Decisão dos EUA sobre aço vai influenciar Brasil na Alca

O Brasil considera-se parceiro comercial dos Estados Unidos, acha que é parte da solução e não da crise que a indústria siderúrgica americana atravessa e está disposto a conviver com alguma limitação temporarária às suas exportações de aço para o mercado americano, se estas tomarem a forma de quotas e levarem em consideração a participação histórica dos fornecedores brasileiros, especialmente na área dos aços semiacabados. Mas qualquer decisão que inclua a imposição de tarifas e bloqueie o acesso do aço brasileiro aos EUA ?será um golpe sério nas relações comerciais entre os dois países e poderá gerar desdobramentos na Organização Mundial do Comércio (OMC) e na Área de Livre Comércio das Américas (Alca), pois será vista por nós como mais uma demonstração de que o núcleo duro do protecionismo nos EUA contínua infenso às políticas de liberalização?, afirmou nesta terça-feira o embaixador Valdemar Carneiro Leão, chefe do departamento Econômico do Itamaraty, ao final de dois dias de reuniões com altos funcionários de vários departamentos do governo americano e da Casa Branca. A missão, integrada também pelo secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior, Roberto Giannetti da Fonseca, e por executivos do setor privado, apresentou a visão do Brasil sobre o processo que o presidente George W. Bush iniciou em junho passado, sob pressão do poderoso lobby do aço, para ampliar a proteção ao setor. Em outubro passado, a Comissão de Comércio Internacional acatou a tese da indústria, segundo a qual as importações são parte das causas da crise e determinou que elas causaram danos ao setor em dezesseis dos 33 tipos de aço que os EUA compram de fornecedores externos. Em dezembro, a ITC recomendou a Bush a imposição de um amplo leque de tarifas, quotas e de quotas tarifárias. O líder americano pode acatar total ou parcialmente as recomendações da ITC ou ignorá-las totalmente. Ele anunciará sua decisão na primeira quinzena de março. As importações siderúrgicas americanas atendem cerca de 30% do consumo total. No ano 2000, o Brasil vendeu cerca de US$ 700 milhões em produtos siderúrgicos no mercado americano, dos quais US$ 500 milhões em aços semiacabados. Dependendo do ano, a Companhia Siderúrgica Nacional, a Companhia Siderúrgica de Tubarão e a Cosipa atendem entre 25% e 40% da demanda de chapas de aço carbono, o principal tipo de aço semiacabado. ?Lembramos a eles que há empresas brasileiras, como CVRD, CSN e Gerdau, que investem no mercado siderúrgico americano e mostram, dessa forma, que o Brasil é parte da solução?, disse Giannetti. ?Queremos aumentar a parceria?, acrescentou. ?Mas consideramos inaceitável a continuação do protecionismo geriátrico à siderurgia americana?, afirmou o secretário-executivo da Camex, referindo-se à teia de subsídios e barreiras não tarifárias montada nos últimos vinte anos nos EUA para defender o setor mais antigo e ineficiente da indústria do aço do país. A missão de Carneiro Leão e Giannetti terminou nesta terça-feira com uma reunião com o subsecretário internacional de Comércio, Grant Aldonas. Em abril do ano passado, quando já se sabia do plano de Bush de iniciar a ação protecionista como parte da estratégia para obter o sinal verde do Congresso para negociar novos acordos de liberalização comercial, o presidente Fernando Henrique Cardoso sinalizou que o desfecho do caso influenciaria a atitude do Brasil quanto ao projeto da ALCA. FHC disse que, se o objetivo da ALCA é liberalizar o comércio no continente, ?o Brasil que ser parte da proteção? que os EUA derem à sua indústria. Carneiro Leão indicou a seus interlocutores que o Brasil está disposto a compreender a imposição de restrições temporárias, mas considera crucial a preservação da participação do país como principal fornecedor de aços semiacabados, na solução que Bush adotar. Ele disse também às autoridades americanas que o País considera a ação americana passível de contestação legal e não descarta a hipótese de, eventualmente, pedir uma investigação contra nova ação protecionista de Washington. A decisão final da OMC em processo da UE, que condenou como ilegais subsídios à exportação dados pelos EUA sob a forma de certas isenções de impostos, abriu nesta semana uma nova e importante variável para a decisão de Bush sobre a indústria siderúrgica. O veredito autoriza a imposição de pesadas sanções comerciais contra os UEA. Mas especialistas como Gary Hufbauer, do Institute of International Economics, apostam que a UE provavelmente usará a ameaça de retaliação contra os EUA como instrumento de barganha para proteger seus interesses no mercado americano em outras áreas, como a do aço. ?Não há nenhuma razão para os europeus se apressarem em retaliar?, disse Hufbauer ao Wall Street Journal. ?Essa decisão (da OMC) é uma importante moeda de trocapara a Europa. Se Bush gravar as importações européia de aço, a UE poderá calibrar as sanções que está autorizada a fazer, de modo que elas atinjam empresas de Estados americanos produtores de aço, como Pensilvânia, Indiana e Virginia Ocidental.?

Agencia Estado,

15 Janeiro 2002 | 22h06

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