AFP PHOTO / DELIL SOULEIMAN
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Decisão americana de fornecer armas aos curdos sírios provoca revolta da Turquia

Autoridades do país consideraram 'inaceitável' a medida anunciada na véspera pelo governo de Donald Trump, que enviará armas pesadas para milícias como as Unidades de Proteção do Povo, que Ancara considera um grupo terrorista

O Estado de S.Paulo

10 Maio 2017 | 13h49

ISTAMBUL - A Turquia expressou sua revolta com o que chamou de decisão "inaceitável" dos Estados Unidos de fornecer armas às milícias curdas na Síria, que celebraram a iniciativa e afirmaram que a medida "acelerará a derrota" do grupo extremista Estado Islâmico (EI).

O aumento da tensão entre Washington e Ancara coincide com a visita a Washington do chefe da diplomacia russa, Serguei Lavrov, nesta quarta-feira, com o objetivo de obter o apoio dos Estados Unidos para um projeto destinado a reduzir a violência na Síria. 

A decisão da Casa Branca de autorizar o Pentágono a fornecer armas às Unidades de Proteção do Povo (YPG) Curdo, que Ancara considera um grupo "terrorista", foi anunciada na terça-feira, uma semana antes do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, viajar a Washington. 

"Fornecer armas às YPG é inaceitável. Tal política não beneficiará ninguém", disse o vice-primeiro-ministro turco Nurettin Canikli. "Esperamos que este erro seja retificado", acrescentou Canikli.

As YPG são uma parte essencial das Forças Democráticas Sírias (FDS), uma aliança de combatentes curdos e árabes considerada por Washington como a força local mais eficaz para enfrentar o EI. 

A Turquia, no entanto, considera as YPG o braço sírio dos separatistas curdos do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), considerado um grupo "terrorista" por Ancara e seus aliados ocidentais.

"As YPG e o PKK são grupos terroristas, não existe nenhuma diferença entre eles. E cada arma enviada representa uma ameaça para a Turquia", declarou o chanceler turco, Mevlut Cavusoglu. 

"Nas SDF também há elementos árabes. Para uma operação em Raqqa é preciso separar as YPG dos árabes nas SDF. Será benéfico entrar em Raqqa com as forças árabes, e podem acrescentar a elas forças da oposição moderadas. Isso é muito importante para que a operação seja bem-sucedida. Raqqa é uma cidade com 99% de árabes sunitas. É preciso planejar bem o futuro das cidades na Síria para não dar passos equivocados", avaliou o ministro. 

O tema abalou nos últimos meses as relações entre Estados Unidos e Turquia, dois membros importantes da Otan e da coalizão internacional que luta contra os jihadistas, ao mesmo tempo que ilustra a complexidade do conflito sírio, principalmente na região norte do país. 

Ancara e Moscou, embora de lados opostos no conflito sírio, aumentaram a cooperação recentemente e na semana passada patrocinaram um memorando para criar "zonas de distensão" destinadas a reduzir a violência na Síria, conflito que deixou mais 320.000 mortos desde 2011.

As FDS, que iniciaram em novembro uma ofensiva contra Raqqa, o principal reduto do EI na Síria, com o apoio aéreo e logístico dos Estados Unidos, celebraram o que chamaram de "decisão importante" da Casa Branca. O anúncio "oficial do apoio é o resultado da grande eficácia das YPG e do conjunto das FDS nos combates contra o terrorismo" na Síria, afirmou Talal Sello, porta-voz das FDS. 

A decisão desagradou a Turquia, que esperava com a eleição de Trump uma mudança de postura de Washington a respeito das milícias curdas, que a administração do ex-presidente Barack Obama decidiu apoiar para tentar conter a expansão dos extremistas.

Erdogan declarou recentemente que tinha a esperança de escrever uma "nova página" das relações entre Turquia e Estados Unidos com Trump. Ele indicou que tentaria, na viagem a Washington, dissuadir o presidente americano de apoiar as milícias curdas para expulsar o grupo EI de Raqqa. / AFP e EFE

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