Declarações de presidente do Irã geram novas preocupações

A declaração feita pelo presidente iraniano na semana passada de que o país tem conduzido testes com centrífugas de última geração para o enriquecimento de urânio pode significar - caso seja verdadeira - que o Irã contará em breve com a habilidade de produzir combustível nuclear tanto para a produção de energia quanto para a fabricação de bombas. A avaliação é de analistas ouvidos pela Associated Press e pelo New York Times. Na última quarta-feira, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad havia dito, em palestra a estudantes, que o país tem realizado testes com centrífugas da categoria P-2, um tipo mais sofisticado de equipamento para o enriquecimento de combustível nuclear. Ahmadinejad fez o anúncio um dia depois de se tornar público o êxito do Irã em enriquecer uma pequena quantidade de urânio com a utilização de um tipo menos sofisticado de centrífugas. Está é a primeira vez em três anos que o país admite estar trabalhando com os equipamentos do tipo P-2. Em 2003, o Irã informou à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) ter suspendido todas as atividades relacionadas às pesquisas com essas centrífugas. Ainda não está claro se o país manteve os testes com os modelos mais sofisticados a despeito da informação fornecida à AIEA ou se o país retomou as atividades recentemente. Seja como for, as afirmações de Ahmadinejad serviram para aumentar as suspeitas de que Teerã possui um programa nuclear secreto. A AIEA e outros grupos independentes têm questionado o Irã nos últimos anos sobre a existência desses planos. De acordo com uma reportagem publicada nesta segunda-feira no site do NYT, analistas ocidentais sustentam que o suposto programa nuclear secreto tem como origem plantas e desenhos comercializados no mercado negro pelo cientista nuclear paquistanês Abdul Qadeer Khan, o "pai" da bomba no Paquistão. Ainda segundo o diário nova-iorquino, a confirmação de que Teerã trabalha para desenvolver as centrífugas do tipo P-2 redobraram as preocupações acerca da proximidade entre o regime iraniano e Khan, uma vez que boa parte da tecnologia de enriquecimento que vem sendo explorada pelo país foi fornecida pelo cientista. Assim, argumenta a reportagem, se a informação divulgada por Ahmadinejad na quarta-feira for verdadeira, é possível afirmar que a parceria entre Khan e Teerã foi mais "longa e profunda do que se imaginava anteriormente". O texto afirma também que ainda não está claro se Khan vendeu aos iranianos as plantas de uma bomba nuclear desenvolvida pela China. Blefe De qualquer forma, analistas familiares com o programa nuclear iraniano dizem que é possível que o presidente iraniano tenha exagerado em suas declarações sobre o desenvolvimento tecnológico do país. A avaliação é que ele precisará de apoio político interno nos próximos dias, quando o Irã estará sob inspeção da AIEA. "Nossas centrífugas são do tipo P-1. As P-2, que têm a capacidade quadruplicada, estão agora em fase de testes no país", disse o presidente aos estudantes de Khorasan, no nordeste do país, na última quarta-feira. O programa de enriquecimento de urânio de Teerã desafia os pedidos dos Estados Unidos, União Européia e da própria AIEA, órgão da ONU cuja responsabilidade é promover e fiscalizar o uso pacífico da energia nuclear. Um diplomata com base em Viena - que pediu anonimato - disse que a abrangência dos testes iranianos com as centrífugas P-2 ainda não está clara. Ele acrescentou, no entanto, que se as declarações de Ahmadinejad forem confirmadas, é possível prever que o país será capaz de produzir armamentos nucleares mais rápido e em maior escala do que se previa até o momento. Segundo as últimas estimativas do governo americano, com base em informações que não incluíam os esforços com os equipamentos do tipo P-2, Teerã não poderia criar uma bomba atômica antes da próxima década. Agora, essas previsões terão que ser revistas. Pressão No mês passado, o Conselho de Segurança da ONU exigiu que Teerã cancelasse todas as atividades relacionadas ao enriquecimento de urânio até o dia 28 de abril. Os EUA e a União européia acusam o país de ter planos para desenvolver bombas nucleares. Teerã nega as acusações, alegando que seu programa nuclear tem por objetivo a geração de energia. Ainda nesta segunda-feira, o governo iraniano disse que as ameaças não afetarão sua decisão de manter o programa. "Ameaças não são efetivas", disse o principal negociador nuclear do país, Ali Larijani, em entrevista à TV estatal iraniana.

Agencia Estado,

17 Abril 2006 | 14h49

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