Debate revelou 4 candidatos

Dois postulantes ao governo dos EUA assumiram outra identidade no primeiro debate, algo bom para Romney

DAN BALZ, THE WASHINGTON POST, É COLUNISTA, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2012 | 03h05

O debate presidencial de quarta-feira mostrou que na realidade há quatro candidatos: os dois homens que ocuparam o palco por 90 minutos e os dois rivais que os americanos veem há meses em campanha e na propaganda pela TV. Sem comparação! Comecemos pelo presidente Obama, que talvez tenha perdido em parte o debate, como já aconteceu com todos os titulares nos últimos tempos.

Outros presidentes tropeçaram no primeiro debate da campanha para a reeleição. Lembro de Ronald Reagan, em 1984, e George W. Bush, em 2004. Ambos tiveram momentos ruins que lhes custaram o resultado do debate.

Obama não perdeu porque teve alguns momentos infelizes. O concorrente, Mitt Romney, foi quem deu o tom e o ritmo da noite, às vezes comportando-se como candidato e moderador. Obama ficou para trás nos primeiros minutos e na realidade nunca encontrou seu verdadeiro equilíbrio. Não demonstrou energia em termos estilísticos e clareza em termos substantivos. Parecia estar numa coletiva de imprensa; por vezes mostrou-se discursivo e frequentemente deu respostas mais longas do que o necessário.

Considerando sua vulnerabilidade em razão da situação da economia, Obama e seus assessores procuraram definir Romney antes que Romney se definisse. A coisa parecia funcionar. A estratégia de Obama na campanha consistiu em atacar Romney por sua atuação na Bain Capital, por não divulgar sua declaração de impostos, e por guardar dinheiro numa conta num banco suíço e nas Ilhas Cayman.

Obama não mencionou nada disso na noite de quarta-feira. Foi como se ele tivesse deixado seus ataques mais contundentes num folheto nos bastidores. Inexplicavelmente, nem uma vez se referiu ao comentário de Romney sobre os "47%" - quando o republicano afirmou que cerca da metade dos americanos não paga imposto de renda federal, de que se considera vítima, que depende do governo e não está disposta a assumir o controle da própria vida.

Se não valia a pena falar de nenhum desses pontos, qual o motivo para os assessores de campanha de Obama passarem os últimos quatro meses e gastarem centenas de milhões de dólares tentando convencer o público disso? Talvez os seus assessores acreditem que causaram todo o prejuízo necessário com esses ataques. Há evidências de que não têm mais o que dizer. Talvez o presidente não quisesse projetar uma imagem conflitante com o candidato que, há quatro anos, cativou o país com uma mensagem de esperança e de inspiração. Seja como for, seu desempenho deixou os democratas se perguntando o que terá acontecido. Como disse um estrategista democrata numa mensagem por e-mail ontem pela manhã: "Eca!!".

Tad Devine, outro estrategista democrata, que foi um dos principais assessores de Kerry em 2004, enviou um e-mail com a seguinte avaliação da aparente estratégia do presidente na noite de quarta-feira: "Presumo que sua estratégia era não se envolver ou não assumir um tom demasiado pessoal. (Obama) se manteve como em muitos outros debates, mas, considerando que a época atual é muito diferente, uma atitude fria e calma não indica tanta força quanto outrora".

Romney também parecia desconectado do candidato que os americanos viram no último ano. Na campanha, ele é desajeitado. É brega e inseguro. Seu discurso não entusiasma nem transmite sua mensagem com real vigor. Somente nos debates ele brilhou nas primárias. Estava bem informado e parecia feliz por poder mostrar isso cara a cara com o presidente.

Romney fez o que não foi totalmente capaz de fazer na sua convenção, ou seja, concentrar o debate tanto quanto possível no desempenho do presidente, dando ao mesmo tempo aos telespectadores uma ideia melhor do que fará se for eleito para desemperrar a economia.

Mas quem era o Romney que os americanos viram na noite de quarta-feira? Não foi o candidato que se inclinou para a direita para conseguir a indicação republicana. Não foi o indicado de um Partido Republicano que é mais conservador do que na época em que o ícone conservador Reagan era presidente. Foi o moderado Mitt de Massachusetts, o artista capaz de uma reviravolta com um plano para sanar a economia.

Nas horas depois do debate, os assessores de Obama insistiram que atacarão Romney por aquilo que disse e o que não disse. Obama não fez suas críticas de maneira pessoal. Terá mais duas oportunidades para fazê-lo nos próximos debates. Mas a próxima oportunidade será do vice-presidente Biden, com o republicano Paul Ryan (Wisconsin) na quinta-feira em Kentucky. É improvável que ele deixe a questão dos 47% nos bastidores.

Ambas as partes acreditam que os contrastes destacados no debate favoreceram o seu respectivo candidato. A equipe de Obama considera que Romney não agrada à opinião pública em razão da questão da assistência médica, pela sua maneira de tratar o déficit e por proteger a classe média. A equipe de Romney afirma que Obama não agrada ao público por acenar com impostos mais elevados, com mais gastos e mais regulamentações. Obama disse que o plano econômico de Romney está gotejando; Romney disse que o plano de Obama é "o gotejamento do governo".

Os republicanos exultaram com o que aconteceu na noite de quarta-feira. Eles sabiam que um mau desempenho de Romney poderia acabar com suas chances de ganhar a eleição. Agora, percebem que a disputa continua de pé. Stuart Stevens, o principal estrategista de campanha de Romney e alvo de consideráveis críticas no mês passado, parecia particularmente satisfeito ao responder às perguntas dos jornalistas depois do debate.

Stevens afirma há vários meses que o fato de Obama não assumir que o seu desempenho tem sido ruim provará que esse é o principal obstáculo à sua reeleição. Ele disse que o debate provou isso. "Não acho que (Obama) teve uma atuação particularmente ruim no debate. O seu desempenho é que é ruim".

Stevens disse que as pesquisas mostram praticamente um empate no plano nacional e observou que os candidatos opositores muitas vezes só superam o titular no final da eleição. Os assessores de Obama enfatizaram que Romney ainda tem um caminho estreito nos Estados decisivos para ganhar os 270 votos eleitorais e parece determinado a utilizar o argumento.

Os democratas mostraram-se muito comedidos com o desempenho do presidente, mas acreditam que os fundamentos ainda são favoráveis a Obama. Stan Greenberg, um democrata que faz pesquisa de opinião, disse que a vitória de Romney foi "convincente, mas não mudou nada". "Isso posto", acrescentou, "acho que o presidente terá de se mostrar muito mais entusiasmado com as mudanças que pretende introduzir, e mais ousado. Em nossas sondagens por telefone, ele conseguiu os melhores resultados no começo, quando ele apresentou as quatro coisas que quer fazer. As pessoas ainda querem saber o que os candidatos farão. Obama terá de demonstrar muito mais".

Devine disse que o efeito do debate é acabar com as esperanças dos democratas de que Obama possa ter uma vitória esmagadora em novembro, e ajudar outros democratas em outras disputas eleitorais. "Essa grande vantagem agora poderá se perder se Romney reconquistar terreno ou, pior ainda, se der a impressão de que irá ganhar", ele disse. "As pessoas querem ver um avanço e virar a página depois de 11 anos de dúvidas, e na noite de quarta-feira Romney pareceu mais o cara que poderia e conseguiria virar a página para elas".

"Romney é um debatedor de primeira e o presidente teve uma noite ruim", observou Steve Rosenthal, estrategista democrata ligado aos sindicatos. "Os debates são como lombadas -- a gente precisa reduzir a velocidade para passar sobre eles, mas depois retomar a velocidade normal. O público está igualmente dividido e essa será uma disputa acirrada até o fim. Agora, depende da próxima, esperemos que o da noite passada tenha sido um toque de despertar para todos os que estão do nosso lado, que estavam certos da vitória".

Levará alguns dias para que o impacto do debate seja absorvido pelo eleitorado. Somente então ficará claro se ou até que ponto contribuiu para mudar alguma coisa. Mas por enquanto, Romney superou em muito as expectativas, e isso tornou esse embate uma disputa diferente. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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