Leonardo Augusto/Estadão
Leonardo Augusto/Estadão

Décimo primeiro voo com brasileiros deportados dos EUA chega a Belo Horizonte

Passageiros relataram falta de orientação sobre o covid-19 em centros de imigração; mais de 600 imigrantes ilegais foram enviados de volta ao País nos últimos meses

Leonardo Augusto, especial para O Estado

23 de março de 2020 | 17h34

CONFINS - Menos de 72 horas depois de um avião com 47 imigrantes ilegais brasileiros deportados pelos Estados Unidos aterrissar no Aeroporto Internacional de Belo Horizonte, em Confins, na Região Metropolitana da capital, outro voo procedente do país da América do Norte, também com imigrantes ilegais brasileiros deportados, chegou ao terminal na tarde desta segunda-feira, 23, com 38 passageiros. Em meio à pandemia da covid-19, o avião que aterrissou no aeroporto da Grande Belo Horizonte era um dos cinco, de um total de 18, que não constavam como cancelados no painel do terminal às 14h, levando-se em conta chegadas entre as 13h30 e as 17h25.

"Se você tem fé, ainda que menor que seja, Deus te protege", pregou o motorista e pedreiro Evaldo Marques da Silva, de 45 anos, um dos deportados que chegou no voo desta segunda-feira. Nascido em São Geraldo da Piedade, Região Leste de Minas, chegou aos Estados Unidos, a El Paso, no Texas, em 19 de janeiro, depois de cruzar ilegalmente a fronteira do México com o país. Evaldo disse que em outras cidades do Texas, como Dallas, já há imigrantes ilegais colocados em quarentena por suspeita de coronavírus.

Paloma Paula Pereira Costa, de 22 anos, tentou a travessia, também via México e El Paso, com a filha de dez meses, Sofia, que voltou gripada. "Na última segunda-feira, minha filha teve febre. Levaram nós duas para uma ala fria com cobertores de alumínio (os mesmos usados por bombeiros em resgates). Briguei e me arrumaram um cobertor melhor", disse. Paloma, que é de Governador Valadares, afirmou que um teste foi feito, e que o resultado para a filha deu negativo para o covid-19. A tentativa de entrar nos Estados Unidos foi para encontrar seu namorado, que mora na Flórida.

Fernanda Alves, de 37 anos, de Carmo do Paranaíba, Região Noroeste de Minas, reclamou da falta de orientação sobre o covid-19 dentro do centro de imigração de El Paso. Fernanda tentou chegar aos Estados Unidos junto com seu filho, Michel, de 14 anos. "Ninguém fala nada sobre coronavírus", disse. "Do jeito que estávamos lá, foi muito melhor voltar". Mãe e filho estavam no centro de imigração desde o último dia 5. Fernanda afirmou ainda que no galpão em que estavam havia 118 mulheres e crianças.

Relatos semelhantes foram dados por deportados que chegaram a Confins no voo anterior ao de hoje. "O que mais tem lá é tosse", contou Tainara Nolasco Nunes, 20 anos, ao chegar ao saguão do aeroporto, na sexta. Ao lado do marido, David Handreu da Mata, 26, e das duas filhas, de 2 e 3 anos, Tainara relatou não haver qualquer tipo de orientação sobre o coronavírus no centro de imigração em El Paso, no Texas, onde a família ficou desde o dia 23 de fevereiro, quando tentaram entrar no país, a partir de Ciudad Juaréz, no México. O casal e os filhos são de Governador Valadares, onde a família tinha uma loja. "Ninguém falava nada com a gente sobre coronavírus. Começamos a desconfiar quando o segurança que ficava dentro do galpão em que estávamos junto com outras pessoas, passou a ficar fora e com máscara", disse David. "De vez em quando, um médico entrava e falava 'se alguém passar mal, avisa'", acrescentou.

O Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos (ICE), na sigla em inglês, em nota, afirmou que "para garantir que os detidos em custódia sejam bem cuidados durante a crise do covid-19, protocolos abrangentes estão em vigor para a proteção de funcionários e pacientes, incluindo o uso adequado de equipamentos de proteção individual (EPI), de acordo com a orientação do CDC (Centro de Controle de Prevenção de Doenças dos Estados Unidos)".

A nota diz ainda que o serviço de imigração e fiscalização aduaneira do país "mantém um plano de proteção da força de trabalho pandêmico desde 2014. Este plano fornece orientação específica para ameaças biológicas, como o covid-19", e que "está em constante contato com escritórios relevantes dentro do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos para orientações adicionais de como lidar com os riscos do covid-19. Isso inclui o uso de máscaras N95, respiradores e equipamentos de proteção individual adicionais".

Conforme a autoridade dos Estados Unidos o Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira "instituiu orientações de triagem para novos detentos que chegam às instalações para identificar aqueles que atendem aos critérios do CDC (Centro de Controle de Prevenção de Doenças dos Estados Unidos) para risco epidemiológico de exposição ao covid-19". 

Os detentos, segue o ICE, "com febre e/ou sintomas respiratórios que atendem a esses critérios são isolados e ficam em observação por um período de tempo especificado. A equipe do ICE consulta o departamento de saúde local, conforme apropriado, para avaliar a necessidade de testes. Os detentos sem febre ou sintomas respiratórios que atendam aos critérios de risco epidemiológico são monitorados por 14 dias".

O voo que chegou na tarde de hoje a Confins é o décimo primeiro em menos de cinco meses a trazer brasileiros deportados para o Brasil. Até agora o total de imigrantes ilegais mandados de volta é de 665. O início da deportação em ocorreu em outubro, depois de acordo entre os governos de Jair Bolsonaro e Donald Trump. Março já é o mês com maior número de voos, seis. Os aviões com deportados chegam por Confins porque é de Minas Gerais, sobretudo da Região Leste, que sai a maior parte dos imigrantes brasileiros que tentam a travessia ilegal via México.

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