Decisão dá mais tempo à análise de inspetores da ONU

Ao esperar o retorno do recesso dos congressistas, dentro de uma semana, o presidente Barack Obama acabou dando tempo também para os inspetores da ONU apresentarem suas conclusões sobre o material e os depoimentos coletados na periferia de Damasco. Integrantes da equipe disseram neste sábado, ao chegar a Haia, vindos de Beirute, que o relatório pode levar de uma a três semanas para ficar pronto.

Lourival Sant’Anna, enviado especial de O Estado de S.Paulo,

31 de agosto de 2013 | 21h41

 

Mas o porta-voz da ONU Martin Nesirky advertiu que seu mandato era determinar se armas químicas foram usadas, e não por quem, abrindo caminho para o regime sírio manter sua alegação de que foram os rebeldes que utilizaram o gás sarin.

 

A equipe de 20 inspetores veio cedo por terra de Damasco para Beirute neste sábado, de onde embarcou para Haia, sede da Organização para a Proibição de Armas Químicas, à qual pertencem 9 dos 20 integrantes. Eles devem informar o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, a respeito das evidências que colheram, ao longo de quatro dias, sobre o ataque com armas químicas na periferia de Damasco.

 

Os inspetores levaram na bagagem grande quantidade de material, incluindo amostras de sangue, tecido humano, solo, água, fragmentos de foguetes e depoimentos de sobreviventes e testemunhas do ataque ocorrido no dia 21.

 

O pronunciamento de 10 minutos de Obama foi transmitido ao vivo pela TV estatal síria. O presidente Bashar Assad esteve reunido ontem com representantes do governo do Irã - um dos principais aliados da Síria, ao lado da Rússia. O adiamento do bombardeio - se é que ele será aprovado pelo Congresso - fortalece politicamente o regime de Assad, que já celebrou na noite de quinta-feira a derrota do primeiro-ministro David Cameron no Parlamento britânico, que não o autorizou a participar da operação americana, ainda que pela estreita margem de 285 votos contra e 272 a favor.

 

Dá também mais tempo aos militares sírios para deslocar e proteger instalações sensíveis - embora fontes do Pentágono afirmem que os satélites monitoram cada movimento na Síria, 24 horas por dia.

 

"Nosso temor agora é que a falta de ação possa encorajar o regime e que eles repitam seus ataques de forma mais grave", disse Louay Safi, porta-voz da Coalizão Nacional Síria, que representa a oposição no exterior. Safi considerou a decisão de Obama "surpreendente", e uma "continuação da inação".

 

Ele acrescentou que "só o regime tem a capacidade" de empregar armas químicas, e um ataque americano "o faria pensar duas vezes antes de fazer isso de novo", e poderia convencê-lo a partir seriamente para negociações com a oposição.

 

A decisão de Obama representa um anticlímax para os rebeldes, que planejavam avançar no terreno sobre as posições atingidas pelos bombardeios americanos na Síria. O coronel Qassim Saadeddine, porta-voz do Conselho Militar Supremo, disse ontem à agência Reuters que o comando unificado enviou planos de ação a grupos rebeldes em várias partes do país para aproveitar os bombardeios contra os alvos do regime, embora não haja uma coordenação entre as operações dos Estados Unidos e de seus aliados e o Exército Sírio Livre.

 

"Esperamos aproveitar quando algumas áreas forem enfraquecidas pelos ataques", disse Saadeddine, em entrevista via Skype, antes do pronunciamento de Obama.

 

"Ordenamos que alguns grupos preparem seus combatentes em cada província, para quando o ataque ocorrer. Eles receberam um plano militar que inclui preparativos para atacar alguns dos alvos que esperamos que sejam atingidos pelos bombardeios estrangeiros, e alguns outros que esperamos atacar ao mesmo tempo."

Tudo o que sabemos sobre:
onu, siria

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.