Decepção causa guinada à direita, diz historiador

Segundo Tom Segev, a maioria dos israelenses é contra a criação do Estado palestino e está desapontada com os políticos e o processo de paz

, O Estadao de S.Paulo

10 de fevereiro de 2009 | 00h00

Israel vive um momento de irracionalidade em sua história, com os partidos guinando para a direita e a possibilidade de um acordo de paz com os palestinos cada vez mais distante. Esta é a avaliação do historiador e escritor israelense Tom Segev, um dos autores mais importantes de Israel, que faz parte da linha dos revisionistas da história do Estado judaico."A maior parte dos israelenses não apoia o retorno para as fronteiras antes de 1967 e a divisão de Jerusalém", afirmou Segev ao Estado ao responder por que Israel não concorda em negociar a proposta de paz oferecida pela Liga Árabe, que prevê a retirada israelenses dos territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias - o que inclui a Cisjordânia, Faixa de Gaza, Colinas do Golan e Jerusalém Oriental.Até os anos 90, segundo Segev, "apenas a extrema esquerda de Israel defendia a criação de um Estado palestino" e voltou a ser assim atualmente. Para o historiador, o governo mantém um discurso de dois Estados apenas para vender para o mundo a "ficção" de que busca uma solução.Um dos grandes dilemas de Israel é sobre como ser uma democracia, mantendo o caráter judaico e controlando todo o território, incluindo a Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Analistas políticos afirmam que, se quiser manter a área do Rio Jordão ao Mediterrâneo, Israel teria de abdicar da maioria judaica ou da democracia. "O problema é que este país é louco. Não pensa racionalmente", disse o historiador, acrescentando que muitas vezes os israelenses nem levam em conta essa questão. "Trata-se de uma visão péssima para Israel no futuro e apenas favorece os colonos", afirmou o autor de One Palestine Complete (Uma Palestina Completa), sobre a história de palestinos e israelenses, e 1967, que relata a Guerra dos Seis Dias.Defensor da criação de um Estado palestino, Segev diz que a ideologia que justifica os assentamentos na Cisjordânia continua muito forte em Israel. Já no caso das Colinas do Golan, a posição dos israelenses não é tão dura. "Apesar de ele ter negado, Binyamin Netanyahu, se eleito, certamente concordará em negociar com a Síria a devolução do território. É um assunto fácil de resolver. Não é como no caso da Cisjordânia, que envolve religião, história e identidade. No Golan, a questão é mais estratégica. Acredito que Bibi (apelido de Netanyahu) será para a Síria o equivalente do que Menachem Begin foi para o Egito", afirmou o historiador, referindo-se ao premiê israelense que assinou o acordo de paz com os egípcios para a devolução do Sinai.Questionado se Israel exigiria o rompimento dos sírios com os grupos Hezbollah e Hamas, Segev afirmou que isso não seria o mais importante. Os israelenses pretendem apenas garantir a segurança e acesso à água. Na visão do historiador, isso é possível se a retirada for gradual e negociada. Para Segev, a Cisjordânia é uma região muito mais complicada porque envolve o lado emocional, não apenas o racional. Palestinos e israelenses identificam-se com o território. "Os dois lados terão de ceder em algum momento, pois é impossível satisfazer a ambos", afirmou. "O certo é que hoje os palestinos ainda não têm um Estado e isso não é justo", afirmou o escritor.A guinada para a direita da política israelense, com o fortalecimento do candidato de ultradireita Avigdor Lieberman, deve-se à decepção dos israelenses com a política e o processo de paz. Segundo o historiador, esse movimento para o conservadorismo pode ser alterado no futuro. Mas o momento não foi bom para Israel, pois o pêndulo foi para o lado oposto ao dos Estados Unidos. "Os americanos acabaram de eleger Barack Obama. Está claro que querem superar as barreiras raciais. Em Israel, com o fortalecimento de Lieberman, acontece o oposto, porque o racismo está em crescimento", disse. "Acho essa tendência muito perigosa. Não sabemos o quanto para a direita ainda poderemos ir", disse. Segev acrescenta, porém, que Israel ainda conta com muito apoio no Congresso americano e a aliança entre os dois países continuará forte.O escritor diz que não está descartada a possibilidade uma aliança na qual os partidos da extrema direita fiquem de fora. "Talvez a coalizão junte os principais partidos, como o Likud,o Trabalhista e o Kadima. Precisamos saber como será composto o governo", afirmou, indicando que o envolvimento de partidos radicais como o Israel Beiteinu, de Avigdor Lieberman, pode prejudicar os interesses de Israel.Ao ser questionado pelo Estado sobre a possibilidade de um diálogo como o regime islâmico iraniano, o escritor afirmou que ainda é muito cedo para saber. O Irã, segundo Segev, é o principal inimigo dos israelenses. "Não sabemos quase nada sobre os iranianos. Quem governa o país? Quem toma as decisões? Muitos israelenses enxergam o presidente Mahmud Ahmadinejad como um novo Hitler. O medo é genuíno", disse o escritor, que está terminando a biografia de Simon Wiesenthal, conhecido por sua caça a nazistas. G.C.

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