AP Photo/Ricardo Mazalan
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Debilitadas, Forças Armadas cubanas perdem referência

Com efetivos reduzidos e equipamentos velhos, militares que passaram 49 anos sob Fidel são equação difícil de resolver

Roberto Godoy, O Estado de S. Paulo

29 de novembro de 2016 | 05h00

A ilha de Cuba tem o maior exército do Caribe e da América Central, mas a manutenção das forças, cerca de 50 mil homens e mulheres, virou uma equação complicada para a administração com pouco dinheiro de Raúl Castro. Expandido, equipado, bem treinado e preservado nos 49 anos sob o comando de Fidel, o quadro militar perdeu ao longo do tempo duas de suas razões de ser: resistir a uma invasão americana e multiplicar a guerrilha comunista. 

Sem a ameaça da intervenção dos EUA, afastada pela distensão com Washington iniciada por Barack Obama e com a perda de apelo dos movimentos revolucionários, a máquina de guerra cubana emperrou.

A deterioração é grave. O maior grupo é o do Exército, com 38 mil soldados e um arsenal de números impressionantes: 950 tanques pesados, 500 blindados, 1,7 mil canhões (mais 400 antiaéreos) e ao menos 14 diferentes tipos de mísseis terra-ar, alguns como os Sa-6 Gainful, recebidos há 40 anos. 

Os três mil integrantes da Marinha estão reduzidos a uma pequena frota – não mais de 10 navios operacionais leves, lançadores de mísseis e torpedos. O contingente da Força Aérea soma 8 mil técnicos, pessoal de apoio e pilotos. Há 33 jatos, entre os quais veteranos dos anos 50, os MiG 15 e 17, ao lado de caças de ataque ao solo MiG 23, caças Mig-21 e de cinco mais modernos MiG-29 Fulcrum. 

Todos os equipamentos foram fornecidos pela extinta União Soviética e, há menos tempo, pela Rússia. “O estoque impressiona, mas está velho e enferrujado”, disse ontem ao Estado um ex-diplomata da Embaixada do Brasil em Havana. As Forças Armadas são bem preparadas e compõem uma elite dentro do funcionalismo público. O serviço obrigatório dura dois anos. Oficiais recebem um bônus mensal que aumenta o soldo em 40%.

Em Washington, na Universidade da Defesa, e em Santa Mônica, nos escritórios da Rand Corporation – dois dos braços acadêmicos do Pentágono – há preocupação com o destino do material acumulado. Um estudo preliminar da Rand encaminhado em setembro ao Congresso americano, considera que parte do acervo “pode ser recuperado de forma a entrar no ativo mercado paralelo internacional”. Na lista dos clientes mais prováveis estão organizações radicais como o Boko Haram, da Nigéria, os rebeldes da Etiópia e da Somália ou os dissidentes da Líbia. Para uma eventual triangulação, o governo de Cuba usaria uma confiável parceira: a Coreia do Norte. 

Em 2013, um cargueiro de Pyongyang foi apreendido pelo governo do Panamá, antes de cruzar o canal. A bordo, sob 10 mil toneladas de açúcar, estavam “240 toneladas métricas de itens mecânicos diversos”. A camuflagem cobria as fuselagens de dois Mig-21, duas plataformas lançadoras de mísseis antiaéreos, nove mísseis desmontados, e mais 15 turbinas para jatos de combate. Segundo Cuba, tratava-se de “armas de defesa obsoletas enviadas à Coreia do Norte para serem modernizadas em 12 meses”. 

 

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