DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Declaração de coronel em Pacaraima causa desconforto no governo

No sábado, José Jacaúna - que comanda a Operação Acolhida em Roraima - afirmou que governo deveria se posicionar sobre uma possível agressão ao País pelos militares da Guarda Nacional Bolivariana durante repressão a manifestantes

Tânia Monteiro, Brasília

24 de fevereiro de 2019 | 18h52

BRASÍLIA - Causou enorme desconforto e mal-estar no governo e na cúpula militar a declaração do coronel do Exército, José Jacaúna, chefe da Operação Acolhida em Roraima, que, diante do confronto entre civis e militares venezuelanos na fronteira, classificou o episódio como uma "agressão" ao Brasil, o que exigiria uma resposta à altura do País. "Essa declaração pegou todos de surpresa. Não vai se repetir", afirmou um general ouvido pelo Estado

"Não houve ataque ao Brasil ou ato de hostilidade ao nosso País. Eles se enfrentaram de lá, jogaram gás lacrimogêneo, pedras e sobrou pra nós. Não dá pra fazer disso uma tempestade", minimizou outro general, insistindo que o problema é local, interno da Venezuela e que o Brasil não vai entrar do outro lado. E emendou: "O clima é o clima da Venezuela. Eles estão se enfrentando, pode acabar transcendendo o outro lado porque estão na linha de fronteira. Vai fazer o que? Declarar guerra à Venezuela? Pelo amor de Deus. Isso não existe." 

Em seguida, completou: "ato de hostilidade é eles invadirem o Brasil, tomarem o posto fronteiriço de Pacaraima e avançarem em direção a Boa Vista. Isto sim é um ato hostil. Não foi nem de longe o que aconteceu".

Diante do episódio, a orientação da cúpula militar é redobrar os cuidados em relação às declarações dadas pelos oficiais que participam das operações para evitar novos problemas. A declaração do coronel Jacaúna foi considerada "grave" pelo fato de ter potencializado um episódio que poderia ser tratado como "natural" e contornado "com serenidade", "se fosse considerado um respingo, como foi avaliado pelo governo", conforme comentou um terceiro general. 

A cúpula militar sabe que o enfrentamento que ocorreu no sábado, e se repetiu em menor escala neste domingo, 24, se repetirá muitas outras vezes ainda, devido à tensão na fronteira. Daí a decisão de colocar, preventivamente, a Força Nacional do lado brasileiro, para afastar os curiosos e jornalistas da linha de enfrentamento, tentando evitar incidentes que possam fugir do controle.

O presidente Jair Bolsonaro recebeu informações durante todo o dia pelo gabinete de crise, que acompanha diuturnamente o problema na fronteira entre os dois países e a crise da Venezuela em geral. Os mantimentos e remédios continuam à disposição dos venezuelanos, desde que eles venham buscá-los no Brasil, já que os brasileiros não atravessarão a fronteira.

Pressão diplomática

O momento, na avaliação destes militares, é de aumentar a pressão diplomática internacional sobre Nicolás Maduro. O presidente venezuelano, no entanto, continua forte e com apoio de grande parte da cúpula das Forças Armadas de seu país. Isso foi constatado no longo discurso que fez no sábado para uma multidão em Caracas

Além das Forças Armadas, Maduro tem ao seu lado a guarda nacional, os milicianos e cubanos, todos armados, protegidos e beneficiados por ele. Lembram ainda que as Forças Armadas locais estão corrompidas e dominaram a economia do país e parecem não querer abrir mão destes benefícios.

A reunião do Grupo de Lima, marcada para esta segunda-feira, em Bogotá, com a presença de 14 países que, exceto o México, apoiam o autodeclarado presidente interino venezuelano Juan Guaidó, significa a subida de mais um degrau na pressão sobre Caracas. 

A queda de Maduro, no entanto, avaliam estas fontes, só ocorrerá quando a maioria dos venezuelanos se revoltar e for às ruas pressionar por sua saída. As defecções nas Forças Armadas, apesar de começarem a ocorrem, não têm tido impacto significativo. "A força de Maduro não pode ser desprezível. Não sabemos quanto tempo ele ainda aguenta", observou um dos generais.

De acordo com um dos militares ouvidos pelo Estado, está mantida a determinação de respeito à soberania do país vizinho e de não entrar em solo venezuelano. 

Apesar do clima tenso na fronteira, os oficiais lembram que ainda existe uma interlocução entre os militares dos dois países. O Brasil não acredita que a Venezuela vá adotar qualquer tipo de atitude hostil contra o País e minimiza o poder de fogo deles.

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