Debate sobre partilha do Iraque ganha força nos EUA

A história sempre jogou contra o cenário de um Iraque unificado e ainda por cima democrático. Na verdade, o país nunca foi uma união voluntária dos seus povos. E o responsável pela obra disse mais tarde que fora um dos maiores erros de sua vida. Winston Churchill, como Secretário Colonial da Grã-Bretanha, criou o Iraque dos destroços do Império Otomano em 1921. Saddam Hussein consolidou o projeto nacional a ferro, fogo e também armas químicas. George W. Bush derrubou o regime de Saddam em 2003 e foi à luta confiante de que seria possível preservar o país. O discurso oficial em Washington ainda é de lutar por um Iraque unido e democrático, em meio à desintegração de fato do país devido à violência sectária envolvendo xiitas e sunitas, além do aprofundamento da autonomia curda ao norte. Mas em um sintoma do agravamento da situação no Iraque existe um debate cada vez mais relevante nos EUA sobre a necessidade de uma partilha do país, em parte para justificar uma saída dos americanos do atoleiro. As vozes mais proeminentes que hoje advogam uma separação do Iraque são o senador democrata Joe Biden e o presidente emérito do influente Council on Foreign Relations, Leslie Gelb. Eles atuam em dobradinha e lançaram sua proposta para que o Iraque seja dividido em três regiões autônomas (xiita, sunita e curda), cada uma responsável por suas leis domésticas e segurança interna. O governo central zelaria pela defesa das fronteiras, relações internacionais e a questão espinhosa de alocação das divisas de petróleo (carente na região sunita). Bagdá, a capital multisectária e ultraviolenta, se tornaria uma zona federal. Dúvidas O projeto ganhou mais relevância, pois Biden deverá se tornar presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado agora que os democratas venceram as eleições e também por despontar como candidato presidencial em 2008. Mas outra figura cada vez mais relevante em Washington tem sua dúvidas. James Baker, o veterano conselheiro da família Bush e peça-chave da comissão bipartidária que fará recomendações ao presidente sobre o futuro do Iraque, advertiu que uma partilha somente trará uma escalada ainda mais intensa dos conflitos sectários e "uma imensa guerra civil". E em uma entrevista ao jornal Financial Times, Lakhdar Brahimi, o ex-enviado das Nações Unidas no Iraque, foi mais longe do que Baker. Ele advertiu que com uma partilha o "caos irá se expandir por toda a região". De fato, países árabes temem que a partilha seja um precedente perigoso no Oriente Médio, que aliás tem muitas fronteiras artificiais como marca imposta por potências coloniais. A perspectiva de países vizinhos ao Iraque em relação a uma partilha é complexa. Partidos xiitas iraquianos pró-iranianos se entusiasmam com a idéia de separação, mas o regime de Teerã não vê com bons olhos o cenário de um Curdistão independente e teme que a partida a curto prazo dos americanos do Iraque gere um caos generalizado. Turquia A mesma resistência existe da parte da Turquia, mas Peter Galbraith, o ex-diplomata americano e um dos grandes mentores intelectuais da idéia da partilha, minimiza a resistência turca (que como o Irã tem uma minoria curda no país). Galbraith reconhece que o pesadelo turco é a ascensão de um Curdistão independente no Iraque. Mas agora que isto está acontecendo na prática, a reação tem sido realista, embora o discurso oficial em Ancara não soe pragmático. Esta semana, o ministro das Relações Exteriores, Abdullah Gul, condenou a idéia de partilha do Iraque, dizendo que abriria um "inacreditável novo período de trevas". O ex-diplomata americano admite que um Iraque dividido será desestabilizador para os vizinhos do país. Os países sunitas temem as conseqüências de uma partilha, mas Galbraith bate na tecla que o medo maior é de um Iraque dominado pelo Irã xiita. Neste debate sobre a partilha do Iraque há uma grande ironia. Ele ganha peso nos EUA quando acontece a reentrada em cena dos veteranos do governo do primeiro presidente Bush. Aí estão Robert Gates, indicado para ser o novo secretário de Defesa, e James Baker, atuando nos bastidores. Eles representam uma escola "realista" em política externa, em contraste às folias neoconservadores. Mas o governo do primeiro presidente Bush, cauteloso e apegado ao status quo, resistiu até onde pôde ao esfacelamento da União Soviética e da Iugoslávia. Como será no Iraque com o segundo presidente Bush, agora com a marca dos "realistas"?

Agencia Estado,

17 Novembro 2006 | 09h27

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