Declaração de império

Proposta que amplia o conceito de inimigo dos EUA poderia autorizar indefinidamente o desvio das forças americanas para qualquer lugar onde haja ''associados'' do terrorismo

James Carroll, The Boston Globe, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2011 | 00h00

A Câmara dos Representantes (deputados federais) dos Estados Unidos está debatendo uma nova definição para a missão militar americana no mundo, substituindo o mandato adotado imediatamente após o 11 de Setembro. Em vez de simplesmente autorizar o presidente a travar uma guerra contra aqueles que tivessem "cometido ou facilitado" os ataques de 2001, a proposta da Ata de Autorização da Defesa Nacional expande o conceito de inimigo dos EUA, que passaria a incluir forças "associadas" a antagonistas já identificados, como a Al-Qaeda e o Taleban.

De acordo com aqueles que criticam a proposta (entre eles vários democratas da Câmara que solicitaram na semana passada a exclusão de termos deste tipo), esta ampliação aparentemente inócua poderia, na verdade, autorizar indefinidamente um desvio das forças americanas envolvidas no Iraque e no Afeganistão para qualquer outro local onde sejam encontrados traços da atividade destes grupos associados, cuja definição é tão vaga. As duas guerras atuais poderiam se tornar três, quatro ou cinco, afastando-se do Oriente Médio e chegando à África, ao Sul da Ásia ou a qualquer outro lugar onde haja, por exemplo, uma foto de Osama bin Laden afixada nos alojamentos.

Interpretação. Mas espere um instante. Durante a maior parte da última década, o Exército americano já lutou contra um amorfo e transnacional inimigo terrorista seguindo a interpretação mais aberta possível da autorização aprovada após o 11/9. Aviões não tripulados, mísseis, forças especiais e combatentes mercenários atacaram alvos impunemente muito longe das zonas de combate reconhecidas oficialmente. O governo Obama, sob tantos aspectos muito diferente de seu antecessor, emprega as Forças Armadas com liberdade, assim como fazia o governo Bush.

Assim sendo, que motivo haveria agora para expandir este mandato? Apesar de os termos da legislação proposta simplesmente afirmarem aquilo que se tornou a prática da Casa Branca e do Pentágono, a questão envolve mais do que simples diretrizes políticas. A lei aprovada após o 11/9 fazia uma afirmação implícita da projeção global das forças americanas com base numa emergência; a nova legislação rejeitaria explicitamente todas as limitações de tempo e lugar que incidiriam sobre esta projeção de força. Em outras palavras, uma mudança aparentemente sutil marca um movimento que se afasta do excepcional e se aproxima de um limiar de normalidade. Existe uma palavra que define a estrutura aberta por este limiar: a legislação proposta é um passo no sentido de uma declaração aberta de um império americano.

Na era Bush, representantes do governo e intelectuais públicos promoveram durante algum tempo a ideia de um império americano, declarando como dever dos EUA a manutenção de seu domínio de alcance mundial por meio da força militar, tudo em nome da ordem política e do bem-estar econômico - não apenas dos americanos, mas de todo o mundo.

Aproveitando uma expressão do historiador Niall Ferguson, esta proposta virtuosa faria dos EUA "um império convidado". O surgimento do terrorismo enquanto ameaça em massa fez com que essa missão hegemônica parecesse inevitável. Em algum momento, a palavra "império" saiu de moda, mesmo entre a direita. Ainda assim, as estruturas e a ideologia - e as bases - do domínio de alcance mundial se reproduziram, e logo a suposição central dos impérios foi incorporada à consciência americana - a ideia de que as regras da ordem global se aplicam a todos os países, exceto por aquele que policia o cumprimento de tais regras.

A guerra dos EUA contra o terrorismo, incluindo seu clímax no ataque contra o complexo de Bin Laden, expôs este duplo critério da superpotência. Washington está simplesmente acima da lei. O que pensariam os americanos se aeronaves não tripuladas vindas do México atacassem barões do tráfico de drogas abrigados em imensas mansões de San Diego? Depois do assassinato de Lord Mountbatten em 1979, o que teriam pensado os americanos se comandos britânicos tivessem atacado Nova York, cidade repleta de simpatizantes do IRA, para matar ou capturar o republicano irlandês fugitivo responsável pelo planejamento do atentado? Intervenções como estas jamais seriam toleradas.

Intervenções. Assim sendo, por que Washington patrocina intervenções equivalentes em outras partes do mundo? Ora, porque é isso que fazem os impérios.

A ideia de que o bem comum exigiria tal grau de excepcionalismo foi até agora dada como certa, sem precisar de uma admissão reconhecendo este fato, mas agora o Congresso almeja converter este entendimento informal em legislação oficial. Cuidado, "associados"! Bin Laden se foi, mas o partido americano da guerra segue com força total.

Será que este é o único rumo a seguir? Suponhamos que o "convite" ao imperialismo americano seja principalmente benigno (o que exige que deixemos de lado as questões envolvendo estruturas econômicas injustas no exterior e os efeitos brutalizantes da cultura de guarnição entre os americanos). Suponhamos também que a expansão contemplada pelo Pentágono seja capaz de realmente desarmar o terrorismo (em vez de incentivá-lo).

Ainda assim, a consequência mais duradoura do império americano do século 21 será a destruição final do internacionalismo autêntico - países unidos pelo poder de uma lei democrática de comum acordo, por sistemas internacionais de freios e contrapesos, todos seguindo as mesmas regras, policiando uns aos outros. Esta será, em outras palavras, a destruição do único mundo onde há uma verdadeira esperança de paz e justiça. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É JORNALISTA, ESCRITOR E HISTORIADOR

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