Década termina com negociações multilaterais em um impasse

Novo posicionamento dos países emergentes, como o Brasil, foi destaque em todos os processos negociadores

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

20 de dezembro de 2009 | 14h38

Lula e Obama discutem acordo durante a cúpula da ONU sobre mudanças climáticas em Copenhague    

 

ZURIQUE - Nem Copenhague, nem a Rodada Doha, nem a reforma no Conselho de Segurança da ONU, nem um novo acordo sobre o desarmamento. A década termina com todas as grandes negociações multilaterais em um impasse e com a diplomacia mundial se questionando como dar soluções a problemas globais e ao mesmo tempo preservar interesses nacionais.

 

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Em todos os processos negociadores, o que está em jogo é praticamente a mesma coisa: uma nova posição dos países emergentes, o reconhecimento de que a arquitetura mundial mudou e, claro, a solução de um problema global.

 

A negociação sobre o clima, que fracassou na última sexta-feira, 18, foi a última de uma série de fiascos no diálogo entre nações. Para o Wall Street Journal, o entendimento obtido na capital dinamarquesa foi uma "carta morta".

 

Na Europa e em outras partes do mundo, a preocupação não é apenas com o clima, mas com a credibilidade das negociações multilaterais e da ONU como centro de decisões. Para Alden Meyer, da entidade americana Union of Concerned Scientists, o fracasso de Copenhague mostra "a fragilidade do sistema multilateral". Na ONU, diplomatas e a cúpula da entidade estão cientes dos obstáculos. Mas a avaliação é de que não há outra solução democrática, garantindo que todos os países participem do projeto.

 

Rajendra Pachauri, presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, alertou em uma conversa com o Estado dois meses antes de Copenhague que o desafio da reunião não era apenas climático, mas o de demonstrar que países podem chegar a soluções de forma conjunta e colocar de lado interesses Nacionais.

 

Mas o clima não é o único problema. Há quase dez anos os mesmos governos negociando um acordo para reequilibrar o comércio mundial, abrindo novas oportunidades para países emergentes e reduzindo as distorções criadas pelas economias ricas. A Rodada Doha, lançada em 2001, está em um estado de paralisia. Para o ex-ministro do Comércio do Canadá e ex-presidente do Conselho Geral da OMC, Sérgio Marchi, se a Rodada não for concluída em 2010, ela deve ser definitivamente abandonada. "Não faz sentido continuar negociando algo que por dez anos já não funcionou", disse.

 

Assim como nas negociações climáticas, os países ricos querem compromissos dos emergentes em troca de um acordo.No setor de desarmamento, o processo negociador da ONU está parada há exatos dez anos. Governos não se entendem nem mesmo em relação a um agenda de trabalho, enquanto países mantêm em Genebra missões inteiras para o diálogo sobre o desarmamento. De um lado, governos sem a tecnologia nuclear querem um reequilíbrio da distribuição de poder no mundo, com a redução de arsenais. Já aqueles que tem a bomba atômica resistem em abrir mão de seu poder, pelo menos enquanto não haja um entendimento global. Mesmo Obama, que propôs um mundo sem armas atômicas em maio, deixou claro que os americanos não começaria a reduzir seus arsenais enquanto outros não fizessem o mesmo, e de forma convincente.

 

Na ONU, outro impasse de mais de uma década é a reforma do Conselho de Segurança, instância máxima da entidade. Para todos está claro que o atual modelo de cinco países com o poder de veto (Rússia, China, Estados Unidos, França e Reino Unido) não atende mais às necessidades globais. Mas ninguém se entende sobre como deva ser uma reforma. Brasil, Índia, Japão e Alemanha são alguns dos candidatos. Mas enfrentam resistências tão grandes como os apoios que existem para a reforma da entidade.

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