Debate sobre mesquita em NY domina EUA

Em pleno período de primárias eleitorais, políticos e cidadãos americanos defendem de modo apaixonado posições favoráveis e contrárias a centro

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2010 | 00h00

Nove anos após o 11 de Setembro, quando as marcas do maior atentado da história dos EUA começavam a ser definitivamente cicatrizadas e os andares de uma nova torre parecem tomar forma no Marco Zero, o projeto de construção de um centro islâmico próxima ao local onde antes estava o World Trade Center recolocou o distrito financeiro de Nova York no centro do debate político dos EUA.

A obra foi idealizada por um líder islâmico considerado moderado e contou desde o início com o apoio do prefeito de Nova York, Michael Bloomberg. O projeto prevê a construção de um centro comunitário nos moldes da Associação Cristã de Moços, com piscina, quadras, academia, auditório e uma sala de orações. O Estado visitou a região. Do prédio - velho e mal conservado - não dá para observar o Marco Zero, que fica a duas quadras de distância. É uma área decadente, com sex shops, que ainda não se recuperou dos atentados.

Os opositores, que contam com o apoio de 70% dos americanos, lançaram campanhas na TV com parentes da vítimas manifestando-se contra a obra, ainda não iniciada.

Em breve, alguns ônibus em Nova York circularão com cartazes condenando o projeto. A aliança contrária à construção é composta por políticos republicanos, a rede de TV Fox News, o Wall Street Journal e a Liga Anti-Difamação, que luta contra o antissemitismo e outras formas de racismo.

O centro islâmico é defendido por Bloomberg, democratas de Nova York, as redes de TV CNN e NBC, o jornal The New York Times, as revistas Time e Newsweek. O presidente Barack Obama afirmou no dia 13 ser a favor da liberdade religiosa e defendeu o direito de os seguidores do Islã poderem rezar e construir um centro onde quisessem. Alvo de duras críticas e equivocadamente descrito como muçulmano por 1 em cada 5 americanos (ele é cristão), o presidente acrescentou, no dia seguinte, que, apesar de sua declaração, isso não significava que ele apoiasse ou se opusesse à obra.

Ao todo, há 1,8 milhão de muçulmanos nos EUA, de acordo com o Conselho para as Relações Islâmicas e Americanas. O Instituto de Pesquisa Pew estima que sejam 2,35 milhões - pouco menos de 1% do total da população. Estes muçulmanos rezam em 1.200 mesquitas, dezenas delas em Nova York.

O problema, segundo analistas, está na acentuação do discurso contra os muçulmanos, o que levou a revista Time a publicar uma reportagem de capa questionando se os EUA são islamofóbicos. Segundo pesquisa, 28% dos americanos afirmam ser contra um muçulmano integrar a Suprema Corte. Um terço opõe-se a um muçulmano concorrendo à presidência. Para um em cada quatro americanos, os muçulmanos não são patriotas. Menos da metade diz ter uma posição favorável ao islamismo. E 62% dizem nunca ter conhecido um muçulmano americano.

Uma das mesquitas frequentadas pelos muçulmanos que vivem em Nova York está a três quarteirões do Marco Zero, próxima ao centro islâmico, no subsolo de uma espécie de cabaré, sem minarete ou qualquer outro sinal islâmico.

Ela é tão pequena que os frequentadores são aconselhados a se lavar - como é costume entre os muçulmanos - antes de ir para as orações, pois há restrição ao acesso ao banheiro. Há médicos, taxistas, funcionários da prefeitura, policiais, comerciantes e jovens que trabalham no distrito financeiro ou residem em bairros vizinhos. "Estamos aqui há muitos anos e perdemos muitos membros no 11 de Setembro. Cerca de 400 muçulmanos morreram nos ataques terroristas", disse o xeque Abdullah El-Kholy. "Naquele dia, estávamos aqui. Ajudamos nas buscas, demos comida aos voluntários."

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