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Debates deste ano foram os mais vistos dos EUA

Encontros tiveram audiência maior do que a média; analistas divergem sobre impacto na escolha do voto

Vinicius Neder *, O Estado de S. Paulo

19 de outubro de 2016 | 07h00

ST. PAUL, EUA - O terceiro e último encontro entre Hillary Clinton e Donald Trump encerra nesta quarta-feira, 16, o ciclo de debates que chamou mais atenção dos americanos nos últimos anos. Segundo a comissão independente que organiza os debates, de 1988 a 2012, a audiência média variou de 30 milhões a 70 milhões de telespectadores. O primeiro debate deste ano chegou a 84 milhões e o segundo, 62 milhões.

Analistas políticos especializados em eleições duvidam do tamanho do impacto dos debates na decisão de voto, mas a campanha presidencial mais polêmica dos últimos anos parece atrair a atenção do público. 

Na corrida deste ano, Trump destacou-se por propostas polêmicas e discursos agressivos contra imigrantes, muçulmanos e mulheres – sua campanha enfrenta a maior crise após vários depoimentos de mulheres acusando Trump de assédio.

Segundo o cientista político David Schultz, professor da Universidade Hamline, no Minnesota, nos últimos 20 ou 25 anos, a campanha presidencial nos EUA passou a ser definida principalmente na TV. Trump só foi tão longe até agora por causa de sua habilidade como celebridade da indústria do entretenimento. "Ele sabe como grudar na TV", disse o especialista ao Estado, após lembrar que Trump se aproveita de um sistema já existente. "Os debates são menos sobre o que os candidatos falam e mais sobre as imagens", afirmou Schultz.

Muitos elementos fazem os debates lembrarem um evento esportivo. Os anúncios são narrados ao estilo locução de lutas de boxe; nos bastidores do debate do dia 9, em St. Louis, a aglomeração de cerca de 2 mil jornalistas (segundo a Universidade Washington, que sediou o evento) se misturou com o patrocínio ostensivo de marcas como a cerveja Budweiser. 

Desde 1988, os debates presidenciais são organizados, a cada quatro anos, pela Comissão dos Debates Presidenciais (CPD, em inglês), que não tem fins lucrativos, não recebe recursos do governo ou de partidos e se financia com doações. No site da comissão, há uma lista de patrocinadores, a cada ano eleitoral - a Budweiser, hoje controlada pela AB Inbev, consta em vários anos. No debate de St. Louis, a empresa custeou cerveja liberada e bufê de almoço para jornalistas e pessoal de apoio. Além de distribuir brindes, a ação de marketing incluiu a exibição de cavalos da raça Clydesdale, que têm sido usados nas campanhas da cervejaria desde 1933.

"De fato, a política moderna nos EUA é um pouco como vender cerveja", disse Schultz, para quem o sistema eleitoral americano pode ter ido "longe demais" na falta de regulação sobre o uso da TV.

A expectativa de que o estilo de Trump poderia ampliar o efeito dos debates sobre o eleitorado não é consensual. Segundo Alan Abramowitz, professor de ciência política da Universidade Emory, em Atlanta, Geórgia, que vem pesquisando o comportamento eleitoral dos americanos nas últimas décadas, o efeito é pequeno. Quando um candidato se sai muito melhor do que outro num dos debates, há um efeito de curto prazo nas pesquisas de opinião, mas isso não faz muita diferença na votação em si. "Os debates, no fim das contas, não têm muito impacto", disse Abramowitz. 

O sociólogo Michael Pollard, especialista em opinião pública do "think tank" Rand Corporation, concorda. Ainda assim, levanta um questionamento comum entre analistas políticos americanos, sobretudo por causa da campanha pouco usual de Trump e do sentimento contra o sistema político manifestado por muitos eleitores. "Este ano, quem sabe?", disse Pollard.

Além da mistura do entretenimento com a política, o crescimento do uso das redes sociais nas campanhas eleitorais também parece ter sido um prato cheio para Trump. O candidato republicano é um ativo usuário do Twitter, onde publica em primeira mão muitas de suas polêmicas declarações. 

Atualmente, segundo Vincent Harris, dono da agência Harris Media, pioneira na introdução de estratégias digitais nas campanhas eleitorais do Partido Republicano, os debates vão muito além do palco e da TV. "O debate está ocorrendo entre os candidatos e então há o debate entre as pessoas online. O debate online é com frequência tão duro quanto o da televisão", disse Harris.

Mesmo assim, a maioria dos analistas americanos tem avaliado que Hillary se saiu melhor nos dois debates até aqui. "Estamos agora vendo as pesquisas nacionais após os primeiros debates e parece que Hillary Clinton cresceu (nas intenções de voto)", afirmou Jim Henson, especialista em pesquisas eleitorais e professor da Universidade do Texas. O especialista ponderou, porém, que é difícil separar o que é efeito do desempenho nos debates de outras coisas.

Para Schultz, da Universidade Hamline, a vantagem de Hillary tem tudo a ver com a imagem. Mais do que o discurso, o que contou a seu favor, na visão do professor, foi a atitute de Trump, que apresentou temperamento pouco condizente com o cargo de presidente.

* O repórter do 'Estado' viajou como bolsista do World Press Institute

 

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