AP Photo/John Minchillo
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CENÁRIO: Debates republicanos: quando as falácias colidem

Os debates realizados entre os pré-candidatos republicanos à presidência superaram todas as expectativas. Mesmo os mais céticos não imaginariam que eles chegariam a um nível tão baixo, concentrados na troca de insultos pessoais

Paul Krugman* / NYT, O Estado de S. Paulo

08 de março de 2016 | 07h00

Os debates realizados entre os pré-candidatos republicanos à presidência superaram todas as expectativas. Mesmo os mais céticos não imaginariam que eles chegariam a um nível tão baixo, concentrados na troca de insultos pessoais. Mas na semana passada, nos bastidores, ocorreu um debate de verdade sobre política econômica entre Donald Trump e Mitt Romney, que vem tentando bloquear a indicação de Trump. Infelizmente ambos só falaram asneiras. Está surpreso?

O debate começou com Trump divergindo da ortodoxia do livre mercado no comércio internacional. Ataques contra os imigrantes ainda são o tema central da campanha de Trump, mas ele abriu uma segunda frente, atacando os déficits comerciais, que, afirma, são causados pela manipulação da moeda de outros países especialmente a China. Esta manipulação, diz ele, “vem roubando dos americanos bilhões de dólares em capital e milhões de empregos”.

A solução proposta por ele é criar “tarifas compensatórias” similares àquelas que normalmente são impostas quando países estrangeiros começam a subsidiar suas exportações, violando acordos comerciais.

Mitt Romney diz estar escandalizado. Em seu discurso com vistas a frear Trump, na semana passada, alertou que se Donald se tornar presidente os EUA “mergulharão numa recessão prolongada”. Por que? A única razão específica que ele deu foi que essas tarifas “vão instigar uma guerra comercial com a elevação dos preços ao consumidor, o fim dos nossos empregos na área de exportação e com empreendedores e empresas de todo o tipo fugindo do país”.

O que é bizarro, se você se lembrar da campanha de 2012. Na época, ao aceitar o endosso de Trump, Mitt Romney elogiou o empresário (que já defendia que Barack Obama não é cidadão norte-americano nato, e portanto seria inelegível para a Presidência) como uma pessoa com “extraordinária habilidade para compreender como a economia funciona”. Mas espere, tem algo melhor: na ocasião, Romney apresentou quase exatamente os mesmos argumentos oferecidos por Trump agora. Prometeu declarar a China país manipulador da moeda e atacou o presidente por não agir nesse sentido. E descartou preocupações de uma possível guerra comercial, declarando que ela já vinha ocorrendo. “É uma guerra silenciosa e eles estão vencendo”, afirmou.

Mais importante do que esta curiosa história de Romney, contudo, é o fato de que sua análise econômica é totalmente equivocada. O protecionismo pode realmente causar muito prejuízo, tornar as economias menos eficientes e reduzir o crescimento de longo prazo. Mas não provoca recessões. 

Por que não? Uma guerra comercial não reduz o nível de emprego nos setores exportadores? Sim, e também aumenta o emprego em setores ligados a importações. Na verdade uma guerra comercial global, por definição, reduziria as importações exatamente no mesmo montante que reduz as importações. Não existe nenhuma razão para supor que o efeito líquido sobre o emprego seria extremamente negativo.

Mas o protecionismo não causou a Grande Depressão? Não, ele foi resultado da Depressão e não sua causa. A propósito, se quer um exemplo de uma política que realmente tem muito a ver com a propagação da Grande Depressão, é o padrão ouro, que Ted Cruz deseja restaurar.  Portanto Romney está dizendo asneiras. E Trump também. 

Há cinco anos a queixa de Trump de que a manipulação da moeda chinesa estava custando empregos nos Estados Unidos tinha alguma legitimidade. Na verdade, economistas sérios ofereceram o mesmo argumento. Mas hoje a China está em grande dificuldade e tenta aumentar o valor da sua moeda, não rebaixar. As reservas cambiais estão mergulhando com a enorme fuga de capital, para cerca de US$ 1 trilhão no ano passado. 

E não é apenas a China. Em todo o mundo, o capital está fugindo de economias atribuladas – incluindo a área do euro que hoje contabiliza superávits comerciais maiores do que a China. Grande parte desse capital em fuga vem para os Estados Unidos, valorizando o dólar e tornando nossa indústria menos competitiva. É um problema real; os fundamentos econômicos dos Estados Unidos são sólidos, contudo corremos o risco de importar a fraqueza econômica do restante do mundo. 

Mas não é um problema que vamos resolver atacando os estrangeiros que, falsamente imaginamos, estão ganhando às nossas custas. O que podemos fazemos para combater a fraqueza econômica importada? É um grande problema, mas uma coisa é certa: em razão das pressões externas e da preocupante força do dólar, o Federal Reserve realmente tem de adiar a elevação dos juros. 

Mencionei que Trump deseja aumentar os juros? E não só isto, mas ele é um total adepto de teorias conspiratórias, declarando que Janet Yellen, presidente do Federal Reserve, vem mantendo baixos os juros para beneficiar Obama, que “pretende dentro de um ano estar jogando golfe”. 

Então, esta é a situação. A boa notícia é que um debate político de verdade ocorreu dentro do Partido Republicano na semana passada. A má notícia é que o que se discutiu foram teses econômicas que qualificamos de “lixo”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É ECONOMISTA, GANHADOR DO PRÊMIO NOBEL

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