Decisão judicial é golpe, diz oposição

Opositores egípcios criticam sentença que dissolveu o Parlamento e temem pelo futuro da democracia no país

CAIRO, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2012 | 03h04

Opositores criticaram ontem a decisão da Suprema Corte do Egito de dissolver o Parlamento dominado por islâmicos eleitos em dezembro. Mohamed Beltagy, um dos líderes da Irmandade Muçulmana, disse que a ação era um "golpe de Estado", mesmo termo usado por outros membros da oposição, como Abdel Moneim Aboul Fotouh, dissidente da Irmandade e islâmico liberal.

Do lado de fora do tribunal, manifestantes gritaram "abaixo o governo militar" e jogaram pedras nos soldados que faziam um cordão de segurança. "A decisão da Suprema Corte de considerar inconstitucional o atual Parlamento é um golpe de Estado total", afirmou Beltagy na página no Facebook da Irmandade Muçulmana.

De acordo com ele, o "golpe" começou com a absolvição das autoridades de segurança no processo contra o ex-presidente Hosni Mubarak, no dia 2, referindo-se às pessoas julgadas pela morte de mais de 800 manifestantes durante a revolta contra a ditadura no ano passado.

"O golpe terminou agora, a dois dias do segundo turno da eleição presidencial, com a invalidação da chamada lei de isolamento político, que permitiu a Ahmed Shafiq, último primeiro-ministro de Mubarak, permanecer na disputa pela presidência", disse.

Crise política. "Qualquer um que pense que o povo deixará passar esse golpe está delirando", afirmou Fotouh, ex-candidato, que condenou também a decisão de permitir que Ahmed Shafiq, que também foi ex-premiê de Mubarak, permaneça na corrida presidencial.

Fotouh criticou ainda o decreto emitido pelo Ministério da Justiça na quarta-feira que concedeu à polícia e ao Exército o poder de prender civis sem acusação formal. "Manter o candidato dos militares, dissolver o Parlamento eleito e dar à polícia o direito de prender civis é um golpe completo", disse Fotouh.

Alguns políticos foram além e disseram que a decisão judicial era o fim da revolução. O deputado Saad Aboud, do partido Al-Karama (Dignidade), acusou o tribunal de politizar a Justiça do país. "É um veredicto politizado, que constitui um golpe", afirmou em entrevista ao jornal britânico The Guardian. "Sobre a decisão de manter Shafiq na disputa, significa a morte da revolução, que agora tem de ser reconstruída."

Essam el-Erian, membro do partido da Irmandade Muçulmana, o Liberdade e Justiça, disse que o Egito está entrando em um momento sombrio. "Se o Parlamento for dissolvido, o país entrará em um túnel escuro. O próximo presidente não terá de enfrentar nem um Legislativo nem uma Constituição", disse. "Há um estado de confusão e muitas dúvidas neste momento."

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