EUGENE GARCIA | EFE
EUGENE GARCIA | EFE

‘Debate racial era inaceitável, mas Trump abriu a caixa de Pandora’

Pesquisador de grupos de ódio diz que ações contra negros, latinos e outras minorias pioraram após eleição de Obama

Claudia Trevisan CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2016 | 16h51

Sete anos depois da eleição do primeiro presidente negro de sua história, os Estados Unidos vivem uma polarização racial crescente, agravada pela emergência do fenômeno Donald Trump no ano passado. Um dos sintomas desse movimento foi o aumento no número de grupos de ódio existentes no país, depois de uma pequena redução no período de 2011 a 2014.

A avaliação é de Mark Potok, um dos mais respeitados especialistas dos EUA na atuação de grupos extremistas e responsável pelos levantamentos do Southern Poverty Law Center, entidade que monitora a ação dessas organizações. “Trump abriu um espaço político para discussão de coisas como a ideia de que a América deve ser branca. Esse tipo de discussão não era aceitável na política tradicional e Donald Trump abriu a caixa de Pandora”, disse Potok ao Estado.

Em sua opinião, tudo indica que a situação ficará ainda pior neste ano. Além da retórica do candidato republicano à presidência, a polarização deve ser agravada pela reação a atentados como os de Nice e Orlando, há pouco mais de um mês. “Cada vez que radicais islâmicos realizam um ataque terrível o ódio contra todos os muçulmanos cresce.” A seguir, os principais trechos da entrevista.

Quais as razões para o aumento no número de grupos de ódio em 2015, depois de uma queda em 2014?

A queda não anos anteriores não foi significativa. A tendência nos últimos 15 anos tem sido de expansão. Os grupos de ódio e outras organizações extremistas cresceram de maneira significativa desde a eleição de Barack Obama, em 2008. Foi quando começamos a ver uma grande expansão nos grupos antigoverno, não tanto nos de ódio. Isso está relacionado com a eleição de um homem negro para a Casa Branca e o que ele representa: a mudança demográfica dos EUA.

Então é uma reação à possibilidade de os brancos se tornarem minoria?

Os brancos serão menos de 50% da população por volta de 2043. Em 2008 e 2009, também houve uma recessão severa e há grandes mudanças culturais no país, com o aumento de comunidades imigrantes e questões como casamento entre pessoas do mesmo sexo. A combinação desses elementos fez com que muitos brancos nos EUA sentissem que esse não é o país no qual cresceram, que o seu país foi roubado. Nós vemos isso de maneira muito clara no fenômeno Trump, cujos seguidores são brancos de baixa classe média que acreditam que o país não é mais o país onde cresceram. Vemos cada vez mais pessoas como Dylan Roof, responsável pelo massacre em Charleston, na Carolina do Sul, em junho do ano passado. Ele não era associado a nenhum grupo e foi totalmente radicalizado por coisas de grupos de ódio que leu na internet. Era um caso clássico de lobo solitário.

O fenômeno Trump contribuiu para aumento de grupos de ódio no ano passado?

Sem dúvida. Trump abriu um espaço político para discussão de coisas como a ideia de que a América deve ser branca. Esse tipo de discussão não era aceitável na política tradicional e Donald Trump abriu a caixa de Pandora. Com Trump, pessoas públicas passaram a dizer coisas incrivelmente racistas no debate político. Nós vemos isso cada vez mais. Ontem (quinta-feira), Newt Gingrich (republicano ex-presidente da Câmara dos Deputados) disse que devemos interrogar cada muçulmano nos EUA para descobrir se eles acreditam na sharia (lei islâmica) e expulsar aqueles que acreditam. Isso contraria de maneira absoluta princípios americanos básicos.

E quais são os alvos dos grupos de ódio?

Vemos ódio em todas as direções, contra muçulmanos, estrangeiros, latinos, mexicanos, negros, gays, transgêneros.

Vocês também registraram um aumento de grupos separatistas negros no ano passado?

Sim e eles são muito diferentes dos grupos de direitos civis negros. Eles são violentamente antibrancos, antijudeus, antigays e se beneficiaram de toda a atenção dada recentemente à violência policial contra negros. Houve expansão dos movimentos de direitos civis, como o Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), mas alguns grupos extremistas também cresceram.

Há uma polarização racial crescente nos EUA?

Não há nenhum dúvida de que houve um aumento da polarização racial. E isso não é só minha opinião, é o que mostram as pesquisas. Os brancos se tornaram mais antinegros. Negros, brancos e outras etnias acreditam que as relações raciais estão piores hoje do que estavam antes da eleição de Obama. É chocante, mas sete anos depois de os EUA elegerem seu primeiro presidente negro, as relações raciais estão piores, não melhores.

Qual o impacto de eventos como os da semana passada, quando dois negros foram mortos por policiais brancos e um negro matou cinco policiais brancos?

Foi uma semana terrível. O assassinato de policiais em Dallas representou um retrocesso para os movimentos de direitos civis. Agora, escutamos políticos e comentaristas republicanos dizerem que o Black Lives Matter é um grupo de ódio que defende a morte de policiais. Isso não é verdade, mas a ideia está se espalhando rapidamente.

Há diferenças entre grupos que surgiram no ano passado e os anteriores?

Há novas questões. Em anos recentes, muitos dos grupos se tornaram estridentes em questões relacionadas ao uso da terra pelo governo. Em Estados como Oregon e Utah, eles questionam se o governo federal pode ter terras públicas. Mas, fundamentalmente, é o mesmo tipo de grupos. A principal mudança é que eles se tornaram mais ousados, graças quase exclusivamente a Trump. Ele legitimou esses grupos.

Qual o impacto de ataques como os de Nice e em Orlando?

As coisas ficarão piores, não há dúvida. Sempre que radicais islâmicos realizam um ataque terrível, o ódio contra todos os muçulmanos cresce. Há uma clara conexão entre o aumento dos crimes de ódio contra muçulmanos e atrocidades islâmicas como a matança em Nice.

Com qual frequência a retórica de ódio desses grupos se transforma em ação real?

Estudo que fizemos mostrou que houve em média um ataque terrorista a cada 36 dias nos EUA nos primeiros seis anos do governo Obama. A maioria foi realizada por supremacistas brancos. Outros foram cometidos por radicais contrários ao governo e uma minoria por islâmicos que vivem nos EUA.

O sr. espera outro crescimento dos grupos de ódio neste ano?

O crescimento deve continuar, porque as coisas estão ficando muito ruins, tanto em razão do fenômeno Trump quanto por ataques como os de Orlando e de Nice.

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