Decisão de Israel de barrar Günter Grass gera polêmica

Ganhador do prêmio Nobel de Literatura é considerado persona non grata em Israel após ter publicado poema em que critica o país.

Guila Flint, BBC

09 de abril de 2012 | 19h51

O anúncio do governo israelense considerando o escritor alemão Günter Grass persona non grata em represália a um poema que publicou criticando Israel provocou um debate no país.

O ministro do Interior, Eli Ishai, anunciou que Günter Grass, ganhador do prêmio Nobel de Literatura, não poderá mais entrar em Israel depois que publicou um poema afirmando que um ataque israelense ao Irã "poderia exterminar o povo iraniano" e que "Israel, potencia nuclear, põe em perigo uma paz mundial já fragil".

"Se Günter Grass quer continuar publicando suas obras distorcidas e mentirosas, sugiro que o faça no Irã, onde poderá encontrar simpatizantes", disse o ministro, ao acrescentar que considera o escritor "antissemita".

O anúncio de Ishai teve o apoio do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, que lembrou o passado nazista do escritor alemão.

e afirmou que "Por seis décadas, o sr. Grass escondeu o fato de que havia sido membro da Waffen SS. Assim, para ele, classificar o único Estado judaico como a maior ameaça à paz mundial e se opor a dar a Israel os meios para se defender talvez não seja surpreendente", afirmou.

No poema, publicado no jornal Süddeutsche Zeitung, Grass também criticou a decisão do governo alemão de vender a Israel um submarino que poderia, segundo fontes estrangeiras, portar armamentos nucleares.

Protestos

A decisão do governo provocou uma onda de protestos por parte de intelectuais e jornalistas israelenses, que questionam a qualificação de "antissemita" a pessoas que criticam a política atual de Israel.

Em artigo no site de noticias Ynet, o escritor Eyal Meged afirma que "nem todos os que criticam Israel são antissemitas" e defende o escritor alemão.

"A escrita de Grass, que admiro há décadas, é emocionante e humana... é óbvio que esse grande escritor não é antissemita", afirma Meged, ao acrescentar que Grass "tem o direito de nos criticar o quanto quiser".

O editorial do jornal Haaretz critica a atitude do governo.

"O ministro do Interior, Eli Ishai, não percebe a ironia de suas palavras, pois justamente sua decisão de barrar a entrada de Grass em Israel por causa de um poema que escreveu lembra regimes sombrios, exatamente como os do Irã ou da Coreia do Norte".

O jornal também propõe que o debate sobre os pronuciamentos de Grass seja conduzido de acordo com normas liberais e democráticas "que permitem que todas as pessoas expressem suas posições, por mais provocativas que sejam".

O ex-embaixador de Israel na Alemanha, Avi Primor, afirmou que "vale a pena prestar atenção ao titulo do poema - 'O que precisa ser dito' - que expressa uma indignação pelo medo de criticar Israel".

Para o diplomata, esse medo decorre da reação do governo israelense às criticas, "como Ariel Sharon, que considerava qualquer crítica como 'antissemita'"

Segundo a interpretação de Primor, o poema de Grass é um protesto contra a "hipocrisia" do governo alemão, "que critica Israel nos bastidores, mas se contém em público". BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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