências globais, sem muros para protegê-los.

A Lei de Moore, teoria segundo a qual a velocidade e o poder de microprocessadores dobrará a cada dois anos, como afirmam Andrew McAfee e Erik Brynjolfsson em seu livro, The Second Machine Age (A Segunda Era das Máquinas, em tradução livre do inglês), está aumentando tão inexoravelmente o poder de softwares, computadores e robôs que eles agora estão substituindo muito mais empregos tradicionais em fábricas e escritórios, enquanto criam novos - que requerem um grau maior de especialização.

E o rápido crescimento do nível de carbono em nossa atmosfera e a degradação ambiental e o desflorestamento em razão do crescimento populacional na Terra - o único lar que temos - estão desestabilizando mais rapidamente os ecossistemas da natureza.

Em suma, estamos no meio de três "mudanças climáticas" ao mesmo tempo: uma digital, uma ecológica e uma geoeconômica. É por isso que Estados fortes estão sendo pressionados, os fracos estão explodindo e os americanos estão se sentindo ansiosos por ninguém ter uma solução rápida para sua ansiedade. E eles estão certos. A única solução envolve coisas complexas e rígidas que só podem ser construídas por todos ao longo do tempo: infraestrutura resistente, sistema de saúde financeiramente acessível, mais startups e oportunidades de aprendizado para novos empregos, políticas de imigração que atraiam talentos, ecossistemas sustentáveis, dívida manejável e instituições governantes adaptadas à nova velocidade.

Vocês diriam que isso é apenas teoria? Mesmo? Observem a situação em um país: a Mãe-Natureza no Brasil.

Em 24 de outubro, a Reuters noticiou o seguinte sobre São Paulo: "A maior e mais rica cidade da América do Sul pode ficar sem água em meados de novembro se não chover logo. São Paulo, uma megacidade brasileira de 20 milhões de habitantes, está sofrendo a pior seca em pelo menos 80 anos, com os principais reservatórios que abastecem a cidade esvaziados após um ano particularmente seco".

O quê? São Paulo está ficando sem água? Isso mesmo. José Maria Cardoso da Silva, um brasileiro e consultor da Conservação Internacional, explica: a seca atingiu uma paisagem que foi despida de 80% da floresta natural ao longo da bacia hidrográfica da Serra da Cantareira, que alimenta seis reservatórios artificiais que suprem São Paulo. A Cantareira abastece quase metade da água de São Paulo. As florestas e pântanos foram substituídos por cultivos agrícolas, pastagens e plantações de eucaliptos. De modo que, hoje, as tubulações e reservatórios que armazenam a água ainda estão inteiros, mas a infraestrutura natural de florestas e bacia hidrográfica foi terrivelmente degradada. A seca expôs isso tudo.

"As florestas naturais agem como esponjas gigantes sugando chuva e a liberando gradualmente em correntezas", disse. "Elas também protegem os cursos d'água e conservam a qualidade da água ao reduzir sedimentos e filtrar poluentes. A perda de floresta na Cantareira aumentou a erosão, causou a diminuição da qualidade da água e mudou fluxos de água sazonais, reduzindo a capacidade de regeneração do sistema inteiro a eventos climáticos extremos." O sistema da Cantareira baixou a menos de 12% da sua capacidade.

Infelizmente, o desflorestamento aumentou no governo da presidente recém-reeleita do Brasil, Dilma Rousseff, mas isso mal se colocou como problema na eleição brasileira. A Reuters, porém, citou Antonio Nobre, um importante cientista do clima no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) do Brasil, argumentando que "o aquecimento global e o desflorestamento da Amazônia estão alterando o clima na região ao reduzir drasticamente a liberação de bilhões de litros de água por árvores da floresta tropical. "A umidade que vem da Amazônia na forma de nuvens de vapor - o que chamamos de 'rios voadores' - caiu dramaticamente, contribuindo para essa situação devastadora que estamos vivendo hoje", disse Nobre.

Paul Gilding, o ambientalista australiano e autor de A Grande Ruptura, enviou um e-mail do Brasil para dizer que a falta de uma resposta brasileira séria "reforça que os EUA não vão responder às grandes questões globais até que elas atinjam a economia". "É difícil imaginar um exemplo mais forte do que uma cidade de 20 milhões de habitantes ficando sem água. Mas, apesar da ameaça clara, a principal resposta é 'esperamos que chova'. Por que essa negação? Porque as implicações da aceitação são muito significativas e nós sabemos em nosso íntimo que não há volta atrás quando se chega à negação. Isso exigiria que o País enfrentasse a urgência de reverter e não apenas desacelerar o desflorestamento", além da "necessidade de preparar-se para os riscos que a mudança climática apresenta".

Quando mudanças em mercado, natureza e Lei de Moore se aceleram dessa maneira, multiplicam-se crises e oportunidades. Um dia, os americanos terão uma eleição sobre como abrandar, explorar e adaptar-se a elas - uma eleição para tornar os EUA e os americanos mais resistentes. Um dia. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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