Mario Tama/Getty Images/AFP
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Genocídio armênio: qual o impacto do reconhecimento pelo presidente dos EUA?

Em depoimentos ao 'Estadão', o embaixador da Armênia diz que declaração de Biden inicia nova era nas relações internacionais e o da Turquia afirma que ela distorce os fatos históricos

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2021 | 12h00

Para o embaixador da Armênia no Brasil, Arman Akopian, a declaração do presidente dos EUA, Joe Biden, no sábado, reconhecendo o genocídio armênio é histórica e marca o início de uma nova era nas relações internacionais. O embaixador da Turquia, Murat Yavuz Ates, por sua vez, disse que ela distorce os fatos históricos e, na sua opinião, foi tomada "sob pressão de círculos armênios radicais e de grupos anti-Turquia".  

 

Arman Akopian

"Armênia saúda a declaração do presidente Joe Biden pela qual ele define claramente as atrocidades em massa cometidas contra o povo armênio no início do século 20 como genocídio. Queremos acreditar que esta declaração histórica marca o início de uma nova era nas relações internacionais - uma era em que os valores humanos e a justiça histórica têm precedência sobre as estreitas considerações políticas do momento.

Esta declaração veio como uma consequência lógica do reconhecimento do Genocídio Armênio por ambas as casas do Congresso americano em 2019 e por todos os Estados do país antes disso. É também uma manifestação da forte integridade pessoal do presidente Biden e seu compromisso com os princípios da moralidade, decência e justiça.

Durante os trágicos dias do genocídio, o governo e a sociedade civil dos Estados Unidos levantaram sua voz em defesa da nação armênia. O embaixador dos Estados Unidos em Constantinopla (atual Istambul), Henry Morgentau, foi o primeiro a descrever os terrores do Genocídio em seus relatórios oficiais. A mensagem do presidente dos Estados Unidos dá continuidade a essa forte tradição americana de defender a verdade e a justiça. Agradecemos por ele respeitar a promessa que fez durante sua campanha eleitoral.

Sou neto de uma sobrevivente do genocídio. Minha avó, nativa da cidade de Archesh, às margens do lago Van, testemunhou o massacre de seus pais e cinco irmãos e irmãs bebês pela força policial otomana. Pelo ato de misericórdia dos vizinhos curdos de sua família, ela sobreviveu e acabou em um dos muitos orfanatos criados na Armênia e em todo o Oriente Médio por uma organização humanitária americana, Near East Relief, que deu abrigo, nutriu e trouxe de volta à vida milhares de órfãos armênios do genocídio. Por causa da minha história familiar, as palavras do presidente Biden deixaram um impacto emocional muito forte em mim.

O reconhecimento e a condenação dos genocídios é uma questão universal da humanidade. Esta declaração faz uma contribuição significativa para o reconhecimento global do Genocídio Armênio e a prevenção de genocídios.

As palavras do presidente Biden sobre a necessidade de prevenir tais crimes contra a humanidade no futuro nos lembram das palavras de Rafael Lemkin, o criador do termo 'genocídio' e autor da Convenção das Nações Unidas para a Prevenção do Crime de Genocídio. Ao apresentar a Convenção no alto pódio das Nações Unidas, ele disse que a humanidade tem de evitar que volte a acontecer o que aconteceu aos armênios durante a 1ª Guerra e aos judeus durante a 2ª Guerra.

No momento, não existem contatos oficiais de qualquer tipo entre os dois países (Armênia e Turquia). Turquia se recusa a estabelecer relações diplomáticas com a Armênia, bloqueia a fronteira comum e tenta aplicar medidas de coerção econômica e político-militar.

Com relação ao Brasil, os primeiros passos já foram dados (sobre o reconhecimento do genocídio). Em 2015, o Senado Federal aprovou o voto de solidariedade ao povo armênio por ocasião do centenário do Genocídio Armênio. O requerimento foi feito pelos senadores Aloysio Nunes Ferreira, que posteriormente assumiu o cargo de ministro das Relações Exteriores e fez uma visita oficial à Armênia, e José Serra. Espero que o processo de reconhecimento do Genocídio Armênio pelos poderes Legislativo e Executivo do Brasil também chegue à sua conclusão lógica em breve."

 

Murat Yavuz Ates

“Rejeitamos a declaração do presidente dos EUA sobre os acontecimentos de 1915 feita sob pressão de círculos armênios radicais e grupos anti-Turquia em 24 de abril. Os anos finais do Império Otomano foram um período trágico para todas as pessoas que o compunham. Turcos, armênios e muitos outros sofreram imensamente. Esse período precisa ser compreendido em sua totalidade.

A referida declaração não tem base científica e jurídica, nem é sustentada por qualquer evidência. Do ponto de vista legal, o genocídio é um crime claramente definido no direito internacional. Não é uma palavra genérica a ser usada para descrever alguma atrocidade grave. Para que qualquer caso seja qualificado como genocídio, a existência de condições específicas estipuladas na Convenção do Genocídio de 1948 deve ser provada inequivocamente com evidências diretas. Definir os acontecimentos de 1915 com base em preconceitos e opiniões é simplesmente desconsiderar a lei.

Apenas um tribunal internacional competente poderia fazer uma avaliação do genocídio. Como o genocídio é uma alegação séria, o dono dessa alegação deve provar sua existência com evidências concretas especificamente a respeito da presença de uma intenção. Como no caso do Holocausto e dos genocídios em Ruanda e Srebrenica, apenas um tribunal internacional com experiência poderia avaliar a existência desse crime.

Além disso, não há consenso para descrever os eventos de 1915. A questão é motivo de debate. Junto com estudiosos que defendem as reivindicações armênias, muitos outros não concordam com a tese do genocídio. O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem confirmou claramente a natureza controversa dos acontecimentos de 1915. Privilegiar as opiniões armênias, mesmo quando reflete atitudes bem intencionadas para mostrar solidariedade para com um grupo que tem um passado doloroso, não faz justiça às queixas vividas por tantos. A compaixão se torna problemática se for seletiva.

A natureza dos eventos de 1915 não muda de acordo com os motivos políticos atuais dos políticos ou considerações políticas domésticas. Tal atitude serve apenas a uma distorção vulgar da história.

Nesse contexto, deixe-me abordar brevemente o pano de fundo dos eventos de 1915. A partir da segunda metade do século 19, o apoio dado por algumas organizações armênias influentes às políticas da Rússia czarista destinadas a enfraquecer e dividir o Império Otomano foi considerado uma grande preocupação de segurança. Durante a 1ª Guerra, grupos radicais armênios não hesitaram em unir forças com o Exército russo invasor para criar uma Armênia etnicamente homogênea.

Em resposta, em 1915, o governo otomano decidiu que a população armênia residente na zona de guerra ou nas áreas estratégicas próximas deveria ser realocada para as províncias otomanas do sul, longe das rotas de abastecimento e linhas de transporte do Exército russo em avanço. Embora o governo otomano tivesse planejado a proteção e nutrição dos armênios deslocados, seu sofrimento não poderia ser evitado nas circunstâncias da época. Condições de guerra exacerbadas por conflitos internos, grupos locais em busca de retaliação, banditismo, fome, epidemias, tudo combinado para produzir uma tragédia dolorosa que estava além de qualquer contingência esperada.

Vale a pena mencionar que claramente não havia intenção genocida. Centenas de evidências de arquivo mostram que o governo otomano emitiu numerosos regulamentos para a segurança da realocação, 67 oficiais otomanos foram executados devido a seus atos ou omissões contrários aos regulamentos e armênios que viviam em Istambul, Izmir e Aleppo foram autorizados a ficar.

Em 2005, a Turquia propôs o estabelecimento de uma Comissão Conjunta de História composta por historiadores turcos e armênios, e outros especialistas internacionais, para estudar os eventos de 1915 nos arquivos da Turquia, Armênia e países terceiros, para alcançar uma memória justa à luz da fatos desse período. Embora a Armênia nunca tenha respondido a esta proposta, ela ainda está sobre a mesa.

Turcos e armênios deveriam trabalhar para reconstruir sua amizade histórica, sem esquecer os períodos difíceis de seu passado comum. No entanto, neste esforço, todos os lados devem ser honestos e ter a mente aberta. Países terceiros podem ajudar nisso, apoiando o processo de normalização entre a Turquia e a Armênia e resistindo àqueles que desejam que sua versão da história seja adotada como uma verdade incontestável. A declaração do presidente dos EUA, que distorce os fatos históricos, jamais será aceita na consciência do povo imparcial.”

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