Declaração de Saddam pode pressionar Bush

Se Saddam Hussein mantiver a estratégia de negação e declarar este fim de semana que não dispõe de armas de destruição em massa, a pressão recairá sobre o presidente George W. Bush e sua dividida equipe de política exterior. Eles podem responder rapidamente com a força, o caminho preferido pelo vice-presidente Dick Cheney e seus aliados no Pentágono, ou permanecerão no mais paciente caminho da diplomacia defendido pelo secretário de Estado, Colin Powell. De qualquer forma, a Casa Branca afirma que, ao manter sua inocência, Saddam está cortejando a guerra. "A escolha é dele", disse Bush a repórteres na quinta-feira. Para o secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld, "um final feliz" seria com Saddam partindo do Iraque. Bush esforçou-se esta semana para manter a pressão sobre o regime iraquiano, enquanto Saddam ganhava a simpatia de líderes mundiais ao cooperar com os inspetores de armas das Nações Unidas. Mensagens contraditórias da equipe de política externa de Bush não ajudaram a causa do presidente. Enquanto Powell elogiava os inspetores de armas por terem "dado uma boa largada", o próprio Bush declarava que "os sinais (vindos de Bagdá) não são encorajadores". Bush também disse que Saddam "não é alguém que parece estar interessado em cumprir" suas obrigações. Cheney havia advertido na segunda-feira que "engodos não serão tolerados" quando o Iraque declarar quais armas de destruição em massa possui em seu arsenal. A declaração tem de ser entregue até domingo. O Iraque tem dito que não possui tais armas. Estopim O tom do vice-presidente, que pode sugerir que a declaração do Iraque seria o estopim de uma guerra, forçou a Casa Branca a baixar as expectativas sobre uma resposta imediata. A mudança de retórica poderia fazer parte de uma estratégia para manter Saddam na incerteza. Mais provavelmente, ela simplesmente reflete que Bush ainda tem de determinar como negociar essa última hora da verdade na longa confrontação entre os EUA e o Iraque. Uma opção seria dar secretamente a inspetores informação de inteligência dos EUA sobre armas de destruição em massa do Iraque e incentivá-los a confirmar que Saddam está mentindo. A Casa Branca insiste em ter as provas e compartilhá-las com os inspetores da ONU. Neste cenário, os inspetores iriam relatar suas descobertas sobre as armas iraquianas ao Conselho de Segurança da ONU, o qual Bush deve consultar devido ao compromisso feito para garantir a aprovação de uma nova resolução sobre o Iraque. Autoridades da administração que defendem esse caminho dizem que Bush convenceria até os mais céticos aliados dos EUA e ajudaria a angariar apoio para uma guerra contra o Iraque. O aval da ONU poderia convencer a Turquia e a Arábia Saudita a permitir o uso de suas bases militares para um ataque contra o Iraque. Mas existe um ceticismo generalizado na Casa Branca sobre o processo de inspeção. Seca Bush tem dito a assessores temer que armas de destruição em massa possam ser facilmente escondidas mesmo do mais forte regime de inspeção. "Falcões" da administração, como Cheney e Rumsfeld, também temem que Saddam possa usar o sistema de inspeção para fazer arrastar a decisão sobre o conflito para março, quando se inicia a estação seca, impraticável para operações militares. "Os inspetores vão levar muito tempo, talvez mais do que a administração Bush está disposta a esperar, para provar que Saddam é um mentiroso", avaliou Bill Taylor, diretor de estudos político-militares do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, um think tank de Washington. Os mais agressivos querem que Bush leva seu caso imediatamente ao Conselho de Segurança. Apesar de não ser necessária uma aprovação do conselho para lançar uma guerra, a maioria dos funcionários da administração e de especialistas externos concorda que, devido a considerações políticas, Bush deve pelo menos oferecer provas ao conselho - e, mais provavelmente, ao mundo - de que Saddam mentiu sobre suas armas. Taylor disse que Bush pode encenar um ato semelhante a um de 1962, quando o embaixador americano Adlai Stevenson levou à ONU provas de que mísseis russos estavam instalados em Cuba. "Bush pode dizer ´Chega. Os turcos vão ajudar. Se não posso usar bases sauditas, eu vou para o Catar. Tenho ajuda suficiente fora da ONU´", considerou Taylor. "A pressão então recairá sobre os aliados dos EUA. Bush questionaria ´Vocês estão conosco ou não?´" Mas talvez seja Bush quem esteja sentindo a pressão. Depois que o Iraque entregar seu relatório neste fim de semana, inspetores da ONU e muitos aliados dos EUA irão exigir que Washington ou apresente suas provas ou se cale. "Será o momento", disse o chefe dos inspetores, Hans Blix, "para aqueles que dizem ter evidências, de colocarem esta evidência sobre a mesa".

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